Hoje, apanho uma boleia, com muito orgulho. António Emídio, no «Passeio pelo Côa» do passado dia 7, aqui mesmo no ‘Capeia’, dá-me, entre muita e útil informação, uma luz de caminho para comentário um pouco mais profundo e mais revivalista da minha parte, centrado, claro está, no que aconteceu na minha aldeia nas eleições de 1961.

O que aqui me traz, desta vez, é então o caso das votações no Casteleiro e nas outras 39 freguesias. As percentagens pode recordá-las aqui (justiça seja feita ao autor da peça).
Quantas pessoas votaram em cada terra? Vejamos se nos entendemos: está-se em 1961.
14 anos antes do 25 de Abril.
Eu tinha então uns pequenos 13 anos.
Quando dizemos votar, é votar na União Nacional (UN), a organização política do regime liderado pelo ditador Salazar. A outra lista, a da oposição, como sempre naqueles tempos, não teve condições e desistiu antes das eleições.
Por isso, ficava sempre a UN sozinha – coitada!
Diz-nos António Emídio, transcrevendo notícias da data, que a terra que menos votou na lista da União Nacional foi o Casteleiro, das 53 do Concelho: 64,7%.

Motivo de orgulho
Para mim, esta votação foi mais um motivo de orgulho na minha terra.
Não me surpreende, como já vou explicar. No Casteleiro, sempre houve muita e boa oposição. Já o sabia. Mas agora tenho à minha frente os números, graças à recolha de A. Emídio.
E sei muito bem por que razão foram estes os números do Casteleiro – e já a exponho.
Mas, antes disso, uma referência às freguesias que, mesmo de longe, mais se aproximaram da minha aldeia: Soito, com 70.3%, Vale de Espinho, com 73.7% e Malcata, com 75.3%.
Quando a média de votação no concelho foi de 92%.
Claro que o regime de Salazar desejaria (e, em plena Beira esperaria, de certeza) que todas as aldeias votassem a 100% na União Nacional!
Sei que as pessoas que fizeram no Casteleiro com que os números fossem estes, os do meu orgulho, tiveram muita coragem. Um grupo de democratas da classe média, com base em comerciantes e pequenos empresários. Deram nas vistas. O regime conhecia-os. Talvez alguns leitores não saibam o que se arriscava nesse tempo por «enfrentar» o Regime.

As circunstâncias envolventes
Apenas uma pequena síntese para rememorar.
Em 1959, tinham acontecido as eleições em que Humberto Delgado tinha galvanizado esses mesmos cidadãos do Casteleiro. Mas sem resultado prático – com muitas dúvidas sobre as razões para tal, na opinião do tal grupo de «oposição» a Salazar, sem dúvida.
Estas eleições de que agora aqui se fala, seguindo António Emídio, realizam-se em Novembro de 1961.
Nove meses antes rebentara a guerra colonial em Angola: a 4 de Fevereiro.
Lembro-me muito bem de, nessas férias de Verão, haver imensas conversas à socapa, sem que eu então as entendesse muito bem nem por que é que tudo tinha de ser dito em segredo.
Depois percebi muito bem…
Mas as grandes eleições serão as de 1969: é então que entram na liça a CDE (comunistas e aliados), a CEUD (PS e aliados) e que aparece a ala liberal, mais aberta, da União Nacional com Sá Carneiro e companheiros, quatro dos quais então eleitos para a Assembleia Nacional e com grandes referências até hoje.
Mas isso será em 69 – já eu estava na Faculdade de Direito, em Lisboa.

No entanto, há que sublinhar, as «guerras» eleitorais no Casteleiro já vinham de longe.
Há uns tempos, escrevi uma história de 1890 que me comove sempre. Pode recordá-la aqui.
Ou seja: quanto mais conheço sobre as gerações da minha terra que antecederam a minha, mais me orgulho de ali ter nascido.

Volto então a 1961 e às eleições dessa altura.

Um pequeno grupo
Neste caso, em 1961, os opositores activos eram meia dúzia de pessoas.
Habituei-me, desde os meus cinco anos, a estar por ali, na loja do Senhor Tó Pinto (um estabelecimento comercial) a acompanhá-los, calado, a ouvi-los a lerem o ‘Século’ todos os dias, a discutirem as notícias, a trocarem ideias.
Poucas pessoas, como digo.
Mas era um grupo muito importante e, pelos vistos, muito influente.
Aquelas percentagens, resta voltar a sublinhar como o fez António Emídio, dizem respeito à votação na lista da União Nacional, criada em 1930 e que «viveu» até Fevereiro de 1970, data em que foi substituída pela Acção Nacional Popular de Marcelo Caetano (o tal de quem o Dr. Toninho Rosa me disse em Setembro de 1968 que «calça o mesmo número» – que Salazar, acabado de cair da cadeira, entenda-se). Por coincidência, esta mesma semana o blog do cantautor Samuel traz a capa do saudoso ‘Diário de Lisboa’ do dia seguinte à tomada de posse do Governo de Marcelo Caetano – um documento que se publica hoje e que fala por si…
Mas, voltando àquele Novembro de 1961: o simples facto de nem todos irem votar era tão importante para a Ditadura que , vejam bem, as desculpas para as «faltas» aparecem clarinhas na comunicação social (neste caso, no célebre ‘Amigo da Verdade’, que então já era dirigido há seis anos pelo Padre António Souta – Soita, para todos nós…), como foi também divulgado por António Emídio no ‘Capeia’ e entre aspas e tudo: «Muitos dos que não votaram, não o fizeram por estarem ausentes e alguns por já terem morrido». Malandros dos mortos: bem podiam ter votado – só falta a notícia dizê-lo.
Ou seja: só os ausentes e os mortos é que não votavam na União Nacional, na opinião do Regime…

Portanto não houve «chapelada»
Volto ao Casteleiro, para fechar.
Aquele pequeno grupo de opositores era composto de cidadãos de antes quebrar que torcer. Combinaram não ir votar e convencer muita gente a não ir à urna. A eles se deve o resultado.
Mas não só. Quero registar aqui outro facto importante.
Eram famosas as «chapeladas». Ou seja, os cidadãos que faziam a contagem dos votos aldrabavam habitualmente os números e no fim tudo batia certo com os desígnios do Regime.
Mas ali não (como em muitas freguesias do Concelho, em que não se registaram os confortáveis 100%…).
O que eu quero dizer é que quando, à noite, transmitiram os resultados, os escrutinadores do Casteleiro (não sei quem eram) também precisaram de coragem para não escreverem 100%, mentindo, e escreverem, respeitando o que aconteceu: «No Casteleiro, votaram só 64,7% na União Nacional».

Obrigado, geração desse tempo: os que não votaram e os que não mentiram.
A minha justa homenagem a eles.
E agradeço a António Emídio por me ter trazido agora esta nota importante.
Cada terra tem os seus motivos de vaidade. Eu tenho alguns – e este não é um dos mais pequenos…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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