Nem sempre a História foi feita por solenes senhores de respeitáveis barbas brancas, ou por ministros de puritanas suíças ruivas, ou por autoritários imperadores de bigode eriçado. Entre desgraças e maus-humores encontramos sempre quiméricos Quixotes e prosaicos Sanchos Panças, à mistura com subtis Erasmos e irónicos Eças. No entanto, nos testes escritos (os «pontos»), os nossos alunos conseguem o prodígio de nos revelar uma História insuspeitada, divertida, sacudida da poeira e das teias de aranha que, por vezes, a tornam tão maçadora.

A arte ao serviço da educação

Adérito Tavares - Na Raia da Memória«Pontos»! Fazê-los. Vê-los. Às centenas. Repeti dos. Monótonos. Cheios de erros ortográficos. É o nosso tormento, a nossa cruz, o nosso pesadelo! Claro, não é isso que manda a cartilha didáctico-pedagógica: o ensino planificado, as metas, os testes de diagnóstico e de posição, os testes formativos e sumativos, etc., etc. Os testes são indispensáveis, eu sei. Mas corrigi-los! E se o desgraçado professor tem 10 turmas de 30 alunos? Trezentos pontos!!!
Bom, mas não estou aqui para me encostar ao muro das lamentações. Pelo contrário: o título, lá em cima, promete coisa leve. No meio de toda a monotonia e aridez da correcção das provas escritas surge, aqui e além, um oásis repousante: são as «anedotas» involuntárias que os alunos nos oferecem. Qual o professor que as não encontrou? Quando nos juntamos, temos sempre uma na ponta da língua. Ainda recentemente uma revista escrevia sobre o assunto e, há anos, foi editado um livro sobre o tema. Quanto a mim, desde há muito que vou anotando graças involuntárias, quase sempre fruto da ignorância, da distracção ou da ingenuidade. O riso, ao contrário do que se diz, não é sinal de pouco siso. Só os animais inteligentes riem. E nós temos direito ao riso. Aqui ficam registadas algumas das muitas piadas recolhidas ao longo de vários anos de «pontos» de História.
Comecemos pela Pré-História. Um aluno distinguia assim os três grandes períodos do Paleolítico: «No Paleolítico Inferior, os homens usavam pedras, no Paleolítico Médio usavam espadas e no Paleolítico Superior usavam espingardas.» Outro, fez uma curiosa estatística demográfica: «Os pré-históricos faziam deusas da fertilidade porque em cada criança que nascia muitas morriam.»
A arte do povo do Nilo sempre intrigou aquele aluno que escrevia: «Os Egípcios eram um povo muito engraçado: andavam de lado.» Outro, à pergunta: «Na monarquia teocrática egípcia, qual era o papel do faraó?», respondeu com uma lógica irrefutável: «O papel do faraó era o papiro.» Ainda a propósito da história egípcia, escrevia um rapazinho: «No Egipto, a medicina não era propriamente para curar mas sim para tratamento dos mortos.» Finalmente, esta curiosa conclusão epis temológica: «Os Egípcios desenvolveram a astronomia hidráulica.»
A civilização hebraica inspirou mais estas: «Os Hebreus foram para a Palestina pastar»; «Abraão levou os Hebreus para Israel, que era a terra onde corria o leite e a manteiga»; «A Bíblia é o livro sagrado onde está escrita toda a vida de Jesus Cristo, antes e depois de Ele nascer».
A civilização romana também tem os seus apreciadores: «Roma foi fundada por dois recém -nascidos»; «A organização do Império Romano era uma organização muito bem organizada.» Por sua vez, «a Península Ibérica foi muito difícil de conquistar, porque estava rodeada de água por todos os lados menos por um». E Nero, dizia um dos meus alunos que «era imperador porque bebia muitas imperiais».
