Antes da difusão generalizada dos chamados lares académicos, um dos problemas mais complicados que se punham às famílias que pretendiam matricular filhos no ensino secundário e residiam fora dos centros populacionais onde não existiam liceus ou colégios, era o do alojamento.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs hotéis e até as pensões, mesmo humildes, eram manifestamente inacessíveis para a quase totalidade das bolsas, além de não condizentes com o ambiente pretendido.
A solução foi propiciada por muitos particulares que, recebendo estudantes, obtinham reforço para os seus orçamentos, por via de regra magros.
E havia até pessoas, muitas vezes viúvas ou filhas-família, que, por qualquer razão, não haviam casado, para as quais esta actividade era a única fonte de rendimentos.
Os candidatos a hóspedes eram na generalidade descendentes de lavradores meãos que, tendo embora abundância do que a terra lato sensu ia dando, padeciam já de uma endémica falta de dinheiro. Daí que o alojamento fosse em parte sustentado pelo fornecimento de determinados víveres. Aliás, em casos extremos, o pagamento poderia ser feito unicamente com géneros.
Era o regime do farnel, que habitualmente se compunha de batatas, feijões, chicharos, gravanços, toucinho, enchidos, queijos, ovos, aves de capoeira e até caça.
As hospedeiras controlavam os regimes de modo a equilibrar os gastos.
Genericamente, vigorava uma divisão equitativa entre as duas formas de pagamento. Mas eram raros, raríssimos mesmo, os casos em que o dinheiro era o único meio.
Nisto se distinguiam os filhos dos contrabandistas, ou mais precisamente dos empresários de contrabando, que mesmo de pequenos negócios – e os grandes eram raridade – dispunham de dinheiro fresco e vivo. E que, para além de pagarem ao contado, por vezes até adiantadamente, deixavam nos bolsos dos estudantes mesadas que os distinguiam do comum.
Sob este duplo aspecto, os filhos dos contrabandistas eram um escol.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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