Dissemos já, em anterior croniqueta, que, por recente, os leitores ainda recordarão, que nos dezasseis anos da nossa Primeira República houve quarenta e tantos governos, o que dá uma média de três governos por ano – quatro meses, pois, por gabinete.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaMas a verdade é que alguns nem tanto duraram. Houve, efectivamente, um que durou apenas três dias e, por isso, ficou até conhecido por Ministério do Entrudo.
Mesmo assim, teve mais sorte que outros que não chegaram sequer a funcionar.
Estava tudo pronto para a cerimónia, quando o Pintor, o Pencudo,o Ai-ó-Menina e mais dois ou tres influentes da Formiga Branca, entraram de chapéu na cabeça palácio em fora e, à chapada ou à chapelada obstaram ao acto, auto e acta…
Com tantos gabinetes não admira que houvesse lugar para muitos nomes de primeiro-ministro.
Um deles chamou-se Vítor Hugo, Vítor Hugo de Azevedo Coutinho.
E, pelo nome, não perderia. Mas a crítica, ante a pobreza do elenco, apostou-lhe o termo Miseráveis, recordando o nome do mais famoso dos romances do mais famoso vulto mundial do romantismo.
Brincou-se também com o Uga, termo da linguagem burrical.
E enquanto uns diziam «Ó Vítor, uga», isto é põe-te a jeito para nós te cavalgarmos, outros corriam já com ele, gritando «Ó Vítor arra», arre que é bruto!.
Era assim a comédia política.
Os ministros não tinham um mínimo de qualidade.
Um aprendiz de guitarrista estava desocupado. O tio, político afonsista recomendou-o ao Mayer, o do Parque de Diversões. Mas quando este o mandou chamar para tocar duas rábulas o tio disse: «Já não é preciso, o rapaz é já ministro».
Choveram as chufas:
Ouvi o que já se diz
Deste país desgraçado
Um guitarrista aprendiz
Chega a Ministro de Estado.

Assim foi agonizando o regime, de nada valendo o grito e o sacrifício de Sidónio Pais.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

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