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A unidade móvel de mamografia da Liga Portuguesa Contra o Cancro está junto ao Centro de Saúde do Sabugal para efectuar exames gratuitos de mamografia digital. A acção decorre até meados do mês de Outubro.

O Núcleo Regional do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) vai estar junto ao Centro de Saúde do Sabugal com uma unidade móvel de mamografia.
As mulheres inscritas no Centro de Saúde são convocadas por carta para efetuar o rastreio. O programa está aberto à população feminina entre os 45 e os 69 anos, residente no concelho e que mostre interesse em fazer o exame.
O exame mamográfico deve ser repetido de dois em dois anos, de forma a garantir uma prevenção eficaz contra o cancro da mama a neoplasia mais frequente do sexo feminino.
Afecta uma em cada nove mulheres e constitui a causa mais frequente de mortalidade na faixa etária entre os 35 aos 55 anos de idade na União Europeia.
Atendendo a que não existem, ainda, medidas efetivas capazes de prevenir ou curar a doença em qualquer estádio de diagnóstico e a que mais de 90 por cento das doentes com cancro podem ser curadas, se diagnosticadas num estádio precoce e adequadamente tratadas, não devem ser poupados esforços no diagnóstico precoce da doença.
O serviço gratuito de exame mamográfico digital estará disponível até meados do mês de outubro, de segunda a sexta-feira, das 9:00 às 12:30 e das 14:00 às 17.00 horas.
Para marcações ou informações adicionais, devem contactar o Centro de Coordenação do Rastreio, através do telefone 239 487 495/6 ou do e-mail rcmama.nrc@ligacontracancro.pt.
aps

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Para além do encerro, toiro da prova, passeio dos rapazes, pedido da praça, lide com o forcão e o desencerro final, a tradicional Capeia Arraiana conta também com os momentos em que o toiro corre pela arena improvisada ao sabor dos desafios que a rapaziada lhe faz livremente.

Após o manejo do forcão, logo que o mesmo é encostado às «calampeiras», os jovens saltam para a arena e correm a fazer tangentes sucessivas ao toiro bravo, abordando-o por todos os lados, por vezes de forma estonteante, fazendo com que o animal rodopie na tentativa de atingir algum dos vultos que o «atentam». Doutras vezes o toiro corre para alcançar o atrevido que lhe passou de raspão e ainda se atreveu a dar-lhe uma palmada de incitamento.
Mas ele há momentos mágicos, de verdadeiro malabarismo, nomeadamente quando os rapazes mais intrépidos e de melhor preparação física correm para o toiro, que para eles investe decidido, e, no momento da reunião, formam um salto por cima do dorso do animal, caindo ilesos e em perfeito equilíbrio. Em recompensa, os corajosos ouvem longos clamores de admiração seguidos de infindáveis aplausos.
Alguns desses moços arrojados passam sobre o animal sem lhe tocarem, outros assentam-lhe um pé em cima, num acto de desafio e de dominação, outros, cuja sorte ou destreza não os acompanham, desequilibram-se e caem desamparados na arena, originando o desassossego geral perante uma eventual colhida.
Temos na memória o feito memorável de um jovem japonês que, já lá vão 15 anos, entrou na praça do Campo Pequeno, em Lisboa, quando ali acontecia a capeia anual da Casa do Concelho do Sabugal. Da bancada, onde esteve uns instantes, desceu à trincheira e dali entrou na arena, quando os cortadores arraianos se divertiam e davam espectáculo fazendo tangentes velozes ao animal. O jovem japonês, magro e alto, olhou para o toiro e quando este investiu para ele o jovem arrancou também em direcção ao animal, sob o olhar incrédulo das pessoas. Formou um salto e colocou o pé sobre o dorso do toiro, caindo em equilíbrio do outro lado. O público gostou e ovacionou o jovem estrangeiro, que possivelmente nunca pusera até então um pé numa praça de toiros.
Na raia os «malabaristas», chamamos-lhe assim sem qualquer sentido pejorativo, multiplicam-se pelas terras e dão espectáculo nas capeias.
O festival Ó Forcão Rapazes, que este ano se realizou no Soito, no dia 18 de Agosto, foi exemplo disso.
Os manos Batista, de Alfaiates aproveitaram um toiro feroz, que investia com valentia, para lhe saltarem por riba. Um deles, o Frank, formou mesmo um salto mortal perfeito, para gáudio do público que o compensou com um longo e caloroso aplauso.
O Pedro Fonseca (conhecido por Balhé) do Soito, que também é mestre nos saltos, teve este ano o trabalho dificultado por ter cabido à sua terra um toiro pouco dado a investir, que se colava às tábuas, mas mesmo assim, na única oportunidade que se afigurou, o jovem não hesitou e satisfez um público já sedento de observar e ovacionar o seu herói.
Que o espírito, a vontade e a intrepidez dos «malabaristas» não esmoreça, para que as capeias possam continuar a contar com o seu contributo para a valorização do espectáculo.
plb

Agora, que a época das capeias arraianas terminou, parece-me oportuno reflectir sobre o que ela foi.

Este era o primeiro ano em que a capeia arraiana se apresentava ostentando a classificação de património cultural imaterial nacional. Alguém se lembrou disto? Creio, até, que a maioria dos arraianos nem sabe de tal título atribuído à sua maior manifestação cultural. Pois bem, a primeira questão desta reflexão, prende-se precisamente, com o título desta crónica: chamar os bois pelo nome. Uma capeia arraiana não é uma garraiada, uma garraiada não é uma largada e uma largada não é um touro á corda. Um touro e um forcão não é uma capeia arraiana! Uma capeia arraiana é composta por três momentos: encerro (ir a buscar os touros a pé, repito, a pé – cavalos e pessoas – e encerrá-los); esperar os touros ao forcão (afoliá-los*) e desencerro (levar os touros de volta a pé). São estes os momentos que compõem uma capeia arraiana. Sem o cumprimento testes três momentos, portanto, com a falta de algum deles, não se cumpre a capeia arraiana. Será somente uma garraiada com forcão. Ora, esta época houve acontecimentos que feriram o cumprimento destes momentos, não cumprindo, assim, a tradição da capeia arraiana. Neste ano (e sempre) era importante que a matriz da tradição fosse e seja cumprida. O que candidatámos a património e nos foi concedido foi a capeia arraiana com todos os seus rituais. Não foi isso que aconteceu. Houve falhas que não podem acontecer, sob o risco de estarmos a entregar argumentos que funcionam contra nós. Prepara-se para Setembro a entrega de um Projecto lei contra as touradas. É bom que estejamos atentos. Por isso, não consigo perceber por que motivo, e é a segunda questão desta reflexão, não existe uma espécie de entidade reguladora que preserve oficialmente o conceito da capeia arraiana. Onde está o pelouro da cultura? O que foi feito neste ano para a divulgação da capeia arraiana como património cultural? E não me refiro á divulgação nacional, mas aqui, na raia? Se queremos valer-nos desta tradição, se a queremos preservar e rentabilizar como um valor cultural e económico, temos que fazer muito mais. As capeias arraianas não podem continuar a ser tratadas desta forma. É preciso um maior rigor no cumprimento dos rituais, na seriedade dos encerros, na apresentação e cuidado dos animais (a presença oficial de um veterinário é imprescindível) e na assistência médica.
Como primeiro ano de património demos uma má imagem das capeias arraianas. Se tudo deixarmos como está, corremos o risco de deteriorar-mos a capeia arraiana. E esta, não é somente um espectáculo com touros. É muito mais. É a maior manifestação social e cultural comunitária.

* Significa correr os touros, tourear.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

A direcção da Associação de Pais e Encarregados de Eduação do Sabugal (APEES) solicitou a publicação de uma carta aberta aos pais da comunidade estudantil do concelho do Sabugal, onde se apela à ajuda para a criação de uma sala para crianças com necessidades educativas especiais. Publicamos na íntegra a referida carta aberta.

APEES

No mês de Junho do corrente ano, apresentou a APEES (Associação de Pais e Encarregados de Educação do Sabugal), ao agrupamento de escolas do Sabugal (ao seu director), e ao município do sabugal (á sua vice presidente), um projecto que a APEES pretende levar a cabo para a comunidade estudantil do concelho do Sabugal, projecto a que foi dado uma importância primeira, tendo o agrupamento já disponibilizado uma sala e o município material escolar.
Este projecto surge, depois da APEES, ter constatado a lacuna da falta de um espaço que reunisse, todas as condições para a aprendizagem, integração e autonomia das crianças com Necessidades Educativas Especiais (NEE), um espaço que para alem da aprendizagem, possa ser um espaço motivador, um espaço de reunião para estas crianças, mas sobretudo um espaço onde estes possam desenvolver competências de autonomia e responsabilidade para a sua vida futura.
Concluído um levantamento pelas técnicas do ensino especial que trabalham na APEES, verificou-se que as crianças com NEES no concelho de Sabugal, para este ano lectivo que vai começar (2012-2013) é de 47 crianças, este projecto pretende congregar em um único espaço de aprendizagem varias áreas temáticas e do comportamento, permitindo em um mesmo local trabalhar com um numero de 6 a 8 crianças durante um dia inteiro, permitindo às técnicas (terapeuta da fala, motricidade, psicóloga, entre outros) desenvolver as suas actividades com o real valor que estas crianças merecem.
Este projecto necessita de um valor considerável de investimento, montante este que a APEES não possui, pretendemos assim levar a cabo uma recolha de fundos, onde o chamamos a aliar-se a esta construção:
Para o efeito foi criada uma conta solidária no credito agrícola, balcão do sabugal com o NIB- 0045 4025 4025 2279 23726, onde de forma muito sincera e agradecia contamos com a sua generosidade.
Dada a extrema importância deste projecto e certos do vosso apoio, agradecemos desde já, em nome da associação, mas sobretudo em nome de toda a comunidade, este não é um projeto da APEES, mas sim um projeto de todos.
O vosso empenho, mas sobretudo a atenção dada bem como o vosso contributo é para nós de um valor inestimável.
O nosso Muito Obrigado.

