Segundo Frederico Garcia Lorca, o mais sublime cantor do gosto ibérico pelo toureio, este tem dois santuários: La Fortis Salamantina, torre de Salamanca, que se remira nas pradarias do Tormes, e a Giralda, de Sevilha, que se reflecte nas verduras do Gualdaquivir.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaE concretiza – O touro de lide só pode crescer com a erva mágica daquele segundo rio, que é o de Herrera e de Gongora, ou a dos plainos do primeiro, que é o de Lope de la Vega e Frei Luis de Leão.
O Poeta, que, por certo, ninguém se atreverá a classificar de retrógrado, reaccionário ou fascista, como que santificava a arte de tourear.
Ouçamo-lo:
Na segunda metade do verão peninsular abrem-se as praças de touros, ou seja os altares.
O homem sacrifica a brava rez, filha da dulcíssima vaca, deusa do amanhecer que vive no orvalho. A imensa vaca celeste pede também o holocausto do homem e recebe-o.
Todos os anos caem os melhores toureiros.
Parece que o touro, como que guiado por um instinto não revelado, ou por uma secreta lei desconhecida, elege o toureiro mais heróico para abatê-lo, como nas tauromaquias de Creta se escolhia a virgem mais pura e delicada.
Desde Pepe-Hillo ao inolvidável Ignacio Sanchez Mejias, passando por Espartero, Antonio Montez e Joselito, há uma incontável série de mortos gloriosos, de espanhóis sacrificados por uma obscura religião, incompreensível à primeira vista, mas que constitui a chama perene que torna possível a gentileza, a galanteria, a generosidade, a bravura sem ambições, onde ganha força o carácter inalterável do nosso povo.
Todo o espanhol se sente arrastado por essa força que empolga o touro e o toureiro e é uma força irreflexiva.
Lorca falava de dois santuários da arte brava e bravíssima.
Nós aditamos-lhe um terceiro:
Esta pequena tira da orla raiana do Sabugal onde se pratica a capeia.
Espectáculo único no mundo, mas intensamente vivido por esta corda de povos que vai de Nave de Haver aos Fóios e pouco se afasta da primeira linha de fronteira.
Uma zona de transição do carrasco para o carvalho-roble, o carvalho lusitano.
Ou, se preferirmos outra nomenclatutra, do planalto charro para as alturas da Lusitânia Citeriot.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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