Avançando agora para a Idade Média, encontramos aquela menina que afirmava que «o Papa con cedeu ao rei o direito de investir». Ou ainda o outro que estabelecia conceitos inovadores: «A lei mental excluía os descendentes varões femininos.» E o leitor sabia que «D. Fernando fez a lei das Seis Marias»? Aliás, na História de Portugal não faltam exemplos graciosos, como aquele do aluno que, depois de baralhar os nomes, afirmava: «Pedro Álvares Pereira descobriu o Brasil depois de ganhar a batalha de Aljubarrota.» Quais são as características da arte manuelina? É fácil: «Os componentes da arte manuelina são a pedra, o cimento e a cal.»
E, acerca dos descobrimentos, esta prodigiosa descoberta: «Antes de descobrirem as terras, os Portugueses estudavam a sua situação nas cartas de marear.» Um autêntico ovo de Colombo, portanto. Quanto ao D. Sebastião, o Encoberto, dizia um rapazinho: «D. Sebastião morreu na batalha de Alcácer-Quibir, sendo aprisionado pelos Castelhanos. Ele morreu numa manhã de nevoeiro.» E, se o leitor não sabia, fica a saber que «a baixa pombalina chama-se assim porque tem muitos pombos».
O Renascimento italiano é um período que costuma fascinar os jovens. Só que, por vezes, os conceitos saem ligeiramente distorcidos pela ortografia, como no caso daquela menina gue escrevia, com ingénua ignorância: «Miguel Ângelo desenhou a cópula da Basília de S. Pedro.» Ou, ainda, no caso de um moço sem grande sensibilidade para as subtilezas da língua portuguesa, que afirmava: «Os mecenas eram senhores do Renascimento que costumavam acariciar os artistas.» Claro que o que eles costumavam era acarinhar os artistas. Honi soit qui mal y pense! Se não fosse deseducativo, eu podia ter escrito por baixo: «Às vezes também!»
Em Portugal, D. João III foi um rei-mecenas. Pergunta, a um aluno do 10.º ano: «Fale da política cultural de D. João III.» Resposta: «Pode-se dizer que D. João III era mais culto que D. João II e muito mais que D. João I.» Apeteceu-me anotar por baixo, com uma dupla ironia que ele, seguramente, não alcançaria: «Que grande cultura não teria D. João VI!»
A revolução industrial, o sindicalismo, as ideias socialistas, etc., também têm originado boas piadas (por favor, não me interpretem mal). Dizia um jovem e aplicado estudante, matando dois coelhos de uma cajadada: «A Inglaterra dispunha de muita mão-de-obra-prima.» Por sua vez, outro afirmava que «o Comboio revolucionou a revolução dos transportes». E um terceiro garantia que «o socialismo utópico é aquele que chega ao topo». Ainda dentro do mesmo tema: perante a miséria da classe operária, no século XIX, qual foi a resposta do movimento sindical? Conclusão óbvia de um aluno com nítida vocação burocrática: «O movimento sindical respondeu dizendo que ia estudar o caso…»
Finalmente, um exemplo daquilo a que nós chamamos «palha», isto é, escrita para encher, sem ideias nem conteúdo, numa hábil manobra de «deitar o barro à parede». Pode ser que pegue! Pedia-se para os alunos, num exame de História das Artes Visuais, falarem da arquitectura romântica. E surgiu esta preciosidade: «As características básicas deste edifício são inovadoras, pois a dinâmica elaboral flui sem precedentes do exotismo das linhas arquitectónicas. A linha básica é canalizada por detorpismo de formas e pelo exagero de cenas decadentes e improvisadas, representativas da cultura romantesca não incluída nos padrões projectuais vigorizantes.» Um espanto! Com neologismos e tudo.
É tempo de acabar. Aguardemos por mais. A originalidade e a criatividade dos nossos jovens alunos são uma promessa de humor constante e renovado. E Clio (a musa da História) não se zanga.

As cabecinhas formatadas da «geração computorizada»

«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares
ad.tavares@netcabo.pt

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