Sabugal, 30 de Agosto 2012
A Direção da APEES:
Ana Gonçalves, António Castilho, David Carreira, Carlos Robalo, Ester Saldanha

A Comissão de Festas de Santa Eufêmea 2012 da Freineda, no concelho de Almeida, organiza um Festival de Pára-quedismo com quatro grupos de saltos no dia 16 de Setembro. Os pará-quedistas vão ser transportados por uma aeronave que levará voo do aeródromo da Dragoa, na Ruvina, para depois saltarem sobre o Largo de Santa Eufêmea na Freineda. A angariação de donativos para as populares festas da freguesia raiana tem decorrido ao longo do ano em diversos encontros de convívio e confraternização. O Capeia Arraiana esteve presente num desses momentos…

Santa Eufêmea - Pára-quedismo - Freineda - Almeida

A tarde daquele dia 11 de Agosto esteve mui caliente mas o pôr-do-sol trouxe consigo um ar fresco que aconselhava a alguns agasalhos. No Largo da Igreja Matriz da Freineda, junto à fachada da casa que, durante meses, serviu de quartel ao general Wellington, duque inglês que comandou as tropas que defendiam Almeida das invasões francesas, os panelões já estavam ao lume. Na mesa ao lado cerca de uma dezena de quilos de arroz alinhavam na formatura ao lado do sal e das latas do feijão.
«Temos por tradição organizar almoços e jantares para angariar dinheiro de forma a fazer face às despesas», começa por nos explicar José António Reis, um militar da Força Aérea que nunca vira a cara quando se trata de promover a sua terra. «Este jantar vai ser servido com carne de vitela oferecida pelo ganadero Emilio, de La Alamedilla, a quem estamos muito gratos porque já em diversas ocasiões fez questão de mostrar que é um grande amigo da nossa terra», acrescenta o nosso anfitrião. A seu lado Emilio ouvia atentamente e aproveita para meter a sua cucharada: «Já fui mordomo da Carroça. É mais uma fiesta inventada pelo Gonçalves que mete garrafón e paletas porque no dia 17 faltava qualquer coisa. A mi me gusta essa fiesta!»
Enquanto se acrescentavam mais umas mesas e uns bancos corridos porque, afinal, as previsões foram ultrapassadas e era necessário acomodar cerca de uma centena de freinedenses que aderiram à «prova da vitela do Emilio» era tempo do aperitivo numa adega mais conhecida por «Bodega do Reis». O espaço tornou-se apertado para tantos amigos que se sentaram em roda da mesa presidida pelo Pedro, filho do Jordão das Batocas. «Não falho um encerro. Ainda hoje estive em Vilar Formoso. Vivam as Capeias», brinda o Pedro secundado por todos os presentes.
A noite terminou com o jogo do galo onde os participantes de olhos vendados (mas pouco) tentavam acertara num ovo que dava direito a levar para casa um galo vivo oferecido pela Comissão de Festas. Os mordomos (casais) de Santa Eufêmea (de acordo com a grafia da Freineda) em 2012 são: Carlos Tavares, Mário Rocha, Edgar Gonçalves, Licínio Gonçalves, Carlos Pereira e João Pedro.
Mas… ainda falta falar dos pára-quedistas? Claro que sim. A Freineda, e toda a Raia, vão assistir pela primeira vez a um festival de pára-quedismo. No dia 16 de Setembro a Comissão de Festas de Santa Eufêmea 2012 da Freineda vai proporcionar momentos inéditos. O avião vai estar estacionado no aérodromo da Dragoa, na Ruvina, concelho do Sabugal, e levantará voo para levar os pára-quedistas em duas vagas de manhã e duas da parte da tarde: os saltos sobre o Largo de Santa Eufêmea, na Freineda, com seis «páras» de cada vez estão marcados para as 11:00 e para as 11:45 e para as 16:00 e 16:45 horas. As festas da Freineda obrigaram a antecipar para 8 e 9 de Setembro, em Vila Nova da Barquinha, a Taça de Portugal de Pára-quedismo com Precisão de Aterragem.

(Clique nas imagens para ampliar.)

O Capeia Arraiana associa-se à Comissão de Festas de Santa Eufêmea 2012 da Freineda apoiando este momento inédito em terras raianas.
jcl

No dia 16 de Agosto, foram inauguradas na Miuzela as instalações definitivas da Associação de Cultura Prof. Dr. José Pinto Peixoto, insigne cientista natural dessa freguesia do concelho de Almeida. Coube ao escritor e investigador Célio Rolinho Pires, natural de Pêga proferir no acto uma conferência, que nos transmitiu que publicamos na integra, embora, dada a sua extensão, dividida em três textos que publicamos em dias sucessivos.

