Enquanto as festas pela raia vão decorrendo ao ritmo, muito próprio, desta vida arraiana, o país vai ardendo. Pode parecer um assunto, de tanto acontecer, banal. Repetido. Este é um dos problemas: de tanto se falar, de tanto se mostrar, o assunto torna-se indiferente.

Contudo, este assunto nunca pode ser indiferente, quando milhares e milhares de hectares vão ardendo todos os anos. Deixando um traço por Portugal a negro, um rasto de desgraça e de morte. Não tenho, infelizmente, nenhuma solução mágica para pôr termo a este flagelo. As causas são sobejamente conhecidas e as consequências mais ainda. Mas penso que pode ser menorizado. Quando todos os anos se passa a mesma coisa, alguma coisa está a falhar. Ora bem, sabemos que a mata portuguesa não está cuidada no que toca à limpeza, nem pelo estado nem pelos particulares, mesmo sendo obrigatório por lei. Também sabemos que a fiscalização, a vigilância, são pouca ou nenhuma. Todos os governos, repito, todos os governos, apressam-se a prometer mais meios e melhores para o combate aos incêndios florestais. Acho bem. Mas parece-me que o erro está no princípio: os governos devem dar mais e melhores meios para a prevenção. O papel da Direcção Geral das Florestas não é realizado, não é capaz de fiscalizar, ou por falta de meios ou de vontade. A GNR faz «uma perninha» e no momento do aperto, recorremos às equipas de Sapadores Florestais. Apresentado desta forma, parece ser muita gente! O problema é de organização. Tenho afirmado várias vezes que não existe um plano de ordenamento do território. É necessário um ministério que se ocupe de, efectivamente, apresentar ao país um plano de ordenamento do território. Constrói-se onde se quer, não importa se é zona Natura 2000, se é reserva natural, zona agrícola… não importa. Então se se tem dinheiro é um regabofe!
Sem um plano, sem uma organização que faça cumprir esse plano, não importa ter mais e melhores meios para combater os incêndios, eles vão continuar acontecer. Repito, é na prevenção que se deve apostar.
E, de repente, o fogo chega às fundações. Estas apareceram como cogumelos por esse país fora. Havia uma fundação para tudo! Não vale a pena enumera-las, até porque seria uma lista vasta. É verdade que o governo tinha prometido uma auditoria às fundações, no mínimo, saber quantas são. Ou por serem muitas ou por… conveniência, demorou mais de um ano para se saber quantas são. E, no entanto, estas fundações sugavam dinheiro ao estado todos os meses, todos os anos. Nada tenho contra as fundações, mas se a maioria delas são fundações a título particular, por que motivo há-de o estado estar a financiá-las? Se o regime jurídico das fundações já lhes permite uma série de benesses, parece-me abusivo que, ainda, tenha que ser o estado a suportar a vaidade de alguns figurões cá do burgo. Que cada um suporte à sua custa a sua vaidade! Já bastam as do estado para sugar dinheiro. O que espero é que o governo saiba, agora, cortar com o que deve cortar e separar o “trigo do joio”.
Com os incêndios e as várias sanguessugas do estado, se vai deixando em cinzas a riqueza do país.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

Anúncios