Terminaram os Jogos Olímpicos com uma medalha de prata para Portugal. Esta medalha apresenta dois factores interessantes, o primeiro, claro está, a conquista da medalha e, o segundo, o facto de ter sido numa modalidade ligada à água. Associei esta conquista aos feitos dos nossos antepassados que, numa casquinha de noz, se lançaram por esse imenso mar oceano. Este assunto fez-me recordar o quanto temos desperdiçado esse mesmo mar oceano. Primeiro, destruímos a nossa frota pesqueira a troco de quase nada. Estávamos na década de 90, era primeiro ministro o sr. Silva. O mesmo que, agora presidente da república, anda apregoando que temos que nos virar para o mar!

O balanço final da nossa participação olímpica é um fracasso. Alguns atletas vieram, ainda no aeroporto, tecer críticas e levantar alguma polémica. A reflexão e a crítica é sempre importante. Mas aqui, também deveriam ter feito auto – crítica. Para que as coisas não sejam atiradas para o ar, como se nada tivesse acontecido da parte dos atletas. Mas o que me deixou deveras perplexo foi o eterno presidente do Comité Olímpico Português(COP) Vicente Moura. Há quatro anos atrás, aquando dos jogos em Pequim, e de outro mais ou menos fracasso olímpico, disfarçado pelas medalhas de Vanessa Fernandes e Nélson Évora, veio apresentar a sua demissão. Coisa que, como se viu, era somente conversa fiada. É que o tacho é bom! Depois recandidatou-se. Agora vem, novamente com a mesma conversa para, seguramente, ficar tudo na mesma. Mas, o impressionante, é vir afirmar que precisamos de uma nova «Mocidade Portuguesa»! É de bradar. Mesmo que venha com a sibilinar escusa de que é sem conotações políticas. Mas o que era Mocidade Portuguesa? Era uma organização de carácter milicial dirigida às camadas mais jovens da população, foi criada por decreto em 1936, tendo a sua secção feminina sido criada dois anos mais tarde. Em 1939 seria alargada às colónias.
A criação e manutenção de organizações miliciais não era exclusiva do Estado Novo português; na realidade, encontram-se organizações do mesmo tipo quer na Itália de Mussolini (Balilas) quer na Alemanha hitleriana (Hitlerjugend). Tal não quer dizer que a organização criada sob a orientação de Salazar fosse uma cópia fiel daquelas, embora tivesse havido algumas relações entre a Mocidade Portuguesa e as organizações daqueles países e haja algumas semelhanças de facto. A Mocidade Portuguesa destinava-se a crianças entre os 7 e os 14 anos de idade, escolarizadas ou não, e a frequência das suas atividades tinha carácter obrigatório. Para os jovens do sexo masculino entre os 17 e os 20 anos foi ainda criada uma milícia, espécie de braço armado da organização. Estes dois ramos do setor masculino da organização, bem como a respetiva extensão nos domínios coloniais, eram inspirados por objetivos claramente definidos de adestramento pré-militar, para o que se instituíram mecanismos disciplinadores e uniformizadores diversos: a farda, a disciplina rigorosa baseada em conceitos de autoridade e hierarquia, as paradas e acampamentos, os prémios e as sanções. Basicamente, a ideia era a de «domesticar» os jovens e de os doutrinar nos ideais do regime. É isto o que o senhor presidente do COP pretende? Poderá vir dizer o que quiser, no sentido de que a sua intenção não era política, mas o que fica, é que este senhor pretende recuperar um movimento claramente político e nada democrático. Deveria assumir o fracasso da sua comissão à frente do comité olímpico português. Deveria assumir que não existe qualquer plano de acção para melhorar, preparar e incentivar os atletas portugueses, bem como, não existe um plano, uma ideia, para recrutar, descobrir, «fazer», novos atletas. O trabalho deste senhor, quase eterno no seu cargo, é o de se pavonear por aí. O resultado é o de um fracasso maior que o monte Olimpo.
Com o fim destes jogos, deveríamos estar já a preparar os do Rio2016 e os de 2020. Mas ao que vamos assistindo é a um desfiar de queixas e de lamúrios. A um ror de desculpas e ao sacudir da água do capote. É este o nosso cenário olímpico. Daqui a quatro anos estaremos na mesma. Com o senhor do COP a exigir a Legião Portuguesa e mais não sei o quê. Sem nunca se ver ao espelho.
O meu lamento.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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