Deixem ainda que, a título de hipótese, ou de exercício meramente académico, (penso não ser proibido!), e com base em três nomes de rios (hidrónimos) declaradamente romanos, em alguns topónimos bem conhecidos, complementados pela cultura popular no que, ainda, ao Cancioneiro do Alto-Coa se refere, me atenha ao que considero ser uma unidade espacial importante, espécie de pequeno país lusitano, a que nós beirões do Alto-Coa pertencemos, e aferir assim de hipotéticos avanços, faseados no tempo, de forças invasoras, provavelmente romanas. Vejamos.
O Rio Zêzere, a poente, que começa por definir o vale da Amesendinha a partir de Belmonte, mais não é, em termos etimológicos (José Pedro Machado) que o rio de César, querendo talvez significar que o espaço para além dele (adentro da hipótese que coloco – o lado poente…) é romano. Mas mais a norte, próximo de Famalicão da Serra, temos também a Ribeira do Quêcere, um afluente do Mondego, que é também o nome de César com pronúncia clássica, ou seja, o C a valer Q. Os entendidos sabem disso. Em termos delimitativos penso que o Rio Noémi, cujo significado desconheço, e que vos é aqui bem próximo, bem poderá ser o prolongamento da ribeira do Quêcere até ao Coa, a fechar o quadrilátero a norte. Mas, certo, certo, é que do lado leste temos um outro nome romano – o rio Cesarão – igualmente um rio de César, cujo aumentativo, poderia ter, tal como hoje, um sentido depreciativo ou pejorativo. Este rio, vindo de Aldeia da Ponte, a que se junta a ribeira das Chulreiras (ou Churras – ovelhas) de Aldeia Velha, fecha do lado leste o polígono ao desembocar no Coa entre Porto de Ovelha e Badamalos, como vocês sabem. A Sul, e mais uma vez, o Cancioneiro do Alto-Coa, a propósito do topónimo Malcata, seja a povoação seja a serra, diz-nos que «aí tocam armas ou caixas nem que seja para espantar os pardais». Este verso condiz, reparem bem, com o étimo de Malcata que é Male Capta, ou seja, espaço mal conquistado, querendo significar que aí, por esse lado sul, as populações do polígono em análise resistiram por largo tempo ao inimigo invasor de modo a que o fenómeno ficasse registado na linguagem. Mas há mais: o termo Coa, de um ponto de vista semântico, é francamente indígena, autóctone, a contrastar com os nomes romanos anteriores, quer considerado como cuda ou coda, com o significado de crina ou cauda de cavalo, quer seja cola – serpente. Ainda hoje o verbo colear, de cola, significa exactamente isso – serpear, serpentear. Portanto o rio Coa é pertença de povos que, entre eles, teriam o rito ou o culto da Serpente, e isto condiz ainda com o que consta do Ora Maritima de Avieno (século IV AC) ao falar dos Sefes e dos Draganes, adoradores da Serpente e do Dragão, eventualmente do Lagarto. Mas mais ainda: os dois topónimos – sabugal velho, nas imediações de Aldeia Velha e o sabugal novo (o actual) não terão nada a ver com os sabugueiros, penso, mas sim com a passagem dos sabujos em dois momentos históricos diferentes. Interessante de referir que o ponto exacto do sabugal velho não é no castro da Senhora dos Prazeres, junto da capela, mas em baixo, na ribeira das Chulreiras onde aliás existe uma cruz gravada numa pedra. Sabugal, em termos etimológicos, será assim um composto de sabujos + callis. Callis é o mesmo que a calle espanhola e significa rua, quelha, passagem estreita…Temos por aí muitos topónimos com esse nome… Sabujo, segundo o Dicionário da Língua portuguesa, significa “cão de montaria”, o que condiz com a cultura lusitana em que os perros ou cães estão em relação com os malfeitores, os prevaricadores, os traidores, os inimigos, como tenho proposto nos meus trabalhos. Portanto, estes cães, ou perros, ou sabujos, serão assim, originariamente, os romanos, os invasores, vindos de leste pelas Calçadas da Guinea, Dalmacia, e até de algumas derivações da Colimbriana que, segundo o Dr. Eurico Palos, passaria no alto do Barreiro aqui na Miuzela. Mas também pela via romana que ia de Mérida a Braga passando pela Idanha-a-Velha, Vale da Senhora da Póvoa e Centum Cellas de Belmonte… Isto converge, ainda, com os «cães de fila» do Cancioneiro do Alto-Coa que não terão nada a ver com a bondade ou maldade dos habitantes do Sabugal mas sim com os invasores de outras eras. Demasiadas coincidências! Não acham? Nada de extravagante quanto a esta minha interpretação para o étimo do Sabugal! Portugal não deriva também de portus-calle, ou seja, a passagem do porto?
Penso que a investigação, ao nível da História, pois é disso que se trata, terá abusado do método analítico e desprezado a síntese que pressupõe uma visão global, abrangente e multidisciplinar para a descoberta da verdade. Não me parece que o microscópio seja o aparelho indicado para a investigação histórica. Ao fim e ao cabo, tudo funciona como um puzzle em que as peças que não encaixam sobram necessariamente.
Finalmente, contextualizado que está, penso, o tema que aqui me trouxe, será tempo de vos falar do Porto Mancal que não pode, de modo algum, ser analisado fora da temática das Pedras que tratei nos meus três livros já publicados sobre o assunto. Não faria sentido, todavia, não sei se vocês teriam paciência para ouvir, mesmo que resumidamente, tudo o que ao tempo escrevi (1995, 2001, 2011) respectivamente em Os Cabeços das Maias, O País das Pedras e Na Rota das Pedras.
Grosso modo, e de forma sucinta, com estes meus livros, pretendi demonstrar, e penso tê-lo conseguido, que as Pedras, ou algumas Pedras, seja no tocante às muitas formas que apresentam, seja no que respeita às marcas nelas gravadas, não são um fruto da erosão provocada por ventos, mares que nunca existiram, chuvas, líquenes, como alguns pretendem, mas sim um resultado da acção do homem pela via do martelo e do escopro e do pistolo, pertencendo por isso à época e à cultura do ferro. Mais, ao inserirem-se em um contexto espacial de um determinado tipo de povoamento, no geral disperso, e de cultura (lusitana, penso), essas formas, essas marcas, têm um determinado significado que propus nos meus livros atrás referidos. E é aqui, neste tipo de interpretação proposta por mim que residirá porventura, alguma novidade, algum atrevimento, talvez pioneirismo, como lhe queiram chamar. Não há ninguém aqui, penso, que por esses barrocais fora, não tenha já tropeçado com o que parecem ser cabeças, cágados, figuras antropomórficas, zoomórficas, sulcos, poças, umas maiores, outras menores, etc, etc. No tocante à detecção do fenómeno são muitos os autores que a ele se referem. Entre outros, o nosso quase conterrâneo (da Ruvina), Dr. Joaquim Manuel Correia, já no século XIX, nas suas «Memórias sobre o Concelho do Sabugal», um grande livro, escrevia: «No limite da Ruvina cujo solo é todo granítico, existem grandes rochedos, a que chamam barrocos, que dão à paisagem um aspecto áspero e rude, mas onde há muito que observar porque nalguns existem vestígios incontestáveis de em tempos remotos o homem ter neles assinalado a sua passagem…Referimo-nos às fossas ou pias existentes nos barrocos, algumas denominadas cúpulas pelos especialistas». Leite de Vasconcelos chama-lhes covas ou covinhas. Eu chamo-lhes tão simplesmente poças, como toda a gente, por aqui, lhes chama!. Mas também as constituições dos bispados, o próprio S. Martinho de Dume (Século VI) a estas Pedras se referem ao proibirem certos cultos, por sinal bem tardios, por parte dos cristãos, que tarde ou nunca deixaram de venerar e honrar. Daí, e ainda, as muitas cruzes que por aí existem nos barrocais com vista à sua cristianização. Tratei disso abundantemente nos meus livros.
Uma das conclusões a que cheguei nos meus trabalhos, e a que já atrás aludi, é a relação directa e intrínseca dos nomes dos terrenos em que certas Pedras se situam, ou seja, os topónimos rústicos, com a função que essas Pedras tiveram em determinado momento histórico, certamente antes do advento do Cristianismo e da dita romanização. E é aqui que começa, ou melhor, continua, para mim, a história do vosso Porto Mancal que passarei a contar-vos pois, como disse no início, foi esta a principal razão que aqui me trouxe.
Conheci as sepulturas do Porto Mancal (6) aí pelos fins da década de 90 por intermédio do meu amigo, Sr. António Fernando, ao tempo penso que secretário da Junta de Freguesia da Miuzela, que fez o favor de me levar até lá, que observei e fotografei com a ideia de virem a integrar o meu livro «O País das Pedras», o que aconteceu, e que viria a ser publicado em 2001. Propus ao tempo, e mantenho, que essas sepulturas, como no geral as que se encontram abandonadas pelos nossos campos, quase sempre descontextualizadas, serviriam para expor o defunto, honrá-lo, venerá-lo, perfumá-lo, consoante o seu estatuto social ou guerreiro, antes da cremação – à semelhança, aliás, do que aconteceu com os funerais de Viriato, segundo os textos. Sabendo eu, no entanto, da relação dos topónimos com o fenómeno cultural do que aí se passava, ou à volta, dei em reflectir sobre o étimo de Mancal e proceder a outro tipo de observações, certo de que iria encontrar outros elementos, para além das sepulturas, em convergência com o seu significado. E não me enganei. Mancal vem de manco (mancus,a,um – lat.). Manco, como toda a gente sabe, é aquele que coxeia, a quem eventualmente falta uma perna; mas, na origem, manco era aquele a quem faltava qualquer coisa, fosse uma perna, um braço, uma das mãos, o nariz, ou até outras coisas em sentido ético e moral que eu agora não digo. Nesse sentido, o termo francês, «manquer», que muitos de vocês conhecem melhor que eu, estará mais próximo da sua verdadeira origem semântica pois significa tão somente faltar (seja o que for). O texto de Estrabão acerca da justiça lusitana também ajudou: «Os lusitanos cortam as mãos dos prisioneiros e consagram as direitas aos deuses; aos condenados à morte precipitam-nos e os parricidas são apedrejados e expulsos para além das montanhas e dos rios». Uma fotografia aérea do local gentilmente cedida pelo Sr. Dr. Eurico Palos, que ampliei, foi-me decisiva no sentido de poder reconstruir a área em que se situam as sepulturas, de formato ostensivamente fálico, eventualmente dividida em duas partes: uma afecta ao poder civil e militar (digamos) e a outra que seria o campo dos mortos, separados os dois espaços por uma divisória ou parede assinalada ainda hoje por um montão de pedras de que faz parte a da entrada com olhal para varal. Quanto às sepulturas, uma poça para trave mestra, mais ou menos ao meio do conjunto fúnebre, diz-nos que se tratava de uma área coberta, o que é natural. Um escudo derrubado, próximo e a sul, com o valor de sentido proibido, significa que o espaço das sepulturas era uma área interdita, o que também é natural. Um portado a norte sugere a saída dos despojos fúnebres rumo às aras crematórias, masculina e feminina, no barroco contíguo ao caminho velho e que corre junto ao muro norte do campo dos mortos. Na cabeça do acampamento, a poente, restos de muros de pedra solta atestam da existência de eventuais habitações, pelo menos duas, a justificar, no futuro, trabalhos de escavações arqueológicas.
Extra-muros, ou seja, fora da área vedada pelas paredes e alguns cavalos de frisa intervalados, na crença de que os condenados manchavam com o sangue a «civitas» ou o acampamento, tinham vez as execuções pela decapitação ou aplicação de outro tipo de penas, eventualmente a amputação de membros, a cegueira, e outras, bem em consonância com o significado e a semântica do termo Mancal. Daí os patíbulos executórios – o feminino a poente, e mais alto no terreno, assinalado por uma cabeça de mulher e com um símbolo feminino a meio de espécie de terreiro. O masculino situa-se lá ao fundo, a nascente, junto das aras crematórias. Um símbolo vélico, espécie de triângulo rectângulo, a nascente, e bem visível do fundo da ladeira, dos lados da ribeira do Noémi, atesta do grupo social e militar dominante – os vélites – a quem estaria confiado aquele espaço. As Eiras Velhas, o caminho dos Mortórios, surgem já na parte final do meu trabalho, como um complemento e como que por exclusão de partes, a justificar e a confirmar toda a semântica e todo o contexto fúnebre e sacrificial do Porto Mancal
Mas o texto do meu livro «Na Rota das Pedras», as fotos, e, seguramente, uma visita ao local, falarão muito mais do que aquilo que eu vos disse ou possa dizer.

Célio Rolinho Pires

Na manhã de ontem, 29 de Agosto, militares da GNR da Investigação Criminal de Pinhel, apoiados por cães treinados na deteção de droga, detiveram um homem de 50 anos de idade, residente em Foz Côa, pelos crimes de tráfico de estupefacientes e posse ilegal de armas.

