… ou: uma pronúncia popular que me serviu sempre de guião para a escrita sem erro. Mas que nas últimas décadas, com neologismos e entradas novas de palavras na nossa escrita de cada dia, já não me serve de regra maior. Apenas mais um apontamento sobre a validade dos linguajares e das corruptelas que o Povo soberanamente foi introduzindo…

Quem não se lembra deste dilema fulminante da sua escrita? Perante um som ch como vou ter de escrever? Com x ou com ch?
É que se trata rigorosamente do mesmo som. Adiante, para aumentar ingenuamente o «suspense», vou substituir a grafia desse som por sh em vez de x ou de ch.
Só não teve dúvidas destas quem foi insensível às questões da escrita.
Faça desde já o seu teste – pense quais destas palavras se escrevem com x e quais com ch: ameisha, shapéu, sharca, shafariz, shefe, baisho, enshada, enshuto, shover, shapada, sheirar, shoquice, shamar, caisha, eisho, faisha,

Adiante.
Não quero com isto dizer que todas as palavras, todas, se nos colocassem como dúvida.
Mas lá que havia muitas dúvidas, isso havia.

Não devo ser nenhum génio. Mas cedo descobri uma regra fundamental que tem a ver com palavras simples mas me ajudou sempre a resolver a questão de forma correcta.
De facto, descobri, sei lá quando, sei lá onde, que se o povo dizia de determinada forma, eu devia escrever com x. Se dizia de outra, era de escrever com ch.

A regra de ouro
Termino com um vocábulo bem simples. A palavra chave. Os mais velhos diziam e ainda dizem tchavi, uns, e outros tchave. Em todo o caso: tch era o primeiro som da palavra.
Ora vou pegar nesta palavrinha para contar como descobri a tal regra de escrita correcta naqueles anos, quando, nos primeiros anos da escola que hoje chamaríamos do segundo ciclo (nos então terceiro, quarto, quinto anos – anos da nossa sedimentação em certas áreas, e julgo que a da escrita é uma delas e não das menos importantes).
Volto à tchavi.
Aprendi que, quando os mais velhos lá da minha terra pronunciavam tch, então devia escrever a palavra com ch.
Mas quando o povo não metia o tal t no som, então devia escrever a palavra com x.
Os exemplos acima devem então escrever-se: caixa, ameixa, etc..

Vejam então como as pessoas do Casteleiro dizem estas palavras (recordo que em vez de ch ou de x, volto a colocar sh).
Exemplos que levam «t» na pronúncia popular: tshapéu, tsharca, tshafariz, tshefe, tshover, tshapada, tsheirar, tshoquice, tshamar.
Mas outras não levam t na pronúncia popular. Exemplos: ameisha, caisha, eisho, faisha, baisho, enshada, enshuto, etc..

Hoje, é no Lar do Casteleiro que se encontra a maioria das pessoas que assim falavam. Uma homenagem para elas: a foto que se publica.

Mas há excepções
Mas a vida moderna trouxe outras palavras onde esta regra já não entrou necessariamente. Foram palavras trazidas pelos emigrantes e por nós, os migrantes – os que passamos a vida nos centros urbanos e apenas algum tempo, uns mais e outros menos, no torrão natal. Razões de vida.
Palavras como, por exemplo: chaminé, churrasco, charuto, chanfana, etc.
Ninguém, que eu saiba, diz tchanfana ou tcharuto. Soa a ridículo, só de imaginar.
A seguir então a tal regra antiga, se o povo diz sem t, eu devia escrever xanfana, xaruto
Mas, claro, nada disso.
Estas fogem à regra. Chegaram tarde à aldeia. Não vão por isso ao mesmo quadro de referência.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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