Hoje, à hora que escrevo, ainda é sábado e esta é uma noite de Verão embrulhada em nevoeiro tal como se embrulham algumas noites de Inverno. O escuro entremeia-se de humidade e névoa, sugerindo-me vontade de sossego e paz.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Mas, dentro em pouco será domingo.
A aldeia, aplanada na baixa nascente jarmelista, despertará cedo para uma costumada e imensa onda de tédio dominical. Há-de instalar-se uma confortável melancolia que me livrará de pressas.
Será domingo e terei tempo para contemplar o dia, o Monte e a aldeia e para cultivar o meu sossego e a minha paz.
Relembrarei a emoção subtil de um acordar antigo. Só mais tarde, mais por dentro da manhã, uma determinação absoluta e austera me fará sair de casa e, num instante de libertação, lançar-me-ei num dia de domingo manso, contemplativo e espaçado de silêncios.
Direi sim às coisas aparentemente inúteis e escolherei, por mim, a minha própria forma de habitar o dia. Prevejo que ele nasça calmo e pressinto que se desenrolará nos domínios da felicidade.
O tempo passará com aparência de mais lento, docemente, criando idade.
Sei que devo deixar passar o tempo sem remorsos e sem rancores sabendo, ainda assim, que a passagem do tempo envelhece. Sim, envelhece. Todos envelhecemos desde o momento em que nascemos. Desde o nascimento fugimos do princípio e encaminhamo-nos para o fim. Tudo isto é, tão só, fatalidade. E não, não é triste. É assim mesmo. O importante é conseguir levar os melhores momentos de cada presente, pelo futuro dentro, até ao fim. Não posso deixar de pensar assim e sempre assim pensei. Nada me abalará a convicção de que ninguém nos conseguirá arrancar do futuro sobretudo se iniciarmos cada momento com o mais importante, com o que, em cada presente, for determinante.
Poderemos, então, envelhecer em dias, em meses, em anos mas uma vida plena, congruente e assumida será, de certeza, o melhor certificado que qualquer futuro receberá de nós.
Continuo, sim, consumindo presentes com sabores plenos (alguns deles de origem passada) que não desprezo e nem poderei desprezar em qualquer momento do futuro e penso estar lá, no advir, testemunhando a ruralidade e a sua alma projectada. Os montes, as baixas, as gentes e as aldeias sempre despertarão numa saborosa melancolia.
Sairei amanhã, domingo. Partirei ao reencontro da alegria. Escacarei a solidão desde que aconteça algum reencontro com presenças vivas, com aquelas presenças que, apenas pelo simples facto de existirem, farão recolher as sombras.
E, assim, amanhã será domingo.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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