O suspeito, que já estava a ser investigado a algum tempo no âmbito de um inquérito a correr termos no Núcleo de Investigação Criminal de Pinhel, foi detido no decurso de buscas realizadas à sua residência, na cidade de Foz Côa, onde detinha o produto estupefaciente, designadamente, 457,7 gramas de liamba, já dividida em pacotes e pronta para venda, quantidade suficiente para cerca de duzentas doses individuais, bem como cinco plantas de cannabis sativa, com alturas compreendidas entre 90 cm e 190 cm, que cultivava num armazém anexo à residência.
Foi-lhe ainda apreendido: uma pistola de calibre 6,35 mm e dois carregadores, uma espingarda de calibre 22 mm, 16 munições de calibre 6,35 mm, 19 munições de calibre 22 mm e 27 cartuchos de chumbos de calibre 12.
No mesmo dia militares da Equipa de Intervenção Fiscal e do Posto Territorial de Seia, no decurso de uma operação de fiscalização de transporte de mercadorias, que se destinavam à feira semanal de Seia, elaboraram um auto por crime de contrafação de mercadorias, sujeitas a cumprirem com as formalidades legais relativas ao Código da Propriedade Industrial (CPI), de que resultou a apreensão de 294 peças (vestuário, calçado, cintos, malas, relógios e perfumes) de diversas marcas conceituadas no mercado, com o valor total e presumível de 19.060 euros. Em consequência, foi identificado um homem, residente no concelho de Viseu, como sendo o proprietário da mercadoria apreendida.
plb

Existe uma alternativa para o desalento que atravessa a lúcida crónica que o Paulo Leitão publicou a 20 de Agosto!

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»Em Novembro de 2000, no jornal 5 Quinas, escrevia, «Defendo, assim, que se torna urgente a elaboração de um Plano Estratégico para o concelho (PECS), como um factor essencial do processo de desenvolvimento».
E relembro isto aqui porque a inexistência de uma estratégia para o desenvolvimento do Concelho foi e é ainda uma das principais razões para o estado a que chegámos.
E não podemos ignorar, nem escamotear que foram executivos municipais de maioria absoluta PSD os que nos conduziram a esta situação. Como não podemos esquecer que foram os vereadores da oposição que logo que tiveram condições para impor a elaboração de um Plano Estratégico, fizeram aprovar tal proposta, seguindo-se agora o processo de elaboração do mesmo, logo que selecionada a empresa.
Mas mesmo na ausência de tal Plano havia outro caminho por onde seguir.
E não posso deixar, mais uma vez, de dizer que o Concelho perdeu uma oportunidade de ouro quando não elegeu em 2009 o Toni e os candidatos do PS para liderarem o Município.
O Programa Eleitoral que apresentámos aos eleitores abria uma janela de oportunidade e rompia com a forma de encarar as questões do desenvolvimento do Concelho, tendo como objectivo último «transformar o Concelho do Sabugal num território competitivo e atractivo para nascer, crescer, viver, trabalhar, investir, envelhecer e visitar, promovendo de forma sustentada a qualidade de vida dos sabugalenses».
Alguns nos chamaram utópicos, dizendo que até eram umas ideias bonitas, mas que não tinham viabilidade de serem concretizadas.
Era verdade que tínhamos sonhado alto! Era verdade que não ia ser fácil pôr em prática algumas das coisas que propúnhamos!
Mas também era, e continua a ser hoje ainda mais verdade, que fazer mais do mesmo não poderia ter outro resultado que o que está à vista!
Esta terra é para crianças, para jovens, para adultos e para idosos!
É uma terra com potencialidades para se afirmar e para se tornar atractiva para novas gentes e novas actividades económicas!
Mas isso obrigará a mudar de rumo e a mudar de liderança municipal.
«O sonho comanda a vida», dizia o poeta. Mas não chega sonhar se os homens não souberem ou não quiserem transformar o sonho em realidade…

Ps 1: Terminei a última crónica prometendo mostrar que a questão dos trabalhadores da SABUGAL + estava salvaguardada na Lei que aprova o regime jurídico da atividade empresarial local e das participações locais (decreto 77/XII). Para isso aqui transcrevo o nº 6 do Artº 62º deste Decreto: «As empresas locais em processo de liquidação podem ceder às entidades públicas participantes os seus trabalhadores contratados ao abrigo do regime do contrato de trabalho, nos termos do disposto no artigo 58.º da Lei n.º 12-A/2008, de 27 de fevereiro, na exata medida em que estes se encontrem afectos e sejam necessários ao cumprimento das atividades objeto de integração ou internalização.»

Ps 2: Impossibilitado de estar presente acompanhei na televisão a etapa da Volta que atravessou parte significativa do Concelho e terminou no Sabugal.
Como já o afirmei esta é uma boa aposta do Município, e que, se possível, deve continuar.
Mas não posso deixar de lamentar o espectáculo televisivo que a RTP transmitiu a partir do Largo do Castelo.
Não fora a qualidade da Banda da Bendada e do Grupo de mulheres quadrazenhas, e estaríamos perante uma coisa inenarrável.
As entrevistas mais pareceram momentos de tapar buracos enquanto mais um pretenso «cantor» se preparava, e aquelas bonecas e boneco a que chamam apresentadores, deviam era ter sido atados às galhas de um forcão em tarde de Capeia!
Basta comparar com a qualidade do ano passado para se perceber como a RTP anda a descer de nível!

«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

rmlmatos@gmail.com

No último fim-de-semana de Agosto chegou a notícia do falecimento do Bispo Emérito de Angra do Heroísmo – Açores.

Nasceu há noventa e dois anos em Alcains – Castelo Branco. Frequentou os Seminários do Gavião, Alcains e Olivais. Em 1943 foi ordenado Padre em Portalegre e fez um percurso em diversas paróquias; foi professor no Seminário do Gavião, em alguns colégios e no ex-Liceu de Nuno Álvares em Castelo Branco. Foi um grande dinamizador da Ação Católica.
Em 1974 foi nomeado Bispo de Angra, onde se mantém até 1996. Tem na sua Diocese dois atos que os açorianos não esquecem: foi o grande impulsionador do Culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres e colaborou intensamente no processo de reconstrução das Ilhas Terceira, Graciosa e S. Jorge, depois de o sismo que as abalou em Janeiro de 1980.
Feita esta apresentação biográfica, vou à gaveta dos apontamentos, e lá encontro resquícios de um longo encontro com D. Aurélio Escudeiro em Castelo Branco. A edilidade albicastrense quis prestar homenagem a todos os sacerdotes do seu concelho. Pelas funções dirigentes que desempenhei e pelas ações cívicas que efetivei na Cidade de Amato Lusitano, fui convidado para essa Cerimónia de reconhecimento público a todos os agentes pastorais, na pessoa dos Párocos.
A seguir a um ato religioso fomos almoçar num restaurante local. Na mesa para onde fui encaminhado incluía-se D. Aurélio Granada Escudeiro, atualmente a residir em Alcains. Na troca de cumprimentos informo-o que trabalho em Castelo Branco e que casei em Aldeia de Joanes – Fundão.
Esta Freguesia era-lhe muito familiar e dizia-lhe algo. Numa longa conversa adiantou-me que o pai – João Lourenço Escudeiro – desempenhou durante muitos anos a tarefa de Feitor na Casa do Outeiro. Trabalho de muita responsabilidade. Por ele passava toda a estrutura rural, a funcionar ainda em moldes feudais, dado tratar-se de gente de sangue azul. Nas suas funções contavam-se: recrutamento de pessoal agrícola, pagamento dos seus soldos, distribuição de tarefas, o uso da disciplina e da justiça.
Também a sua mãe – Maria Belarmina Pinheiro – teve um papel importante naquela casa, colaborando com o marido.
D. Aurélio teve um irmão – Padre José – que desenvolveu um trabalho pastoral muito importante em prol das comunidades de emigrantes, principalmente na Alemanha. Da sua família, duas irmãs também se destacaram. Uma delas, de nome Evangelina, é Professora-Regente em Aldeia de Joanes, ensinando alunos até à terceira classe. A Escola funcionava numa das salas da casa do Joaquim de Almeida, que chegou a ter uma Taberna. A sua especialidade era vender a carne das rezes, que vendia diariamente e fazia os enchidos muito gostosos. Alguns chegaram à mesa do Papa João Paulo II, em Roma, através do Embaixador de Portugal que tinha raízes no Fundão.
Esta professora-regente casou com Joaquim Francisco Xavier, natural de Aldeia de Joanes, que abraçou a carreira militar na antiga Polícia de Viação e Trânsito, mudando a residência para Coimbra.
Com os pais cristãos praticantes, D. Aurélio deslocava-se à histórica Igreja Matriz de Aldeia de Joanes, a fim de assistir aos mais diversos cultos, tendo bem viva na sua memória a riqueza dos diversos altares e os cânticos religiosos entoados pelo povo.
Também me falou da festa do Espírito Santo, na Casa do Outeiro, sempre que a família Trigueiros assim entendia, chamando as gentes de Aldeia de Joanes para a prepararem. Esta realizava-se no recinto da Quinta. Aqui falou-me com muita vivacidade, lembrando-se das festividades nos Açores.
Recorda-se de ali receber as Boas Festas, o Compasso, a visita do Pároco de Aldeia de Joanes, anunciando Jesus Cristo Ressuscitado.
Com tantas ligações a Aldeia de Joanes, informei-o que hoje já não conhece estas paragens, onde os seus pais estiveram durante mais de uma década. Nos últimos anos Aldeia de Joanes tem bairros novos, uma fábrica de confeções, oficinas. Há um misto do rural com o urbano. É um dormitório do Fundão e está a crescer em termos demográficos e urbanísticos.
Assim convidei-o para uma romagem de saudade a estas terras que o acolheram na sua juventude, das quais tem boas recordações, oferecendo-lhe total disponibilidade para o transportar de Alcains a Aldeia de Joanes e vice-versa. Aderiu à ideia, dando-me todos os contatos para se concretizar este objetivo.
Apesar de diversos telefonemas, não se realizou a vinda, umas vezes porque já tinha compromissos e outras porque a débil saúde não lhe permitia viagens nem estadias alongadas.
Descanse em Paz a sua Alma…
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

No dia 16 de Agosto, foram inauguradas na Miuzela as instalações definitivas da Associação de Cultura Prof. Dr. José Pinto Peixoto, insigne cientista natural dessa freguesia do concelho de Almeida. Coube ao escritor e investigador Célio Rolinho Pires, natural de Pêga, proferir no acto uma conferência, que nos transmitiu e que publicamos na integra, embora, dada a sua extensão, dividida em três textos que publicamos em dias sucessivos.

