Lembrei-me de escrever sobre uma figura muito popular das nossas comunidades cristãs e paroquiais. Todos os que frequentamos a Igreja, conhecemos bem a missão e os serviços prestados por estes homens e mulheres. Nós também já partilhámos essas actividades em muitas cerimónias religiosas ajudando o titular do cargo.

Vou escrever umas notas sobre aqueles com quem me cruzei e a minha experiência neste serviço voluntário.
Da Bismula recordo o Manuel Cordeiro. Nós, ainda muito jovens, procurávamos ajudá-lo principalmente nas Eucaristias da semana, com horário matutino, porque os habitantes tinham de ir trabalhar para a faina dos campos agrícolas. Havia tanta competitividade, que muitas vezes os mais madrugadores se escondiam atrás do altar-mor, fazendo barulhos para afastar os mais preguiçosos. Era uma disputa muito saudável e louvável, sem censuras do Pároco. Lembro-me dos Jovens nestas andanças: Manuel Vaz, seu irmão Messias Vaz, António Alves Fernandes e seus irmãos Manuel José Fernandes e Francisco Alves Monteiro, José Lavajo Fernandes e tantos outros.
Em Setúbal, na Igreja de Santa Maria da Graça, hoje a Sé da Diocese, José Maria Fernandes Monteiro, meu saudoso Pai, durante um ano desempenha, em regime de substituição, o cargo de sacristão, que pertencia a Ernesto Santos Silva, morador na Rua da Paz, junto às muralhas medievais da cidade de Setúbal, a recuperar de uma grave doença. Regressado à sua função, José Maria Fernandes Monteiro fica com o encargo de diariamente ajudar à missa, na Igreja da Boa-Hora (Grilos), edificada em 1566, pela Ordem dos Agostinhos Descalços, onde há muitos anos está alojada a Comunidade dos Missionários Claretianos. Colocado em novo emprego, passaram os filhos a desempenhar aquela missão. Várias vezes coube-me ir desempenhar as funções amadoras de sacristão, principalmente nas férias. Era Superior da Casa, o Padre Carolino, homem bom, com um coração maior que Trás-os-Montes, província de onde era natural, que nos autorizava a colher e comer no quintal laranjas e tangerinas. Já o Padre António Monteiro de Terras de Jarmelo (Guarda), que conheci em Setúbal, era bem mais severo. Talvez fosse fruto de recalcamentos históricos pelo facto de D. Pedro, o Justiceiro, vingar a morte de Inês de Castro, arrasando aquelas povoações e arrancando o coração pelas costas a Pero Coelho de Jarmelo. Em contrapartida, este Rei atribuiu imensos privilégios aos pescadores de Setúbal…
Um dia, possuído de odores a laranja e tangerina, sou interpelado por este celebrante, que além da censura ditatorial, aplica-me o respetivo corretivo. Seguimos para o altar, ainda se celebrava a Eucaristia de costas voltadas para o povo. Ao colocar a almofada para se ajoelhar, o reverendo dá-lhe um pontapé, que parecia um golo do Eusébio, aqui na baliza de Santo Agostinho, que estava no altar muito sossegado com um livro numa das mãos. Foram os citrininos mais amargos que saboreei na cidade de Setúbal. Aqui foi muito negativa a minha experiencia de «sacristão».
Conheci em Setúbal, um sacristão, numa das maiores Paróquias Nacionais, refiro-me a S. Sebastião, um exemplo de dedicação e amor à camisola de serviço à Igreja. Refiro-me a João Maria Afonso Lopes, o «João Sacristão». Muito virado para a evangelização junto dos homens do mar, onde teve as suas origens, construiu uma Capela no Bairro do Faralhão, e durante muitos anos foi o impulsionador e organizador das Festas de Nossa Senhora do Rosário de Troia. O seu nome está perpetuado numa artéria da Cidade de Elmano Sadino, perto da Avenida do Coração de Maria, na Comunidade da Azeda de Cima.
Em Castelo Branco, um sacristão com nome militar – Fernando Sargento – era efetivamente um sargento na guarda dos tesouros da Sé Albicastrense, sempre vigilante durante décadas, falecendo quase centenário. Os Rotários de Castelo Branco prestaram-lhe uma justa homenagem pelos revelantes serviços prestados à comunidade cristã.
Em Aldeia Nova do Cabo (Fundão), durante mais de cinquenta anos, trabalhou para a Paróquia José de Oliveira, sendo substituído por João Gadanho, a quem as dificuldades visuais impediram de ainda estar a serviço.
Em Janeiro de Cima, encontrei uma persistente guardiã da igreja. Decorreu um evento cultural naquele local e a idosa responsável esteve sempre atenta na guarda de todo o património sagrado. Procurei descansá-la, dizendo-lhe que tudo iria correr bem, que os presentes eram gente séria, conhecidos da Junta de Freguesia local e da Câmara Municipal do Fundão, mas apesar de ouvir os meus conselhos, não descurou a segurança.
Termino este périplo em Aldeia de Joanes, onde uma dinastia de sacristães tem ocupado a respetiva cadeira durante muitos anos. Sebastião Nascimento Ramos e seu irmão Manuel Joaquim Ramos, em períodos alternativos, desempenharam a missão de ajudantes do senhor prior. Manuel Ramos tinha uma voz para os cânticos litúrgicos de encher a alma de quem o ouvia. Até arrepiava quando cantava estes versos:
Oh! Vós que passais
Em frente deste Sacrário.
Oh! Eles loucos não pensam
No amor do Santuário.

É ali que repousa
Naquela Hóstia de Amor e Luz
Vamos todos nesta hora
Desagravar o Bom Jesus.

Também nas festividades do Natal, Quaresma e Páscoa, entoava cânticos de grande musicalidade e fervor religioso. Nas diversas procissões era um general a comandar as tropas.
Há anos, com o seu falecimento, terminou esta Dinastia Sagrada, sucedendo-lhe Higino Serra Cruz, que desempenha um vasto trabalho de sacristão, sempre muito atento e preocupado; ainda é ministro da comunhão e elemento da Cáritas e da Equipa Litúrgica, substitui por vezes o Pároco, trata da limpeza da Igreja Matriz, arrumações e sempre que necessário põe em prática os seus vastos conhecimentos de marceneiro.
Estes homens e mulheres, no silêncio religioso das Igrejas, muitas vezes sem lhes ser reconhecida a atenção e o carinho que merecem por desempenhar tarefas fundamentais, nas atividades litúrgicas, na defesa do património dos templos, são voluntariamente os guardiões dos templos. Merecem reconhecimento e homenagem de todos.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

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