Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

AUGA – água.
AUGADO – insatisfeito; desiludido; que tem auguamento. Também se diz ógado. Júlio Silva Marques fala em aguado e em ougado, como aquele que ficou com vontade de uma coisa.
AUGAR – desejar ardentemente. Tirar água para rega (Francisco Vaz). Também se diz ogar.
AUGARRADA – aguaceiro; chuva súbita (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa da Raia).
AUGUADEIRA – água da chuva que cai dos beirais das casas (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa da Raia).
AUGUAMENTO – doença originada por um desejo alimentar insatisfeito. Vitor Pereira Neves, Joaquim Manuel Correia e Maria Leonor Buescu escrevem aguamento. Para se evitar o auguamento dos animais devem-se convidar, dando-lhes uma pequena porção de alimento, sempre que o dono verificar que ficaram com vontade de comer. Também a mulher que está gestante não deve deixar de provar uma iguaria, sempre que a vê comer a outra pessoa.
AUGUEIRA – canal por onde corre a água da rega. O m. q. regadeira (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
AVARANGAR – abanar com o peso. «As pernas avaramgavam como ramos de giestas» (Abel Saraiva). Clarinda Azevedo Maia também recolheu a expressão, mas com a alteração fonética: abrangar.
AVARICIOSO – avarento. Clarinda Azevedo Maia, que reporta o termo a Aldeia da Ponte, respeita a alteração fonética usual da consuante v: abaricioso.
AVECA – aiveca; cada uma das duas peças do arado que viram a terra, formando do rego. Júlio Silva Marques refere abecas e Júlio António Borges aibecas.
AVEJÃO – pessoa, ou cão pequeno, que toma ares de mais avantajado; pessoa encorpada (Júlio António Borges).
AVÉ-MARIAS – toque do sino em saudação da Virgem Maria, convidando a rezar: de manhã, ao meio-dia e ao sol posto (ao último toque, o do anoitecer, chama-se Trindades).
AVENTAL – resguardo de pano que as mulheres se coloca sobre a saia para a protegerem. Os ferreiros usam também um avental em couro para protecção das faúlhas expelidas pela frágua.
AVENTAR – deitar fora. Deitar abaixo: aventou com ele no chão. Júlio Silva Marques e José Pinto Peixoto referem avantar.
AVESSEIRA – encosta onde bate pouco o sol (lado Norte). A avesseira é menos própria o bom desenvolvimento das culturas agrícolas.
AVESTRUZ – mulher alta e desajeitada – termo depreciativo (Júlio António Borges).
AVEZADO – habituado. Bem avezado – bem educado. Clarinda Azevedo Maia recolheu a expressão com alteração fonética: abezado.
AVEZAR – tomar vezo; habituar; acostumar.
AVIADO – pronto; preparado. Clarinda Azevedo Maia recolheu em Aldeia do Bispo a expressão com alteração fonética: abiado, que traduziu por «informado» – mal abiado: enganado, mal informado.
AVIAR – despachar; seguir depressa. Ir aviar-se: fazer as necessidades fisiológicas.
AVINAGRADO – ébrio; bêbado; quezilento. «O vinho tornava-o avinagrado por dentro, fazendo a vida negra à mulher» (Manuel Leal Freire).
AVINHADO – que bebeu vinho em excesso; bêbedo.
AVINHADURA – primeira moedura que se faz, em cada ano, no lagar de azeite (Júlio António Borges).
AVINHAR – beber vinho em excesso; embebedar.
AVOANTA – perdiz; ave de caça; galinha; mosca – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
AZADO – jeitoso; adequado; propício; cómodo. Costuma dizer-se azadinho: Que sacho tão azadinho. «Preparou-se sítio azado para se apear» (Joaquim Manuel Correia).
AZÁFAMA – trabalho muito movimentado, com muita pressa.
AZAGAL – zagal; rapaz do gado. Moço de recados (Júlio António Borges).
AZAGUEIOS – berros e assobios que de noite os rapazes fazem às noivas, a avisá-las de que vão falar com elas a casa. «Ih! Ghi! Ghi! / Ah! Gha! Gha! / Oh! Gho! Gho!. Vozes estrídulas e arrastadas, em falsete, assobios agudos e cortantes, exclamações anasaladas de apupo e ameaça, lamentos cavos de anseios bárbaros». (Nuno de Montemor referindo-se aos azagueiros proferidos pelos moços de Quadrazais).
AZAMEL – mandrião; atado; preguiçoso; lento.
AZANGADO – vergado com o peso que transporta; muito carregado (Joaquim Manuel Correia). Vai azangadinho de todo.
AZEDA – planta que cresce espontânea nos lameiros, de sabor ácido, com a qual se faz sopa e salada.
AZEITEIRA – almotolia do azeite (Clarinda Azevedo Maia).
AZEITEIRO – chifre adaptado a frasco, de pregaria em volta da boca e tampa de cortiça, com uma mistura de óleos para untar, e que era acessório da gadanha (Manuel Leal Freire); o m. q. caçapo. Vendedor ambulante que nada pelas aldeias.
AZÉMOLA – mandrião; parvo; estúpido. Besta de carga.
AZERVE – carreiro feito no mato para caçar perdizes a laço (Meimão).
AZEVÉM – planta daninha que cresce entre o centeio (Nuno de Montemor).
AZIADO – aziago; azar; mau agouro. «Nascido no dia de Entrudo, um dia aziado» (Carlos Guerra Vicente).
AZIAR – instrumento em forma de tenaz, usado para aperta os beiços das bestas, de forma a mantê-las quietas enquanto são ferradas.
AZO – jeito; facilidade. Ter azo para…
AZOADO – atordoado; entontecido.
AZOAR – atordoar; entontecer.
AZORRADOR – rodo com que se puxa a cinza do forno (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo).
AZORRAGUE – chicote (José Pinto Peixoto).
AZORRAR – juntar o cereal depois de malhado e separado da palha; varrer o forno antes de meter o pão; alizar o cereal nas medidas com o rasoiro; varrer o chão com as saias (Clarinda Azevedo Maia).
AZUCRINAR – aborrecer; chatear; fazer perder a paciência; entontecer (Bismula).
AZURZILHADO – batido pelo vento (Júlio António Borges).
AZURZILHAR – fustigar; bater (Júlio António Borges).
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

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