De referir ainda que, aquando da celebração do Tratado de Alcanizes em 1297, pelo rei D. Dinis, o espaço português até ao Algarve já estava definitivamente conquistado, o que aconteceu em 1249 com o rei D. Afonso III, como é sabido. Mesmo pelo que a nós diz respeito, neste espaço de aquém do Coa, também a fronteira a essa data estava já definida por esse rio e o território organizado e defendido pela Cidade da Guarda cujo concelho em termos de projecto ia até ao Tejo (1199) mas que, na prática, teve de repartir, dada a sua extensão, pelos concelhos de Vila do Touro e Sortelha (1228) que compreendiam uma boa parte das Terras do Estremo, até à Fatela, no sopé da Serra da Gata, incluindo terras hoje espanholas, seja, Valverde del Fresno, Eljas, S. Martinho de Trevejo, Hoyos, Vila Miel, etc, onde, aliás, ainda hoje se fala um dialecto galaico-português que Leite de Vasconcelos apelida de «Samartinhego», certamente uma fala residual dos tempos da presença portuguesa no Estremo (século XII a XIV). Mais ainda, e já que se trata de direito consuetudinário, os Costumes da Guarda, reduzidos a escrito apenas em 1217, no reinado de D. Afonso II, e com aplicação seguramente no território do seu concelho, que era a margem esquerda do Coa até ao Erges, na encosta da Serra da Xalma (Valverde), falam já, no seu art.º 117-º, dos «aveladores do monte», ou seja, os vigias ou sentinelas, espalhados pelo território, que tinham privilégios idênticos aos dos andadores (espécie de GNR), aos avinadeiros encarregados de levar as partes a acordo e aos saiões que aplicavam a justiça (algozes, carrascos…). Conheço duas dessas vigias naturais, entre fragas, uma na Vila do Touro, outra no S. Cornélio. Tratei de tudo isto no meu livro «A Guarda No Caminho do Estremo» (2001) em que me propus, e penso tê-lo conseguido, definir o papel da Guarda-Cidade, no alargamento do território até ao Tejo e na definição das fronteiras com o Reino de Leão pelo Coa e pelo Erges e ainda a organização das populações, de permeio, em concelhos, nomeadamente, como disse, Vila do Touro e Sortelha. Evidente que uma análise dos Costumes da Guarda e dos Forais destes concelhos teria de ser feita e foi-me muito gratificante e compensador verificar que muito do vocabulário e da cultura popular do Alto Coa têm raízes arcaicas bem profundas, no mínimo século XIII, ou mesmo antes, dado o cariz do direito consuetudinário predominantemente oral dos Costumes da Guarda que Alexandre Herculano classifica de os mais representativos do reino. Penso que alguns conflitos entre as populações de um e do outro lado da fronteira, pelo Coa e pela Ribeira do Boi, terão sido meramente episódicos e pouco duradouros, quase sempre, por razões de acerto dos limites e poderes dos concelhos ribeirinhos. Haja nomeadamente em vista o derrube do Castelo de Vila do Touro em 1221 pelos do concelho da Guarda e o diferendo acerca dos termos entre o concelho do Sabugal e o concelho de Sortelha, já depois do Tratado de Alcanizes, e resolvido pela Carta da Fatela (do Estremo e não de Penamacor!) em 1315, sob o alto patrocínio do Rei D. Dinis (Ver A Guarda no Caminho do Estremo).
Todavia, e antes dessa circunstância do alargamento dos vários reinos hispânicos, com o objectivo comum de recuperar o território aos mouros, penso que as populações de um e de outro lado do Coa reagiram sempre em bloco e solidárias perante inimigos comuns que, no geral, se apresentavam de leste, e não foram poucos ao longo da História. Vejamos.
Logo no início do século VIII AC, com origem no Danúbio e na Anatólia, foram as invasões indo-europeias que, segundo Manuel Gorbea Almagro, professor da Universidade de Madrid, terão trazido consigo a língua, a religião, a cultura do ferro e o culto da incineração dos mortos. Serão porventura estes povos que estão na origem da cultura ibérica que os romanos vieram encontrar no século II AC, aí incluída certamente a cultura lusitana..
Depois, aí pelo século III AC, foram os cartagineses que abriram as portas aos romanos e a cujo general, Aníbal Barca, e a propósito da ferocidade dos lusitanos, se atribui a ironia da seguinte frase: «andei por lá (na Lusitânia) e o que de mais feroz encontrei foram os rebanhos que tive de afastar a pontapé para poder passar com os meus soldados».
Depois (século II AC) foram os romanos cuja luta se prolongou por cerca de dois séculos. E a luta de guerrilha desencadeada pelos povos autóctones, nomeadamente lusitanos e vetões, não foi pera doce para eles.
A seguir foram os povos bárbaros (século V DC) – vândalos, alanos, suevos, visigodos que retalharam entre si o Império Romano e estarão na origem dos vários reinos ibéricos com destaque, no início, para o Reino dos Suevos (Braga) e o Reino dos Visigodos (Toledo).
No século VIII (711) chegaram os árabes que, em pouco tempo, ocuparam a Península, à excepção das Astúrias, dando origem ao movimento de sinal contrário – a Reconquista Cristã – que terminará apenas em 1492 com a conquista do Reino de Granada.
Quanto a leoneses e castelhanos não foram poucas as vezes que as populações fronteiriças tiveram de os enfrentar, quase sempre em relação com as várias crises dinásticas, nomeadamente a de 1383/85 e aquela que se seguiu à morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir (fins do século XVI). Quer isto dizer que a independência e a liberdade de Portugal que alguns povos ibéricos separatistas ainda hoje pedem a Madrid, não foi uma dádiva dos nossos «hermanos» do tipo do «tostão manuelino» que o alcaide do Sabugal dava todos os anos em uma salva de prata ao alcaide de Sortelha por despacho de Filipe II, em 1615, segundo o tombo desta vila.
Finalmente (princípios do século XIX) foram os franceses de que o Prof. Pinto Peixoto no seu livro sobre a Miuzela nos conta tantas histórias ouvidas à sua avó, ao abordar também a questão das milícias, das ordenanças e até da Ronda, em sentido próprio, quando os tambores anunciavam o perigo pelas ruas das aldeias.
De todos estes povos, não há dúvida que aqueles que mais marcas terão deixado na nossa cultura terão sido os romanos – é pelo menos o que consta! Basta pensar na rede viária, na organização e na unidade política e administrativa das populações, no direito, aquedutos, teatros, anfiteatros, pontes, etc. Já quanto à romanização linguística e à introdução, pela primeira vez, do latim como língua mãe e base das várias línguas românicas, não me parece que isso seja tão linear assim… É francamente perturbador, pelo menos, no tocante às inscrições das Fráguas e de Lamas de Moledo, consideradas do século I AC, e até a muitos dos topónimos que fazem ainda hoje muitas das matrizes das Finanças dos vários concelhos, constatar que muitos desses nomes pertencem ao denominado português popular, seja latim, seja grego, seja céltico, seja de origem obscura, todavia português, e anterior à chegada dos romanos. É que, muitas dessas palavras, sobretudo os topónimos têm a ver com a cultura das Pedras e com a função que elas tiveram antes da romanização. Sirvam, a todos os títulos de exemplo, topónimos como a Cornusela (santuário lusitano), as Carapitas, a Maçaperra, o Peneducho, o Barroco Empinado, o Tamanco, a Laje da Lancha, a Sangrinheira, as Panchorras, o Porto Mancal, etc, etc, muitos deles tratados no meu livro «Na Rota das Pedras». É que, não faria sentido, seria mesmo um absurdo, as Pedras, nomeadamente as que integram os patíbulos executórios, de que apresento vários modelos nos meus trabalhos, incluindo o vosso Porto Mancal, terem funcionado como tal em determinado momento histórico (séculos I, II AC?) e virem a ser baptizadas pelos romanos 300 ou 400 anos mais tarde. Mas essa questão ficará para os eruditos, ou tidos como tal, resolverem.

Célio Rolinho Pires

O termo Charro aparece-nos com vários significados.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaUmas vezes, para designar uma das várias regiões naturais por que se divide a província de Salamanca – o Campo Charro – uma extensíssima chapada de cereais e montado, contraposta às alcantiladas arribas do Douro, às serras de Gata e de Francia, aos condados de Penharanda ou ducados de Tormes, a famosíssima Casa de Alba.
Não falta também quem, generalizando, use a palavra como sinónimo de camponês salamantino na sua autêntica pureza e genuinidade.
Desprimorando mais o vocábulo alguns dizem-no sinónimo de rude, grosseiro, inculto.
E é neste sentido que genericamente se fixam os dicionaristas… por todos Domingos Vieira no seu celebérrimo tratado Tesouros da Língua Portuguesa.
E constata-se aqui uma desfocagem que de algum modo faz deslissar o tema para um ângulo de observação que é aquele que aqui se pretende imprimir-lhe.
O termo – admitem os investigadores, radicará no vasconso, idioma muito rude e, fiel às origens – significa linguajar rude, próprio de gente iletrada e isolada do mundo, contrapondo- se ao falar fidalgo, grave, ou de acordo com as regras da escola.
Na Aldeia da Ponte ou nas Batocas da minha meninice, ainda me diziam que eu, por frequentar o ensino primário na cidade da Guarda, falava à grabe e o Gregório Nave, meu contraparente por afinidade, por viver na Nave Longa, fazenda raiana, onde lidava muito com albergarios e alamedilhos, falava charro.
Ora, o charro é mesmo um dialecto, um português ainda carregado de leonismos e já mesclado de castelhano, que se falava até há pouco, e ainda há quem o use, nas terras de Xalma.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

A capeia de Aldeia Velha foi marcada pela presença de uma equipa da Central de Cervejas, constituída pelo Director Regional do Centro e outros responsáveis, nomeadamente o director de Marketing da empresa.

O distribuidor local da Sagres, José Carlos Ricardo, da Uniraia, trouxe á derradeira capeia deste ano os dirigentes da empresa para verificarem como vale a pena visitar e conviver nestas terras raianas, que em Agosto vivem em rebuliço com as tradições taurinas.
A muita cerveja que se bebe na raia sabugalense, onde a Sagres domina em absoluto, demonstra bem o ânimo com que a malta convive. São milhares de litros que, em copos e em garrafas (as célebres minis) passam de mão em mão em rodadas sucessivas, animando as conversas e cimentando a amizade.
O «patrão» regional da Sagres, Gonçalo da Franca, pegou até ao forcão, desafiando entre os raianos locais um dos toiros da tarde.
A objectiva do Capeia Arraiana, captou a foto que juntou, em plena praça, a família da cervejeira nacional num momento de descontracção.
plb

Todos os anos o ciclo das touradas com forcão na raia sabugalense tem o seu ocaso com a realização da tradicional capeia arraiana de Aldeia Velha, no dia 25 de Agosto. Este ano estivemos na festa brava, palco de todos os encontros.

Desde 6 de Agosto na Lajeosa da Raia até 25 em Aldeia Velha, correm 19 dias de intensa vida na Raia Sabugalense, em que a tourada com o forcão é a demonstração festiva essencial. A tourada de Aldeia Velha, por ser a derradeira em cada ano, colhe atenções especiais e junta sempre um mar de gente.
Neste Agosto de 2012 não foi diferente. Aconteceu a um sábado, o que facilitou a mobilização geral.
O imenso público assistiu pela manhã ao encerro dos magníficos toiros do ganadeiro Zé Nói. Dezenas de cavaleiros encarregaram-se de conduzir os animais bravos ao curro, após o que se seguiu o almoço, que para os forasteiros constituiu um animado convívio, degustando frangos assados ou outros petiscos, sob frondosas sombras das árvores, nos restaurantes da redondeza ou nas roulottes dos que ali «acamparam» para ver a capeia.
De tarde, às 5 horas em ponto, teve início a capeia, precedida pela cerimónia protocolar do «passeio dos rapazes». Os toiros saíram endiabrados dos curros e investiram fortemente no forcão, bem seguro e dirigido pelos capeadores da terra. As pessoas apinharam-se nas calampeiras, para assistir ao espectáculo. A praça improvisada no largo da aldeia não era porém suficiente para albergar a grande quantidade de gente, que se espalhava pelas ruas e largos fronteiros, bebendo e convivendo.
Após a tourada fez-se o «desencerro», com os cavaleiros conduzindo os toiros de volta para o campo, enquanto a festa continuou a animar Aldeia Velha pela noite dentro.
Para o ano haverá mais capeias na raia sabugalense e Aldeia Velha marcará de novo o fim da época taurina com igual, ou até maior, enchente de povo.
plb

No dia 16 de Agosto, foram inauguradas na Miuzela as instalações definitivas da Associação de Cultura Prof. Dr. José Pinto Peixoto, insigne cientista natural dessa freguesia do concelho de Almeida. Coube ao escritor e investigador Célio Rolinho Pires, natural de Pêga, proferir no acto uma conferência, que nos transmitiu e que publicamos na integra, embora, dada a sua extensão, dividida em três textos que publicamos em dias sucessivos.

Ao ser convidado pelo Sr. Major General Augusto José Monteiro Valente para uma sessão de «apresentação da minha obra e de esclarecimento sobre as sepulturas do Porto Mancal e das Eiras Velhas, seu valor histórico e interpretação», «no âmbito do programa de actividades respeitantes à inauguração das instalações definitivas da Casa de Cultura Pinto Peixoto e celebração do 90-º aniversário do nascimento do seu patrono…», devo confessar-vos, com toda a franqueza, o que na altura senti: surpresa, porventura alguma perplexidade e até, porque não dizê-lo, um certo embaraço. É que, se o convite me honra, e honra com certeza, aceitá-lo, assumi-lo, responsabiliza e compromete. E isso mexe por dentro! Afinal, e por pouco, já que aceitei o convite, que agradeço, a situação em que eu me encontro neste momento, se pensarem bem, não é nada cómoda porque embora vosso vizinho e quase conterrâneo, pois sou de Pêga, eu não sou de cá, e todavia, mercê das circunstâncias, vejam bem, aceitei vir aqui para vos falar de coisas que vocês conhecem, estou em crer, muito melhor que eu, seja, o Porto Mancal, as Eiras Velhas, o caminho dos Mortórios, o Barreiro, a ribeira do Noémi, etc, etc. Chama-se a isso meter a foice em seara alheia e isso não vale! Talvez, no entanto, assim o espero, eu possa sair um pouco redimido, se atendermos à maneira como eu, a partir de certa altura, comecei a olhar para estas coisas… Mas isso já não é comigo.
Como já disse, eu sou de Pêga e a Miuzela, como referência, faz ainda hoje parte das minhas memórias antigas! É que, junto ao Carvalho milenar que ainda hoje lá está no largo do mercado de Pêga, havia sempre uma taberneira, acho que era a Ti Lourdes, que assentava arraiais em um caracão de pedra onde os lavradores conversavam, discutiam e bebiam e o cheirinho do trigo de quartos da Miuzela a «rescender», como diria Eça de Queiroz, e que dispensava bem qualquer tipo de peguilho, foi coisa que me ficou para sempre. Verdade! Coisas tão simples, vejam bem, como uma noz, uma castanha fora de época, um figo seco, um rebuçado, uma bola mal finta… A escolha do local pela Ti Lourdes não era ocasional: estava-se a meio do mercado do gado e, como é sabido, negócio fechado, alboroque celebrado… Mas também, e ao longo da minha vida, consegui e tenho aqui ainda bons amigos que aproveito para cumprimentar. Evoco também, se me dão licença, a memória do meu amigo César Falcão que já não está entre nós.
Posto assim perante o facto consumado de ter aceite, e ainda antes de entrar na ordem do dia pelo que a mim diz directamente respeito, deixem que eu de forma sucinta e despretensiosa, preste a minha homenagem muito sincera ao vosso conterrâneo, Prof. Dr. José Pinto Peixoto, que dá o nome à vossa Associação de Cultura, que não cheguei a conhecer, mas de quem muito ouvia falar já nos meus tempos de Faculdade, aí pela década de 60, altura em que terá sido, penso, vice-reitor da Universidade de Lisboa. Já ao tempo era sem dúvida motivo de honra e de orgulho não só para os miuzelenses, mas também para todos os beirões confinantes e vizinhos deste espaço étnico-culturalmente homogéneo na margem esquerda do Rio Coa, que «grosso modo» se desenha desde o Rio Noémi até às nascentes do Coa, e que as vicissitudes da História ajudaram a construir e a cimentar. As qualidades humanas do Prof. Pinto Peixoto, tais sejam, a simplicidade, a popularidade, a simpatia, o bairrismo, o amor à sua terra, de que muito tenho ouvido falar, juntamente com os seus predicados ao nível da ciência que fizeram dele um dos mais conceituados geofísicos e meteorologistas, sendo mesmo pioneiro ao nível do estudo do ciclo da água à escala global, fizeram dele um verdadeiro modelo e paradigma a imitar sobretudo pelos mais novos e a merecer a estima e o respeito de todos nós. Esta é assim uma reunião de beirões que aqui se juntaram, na Miuzela, para homenagear um dos seus pares, porventura o mais ilustre e representativo da sua terra em sentido lato.
O beirão, como diz Miguel Torga, no seu livro «Portugal», é um ser muito especial capaz de lá longe, América, Canadá, França…dirigir os destinos da sua terra como presidente ou secretário da junta de freguesia, para não falar, acrescentaria eu, dos que, à distância, orientam e coordenam as Irmandades dos Mortos e as mordomias do orago e de outros santos do lugar. A Beira, esta nossa Beira, é uma terra vera, verdadeira, autêntica, vestida de luto na paisagem e nas roupas dos homens e das mulheres que a habitaram e habitam. O fato do casamento haveria de ser guardado religiosamente para a mortalha, como sabemos. Não será por acaso que, por aqui, ao cemitério se chama ainda a «terra da verdade». E nós sabemos que é! Foram, sem dúvida, as vicissitudes da História, as dificuldades, as lutas com o invasor, a morte, para não falar da avareza do solo povoado de pedras enigmáticas, austeras e sombrias que fizeram desta gente o que ela é na verdade – uma gente sóbria, de poucas falas, amiga do seu amigo, pouco dada a fanfarronices ao jeito dos arraiais minhotos, com o devido respeito…
Guardarei a temática das Pedras e do Porto Mancal lá mais para o fim, se me dão licença. Deixem então que vos fale de outras coisas que me parece terem sido igualmente importantes, mesmo decisivas, para a formação da nacionalidade, ainda antes do acerto das fronteiras por D. Dinis em 1297, com o Tratado de Alcanizes. Só que talvez menos badaladas… É que, se Guimarães foi o berço da nação, as terras de Beira-Coa foram sem dúvida esquife para muitos dos nossos antepassados…
Chamei há pouco a atenção para as afinidades de ordem étnico-cultural e de boa vizinhança sobretudo entre os povos da margem esquerda do Coa, seja, Miuzela, Cerdeira, Peroficós, Marmeleiro, Rapoula, Pêga, Pousafoles, Vila do Touro, Malcata…mas também com os povos do lado de lá, embora em momentos diferentes da nossa história. Que mais não seja, a título de curiosidade, vejam no vosso livro «Miuzela, a Terra e as Gentes» da autoria do homenageado, Prof. Pinto Peixoto, página 208, a série de castelos, redutos, atalaias, vigias, castros, etc, que povoavam todo este nosso espaço com vista à defesa do território e das populações! Alguns exemplos apenas: Miuzela, para começar, Vila Fernando, Cerdeira, Águas Belas, Sortelha, Vila do Touro, Rapoula, etc, do lado de cá…mas também Caria Talaia, em frente à Rapoula, Ruvina, Sabugal, Vilar Maior, Bismula, Alfaiates, do lado de lá… Só que, e até 1297, por razões óbvias, estas fortificações, de um e do outro lado do Coa, eram, evidente, de sinal contrário, já que os de cá defendiam-se dos de lá, e os de lá dos de cá… Mesmo assim, o Cancioneiro do Alto-Coa cujas quadras, muito antigas, da idade dos étimos, estou em crer, os tocadores cantavam e tocavam nos mercados e à Ronda, aí está ainda a denunciar o que foi a unidade e o movimento solidário das populações que através do lúdico e do humor, revelam bem o que terá sido assunto bem sério em termos de história, de luto e de luta, e de sofrimento…
Apenas alguns versos:
Lagartixos os de Sortelha
Carrapatos os da Bendada
Borrachões os de Pousafoles
Falupos os de Penalobo
Cornudos os do Monte Novo
Espreita-ratos os do Ruivós,
Ceboleiros os de Peroficós
Cerdeira curtos de vista
Tocam armas em Malcata
Cães de fila os do Sabugal…
Etc, etc, etc….

Célio Rolinho Pires

O «milagre económico» da China passou por milhões de prisioneiros tanto de delito comum, como políticos, enormes Gulags onde esses prisioneiros trabalharam de sol a sol e sem salário, contribuíram para o aumento das exportações chinesas.

António EmidioE donde veio a maior parte dos empresários chineses? Eram os directores desses campos de concentração! No tempo de Mao Tsé-Tung os campos de concentração serviam para os dissidentes aceitarem o sistema ou morrerem. Actualmente são empresas que se pagam a elas próprias exportanto produtos manufacturados pelos presos, não é por acaso que a maior parte das prisões e campos de concentração se encontram numa província do Sul da China, zona onde começou a Revolução Industrial Chinesa.
As autoridades chinesas mantêm a maior discrição no papel económico desempenhado pelas prisões, porque o seu principal importador, os Estados Unidos, proíbem a importação de produtos manufacturados por prisioneiros. Alguns destes campos de concentração têm mais de sessenta mil prisioneiros, tanto de delito comum como políticos. O leitor(a) já viu o que é uma fábrica com sessenta mil operários trabalhando catorze horas por dia, sete dias por semana e sem ter de pagar salários? E todo aquele, que devem ser centenas, que não consegue os objectivos é condenado a trabalho extra às horas das refeições.
Uma empresa ocidental, produtora de vinho, tem enormes vinhas na China onde trabalham prisioneiros chineses, e todo aquele prisioneiro que por qualquer motivo desobedeça minimamente aos guardas é amarrado nu a um poste no meio de uma vinha ao anoitecer. Em pouco tempo está coberto de mosquitos, a única coisa que consegue fazer é gritar… Os directores dos campos de concentração são treinados nas celebérrimas técnicas do Marketing do Ocidente, para as exportações terem sucesso. E os corifeus da comunicação social chinesa não se coíbem de dizer: «temos uma vantagem comparativa. Graças à nossa grande população prisional temos acesso ao grande potencial que representa uma fonte de trabalho muito barata».
A União Europeia ainda há bem pouco tempo não tinha legislação que proibisse a importação de produtos fabricados em campos de prisioneiros, não sei se já tem, mas uma coisa é certa, tenha ou não tenha, muitos desses produtos, para não dizer a maior parte, são vendidos em lojas chinesas nas nossas cidades e nos bairros onde habitamos.
Os grandes capitalistas conhecem as condições laborais infra-humanas que existem na China, mas isso não impede que muitas multinacionais transfiram para lá uma parte considerável dos seus produtos com o único objectivo de reduzir gastos e poder competir melhor nos mercados. Ganância! Só ganância…

Querido leitor(a), a diminuição no valor dos salários dos trabalhadores europeus tem a ver com a concorrência dos «escravos» chineses. Receio que a Europa se transforme num enorme Gulag debaixo das ordens da Alemanha.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

O encerro e a capeia dos Forcalhos têm proporcionado, a cada ano, um encontro de amigos que para além de apreciarem as lides taurinas aproveitam a ocasião para realizar um almoço. O local eleito é o recinto da Senhora dos Prazeres, contíguo às ruínas do Sabugal Velho, no termo de Aldeia Velha.

No dia 20 de Agosto o encontro de amigos repetiu-se e a objectiva do Capeia Arraiana registou a foto de grupo de fiéis convivas.
O cozinheiro foi o Fernando Gomes, que preparou uma saborosa caldeirada de cabrito, que mereceu o elogio geral.
Entre os convivas contou-se a presença do cónego Júlio Esteves, de Aldeia do Bispo, que pastoreia em Estremoz, na arquidiocese de Évora, e também a do Engenheiro Ivo Portela, presidente da Câmara de Tábua que há poucos dias renunciou ao mandato e que veio até à raia reviver as tradições.
A foto de família foi captada no final da refeição, com o grupo debaixo dos telheiros do recinto de festas da Senhora dos Prazeres, assim protegido do sol abrasador que se fez sentir nesse dia.
plb

Os bravos e encorpados toiros da ganadaria José Manuel Duarte proporcionaram excelentes lides no festival Ó Forcão Rapazes, que se realizou no Soito, no dia 18 de Agosto.

Perante uma praça municipal completamente lotada, em que os bilhetes se esgotaram e muitos não puderam entrar, teve lugar uma expressiva demonstração da maior e mais viva tradição do concelho do Sabugal, a Capeia Arraiana, que se realizou dentro do espírito de amizade e alegria que caracterizam a festa dos rapazes que pegam ao forcão.
Os toiros estiveram à altura das exigências do festival. Todos investiram bem ao forcão proporcionando óptimas lides às diferentes equipas.
Depois do desfile das nove equipas representativas de outras tantas aldeias raianas onde a tradição taurina não despega, iniciou-se o espectáculo, sob a orientação do experiente Esteves Carreirinha, o orador de serviço.

A primeira equipa a pisar a arena foi a dos Fóios, equipando com camisola azul. Os perto de trinta jovens que pegaram ao forcão enfrentaram um toiro preto forte e pujante, talvez o melhor de toda a tarde, que investiu vigorosa e continuadamente. O aparelho, seguro firmemente e dirigido com mestria pelo rabeador, rodopiou ao sabor das investidas do animal. Por mais de uma vez se pensou que o toiro iria contornar o forcão, mas os pegadores foram velozes e exímios no seu trabalho de plena sincronia, evitando o pior. Foi uma óptima lide, e certamente uma das melhores da tarde, o que fez com que o Festival abrisse com chave de ouro.

Seguiu-se a lide da equipa de Aldeia do Bispo, que equipou de azul claro. Os rapazes enfrentaram um toiro castanho muito forte que saiu fulgurante do curro, embatendo com violência na galha. O forcão aguentou firme e volteou ao sabor da investida. Porém o animal não marrava com a insistência do primeiro, afastando-se por vezes, sendo necessário incitá-lo para novos acometimentos. Ainda assim proporcionou uma boa lide, devido ao trabalho notável dos rapazes que pegaram ao forcão com valentia conseguindo tirar partido de um toiro que tinha que ser chamado para investir com alma.

O terceiro toiro da tarde coube a Alfaiates, cujos pegadores, ostentando a cor laranja nas camisolas, aguentaram um primeiro embate fortíssimo, a que se seguiram outros de igual vigor. Os rapazes mostraram-se sempre atentos e trabalharam em perfeita sincronia. De tanto embater e rodopiar o touro cansou-se e ficou menos insistente. Depois da lide os moços agarraram o animal, feito apenas igualado pela rapaziada de Aldeia da Ponte. O tempo concedido à equipa foi bem aproveitado, nomeadamente por dois jovens, os irmãos Batista, que cometeram a proeza de saltar sobre o dorso do animal, nomeadamente o Frank que deu um moral, o que causou espanto entre os espectadores e valeu um longo e merecido aplauso.

A turma de Aldeia Velha, vestindo de verde, enfrentou um dos melhores toiros da tarde, um animal castanho muito forte, que teve uma entrada fulgurosa, atacando a galha esquerda do forcão com muita violência, fazendo estalar o madeirame. À descomunal força do toiro contrapôs-se o empenho total da equipa, que segurou firme o aparelho e volteou ao sabor das endiabradas investidas. Com o correr do tempo e face ao cansaço o toiro bateu mais a compasso, ainda que sempre com força, obrigado os pegadores a um empenho permanente. A lide de Aldeia Velha esteve entre as melhores da tarde, o que lhe valeu sucessivos aplausos do público que enchia as bancadas da praça.

Os rapazes dos Forcalhos equiparam com camisolas castanho-avermelhadas (bordô) e enfrentaram com o forcão um toiro preto que bateu bem inicialmente, mas que depois passou a hesitar. Numa das investidas na galha o toiro correu com vigor tentando contornar o aparelho, o que gerou um clamor nas bancadas, num momento em que se anteviu o pior. Porém o intrépido rabeador acelerou o movimento circular do forcão e evitou que o animal o contornasse. No final, face às sucessivas hesitações do toiro, valeu o incitamento dos rapazes para que continuasse as fortes investidas no aparelho.

O Soito, que equipou de cinza, lidou um toiro castanho bastante alto, mas algo menos encorpado que os demais. Saiu no curro e investiu forte à galha esquerda, da qual demorou a despegar, proporcionando um bom momento de faena. Depois continuou a investir numa e outra galha, sendo contudo mais frouxo no encontro com o aparelho. A equipa da casa não beneficiou porém da bravura indómita do toiro que outras equipas tiveram em sorte, mas conseguiu ainda assim uma óptima lide. Encostado o forcão, os cortadores do Soito depararam-se com o toiro colado às tábuas, sendo de difícil chamamento para o meio da praça, o que desagradou à malta que gosta de «atentar» o animal.

A Lageosa equipou de azul escuro e lidou um toiro também negro que, tal como os restantes, bateu bem à investida inicial, quando saiu do curro. Marrou na galha direita, fazendo com que os pegadores rodopiassem rapidamente, o que fez levantar uma expressiva nuvem de poeira. Passado esse primeiro momento da lide, foi necessário incitar o animal para que voltasse a investir, conseguindo-se ainda assim bons momentos, em que os capeadores mostraram a mestria com que pegam ao forcão. O pó que se levantava da arena levou a que os Bombeiros do Soito regassem o solo, o que foi imprescindível para a continuação do Festival.

O Ozendo, que vestiu de vermelho, enfrentou um toiro preto, que quando entrou na praça deu um enorme trabalho à equipa, valeu-lhe permaneceu unida, bem agarrada ao aparelho, movendo-se em plena sincronia ao sabor das tremendas investidas do animal. O toiro meteu por mais de uma vez a cabeça por baixo do forcão tentando levantá-lo, valendo para o evitar a intrepidez e a boa atenção dos homens das galhas. Com o andar da lide o animal foi manifestando desinteresse pelo forcão, porém bateu sempre forte e com alma, partindo até uma galha numa das investidas. A equipa do Ozendo proporcionou uma das grandes lides da tarde.

Coube a Aldeia da Ponte fechar o Festival. Os rapazes, com camisola verde alface, lidaram um toiro preto, que marrou violentamente no forcão, fazendo estalar as galhas, o que chegou a criar um sussurro nos espectadores. Contudo a bravura do toiro não assustou os corajosos pegadores, que se mantiveram firmes e ágeis no lidar do forcão. Com o evoluir da faena o animal desinteressou-se pelo forcão, sendo necessário estimulá-lo para novas investidas. Aldeia da Ponte tem bons cortadores, que na fase que se segue à lide com o forcão geram um bom espectáculo, quase sempre coroado com a pega do animal, porém desta feita o toiro colou-se demasiadamente às tábuas, o que dificultou o trabalho dos aldeiapontenses, que no entanto honraram os seus créditos consumando a pega.

Foi uma tarde de excelente promoção da capeia arraiana, que mais uma vez se revelou enquanto manifestação popular emocionante e viva, com condições para se continuar a afirmar com um dos grandes potenciais de promoção do concelho do Sabugal.
plb

Militares da GNR do Posto Territorial de Vila Franca das Naves, detiveram, na tarde de 20 de Agosto, em Alto da Broca, Trancoso, um homem de 37 anos de idade, por crime de incêndio florestal por negligência.

GNR-Guarda Nacional RepublicanaO suspeito realizava trabalhos de manutenção da faixa de gestão de combustível, em linhas eléctricas da EDP, com um tractor agrícola que provocou a ignição do fogo que deixou descontrolar, dando origem ao incêndio de que o mesmo confessou ser o autor.
Em consequência da acção negligente arderam três hectares de mato, tendo a pronta intervenção dos bombeiros evitado que a área ardida fosse mais extensa.
Os factos foram comunicados ao Tribunal Judicial de Trancoso, ficando o suspeito com a medida de coação de Termo de Identidade e Residência a aguardar o resultado do Inquérito.
Segundo o comunicado semanal da GNR da Guarda, no dia 27 de Agosto, realizou-se uma operação de fiscalização, com particular incidência nos veículos de transporte de mercadorias que se destinavam à feira anual de Freixedas – Pinhel.
Foram fiscalizados 13 veículos de transporte de mercadorias em circulação, tendo sido elaborados cinco autos por crime de contrafacção de mercadorias, sujeitas a cumprirem com as formalidades legais relativas ao Código da Propriedade Industrial (CPI), e apreendidas 391 peças (vestuário, calçado, cintos, malas, óculos, relógios e perfumes) de diversas marcas conceituadas no mercado, com o valor total e presumível que ronda os 30 mil euros. Em consequência, foram identificados cinco indivíduos, residentes em Espanha e nos concelhos de Belmonte e Fundão, como sendo os proprietários das mercadorias apreendidas.
Na semana transacta o Comando Territorial, através do Destacamento de Trânsito da Guarda, levou a efeito uma operação de controlo intensivo de velocidade, denominada por «Operação Tispol», nas vias mais críticas do distrito. Durante a operação foram efectuadas 23 acções de controlo, tendo sido controlados 8.975 veículos, dos quais 283 circulavam com excesso de velocidade.
plb

Não deve haver terra nenhuma em Portugal em que os nomes que se davam dantes às crianças sejam matéria tão abstrusa como no Casteleiro. Tudo porque quer os padres, que dantes eram quem registava os nomes, como depois um delegado da Conservatória do Registo Civil com essa tarefa, seguiam caminhos ínvios. O resultado é o que se vê.

No Casteleiro, acho que ninguém jamais se preocupou verdadeiramente com isto, mas é matéria algo estranha para mim desde que me conheço.
Isso porque era até para mim fácil reconhecer grandes discrepâncias entre os nomes de irmãos em várias casas que conhecia.
Dou só um exemplo bem real:
Pai
Joaquim Augusto Catana.
Filhos
Vejam a disparidade e irregularidade de cada caso:
– José Augusto,
– Manuel Joaquim,
– António Catana,
– Augusto Catana.
(Sic: exactamente assim. Não inventei nada).
Como se vê, uns levam uma parte dos apelidos do pai, outros, nem isso. Manuel Joaquim é aquele que mais se afasta de todos os cânones, de qualquer regra. Uma pessoa receber apenas dois nomes próprios comuns e nenhum apelido de família é obra.
Isso deve ter-se passado há uns 80/90 e poucos anos (1920/30 e pouco).
E note que nenhum deles teve direito a qualquer nome de família da parte da mãe…

Nome próprio e apelido
Para nós hoje é fácil: “A escolha do nome próprio e dos apelidos do filho menor pertence aos pais; na falta de acordo decidirá o juiz, de harmonia com o interesse do filho” – artigo 1875.º, n.º 2 do Código Civil.
Mandam as boas normas que «os apelidos são escolhidos entre aqueles que os pais usem».
Mas noutros tempos como era?
Ao que sei, outra gente se metia nesse assunto: pelo menos o pároco e o tal delegado.
O resultado foi o que está à vista.
É rara a casa em que as regras foram seguidas.
E ninguém se preocupou nunca com isso.
Os miúdos ou levavam só o apelido da mãe ou só uma parte do apelido do pai.
O delegado chegava a impor que se a criança levava por exemplo o nome próprio José, igual ao do pai, então já não podia levar o apelido do pai pois «não podia ir duas vezes ao nome do pai». E aí ficava outro nome «coxo».
A minha geração deve ter sido a última mais «marcada» por estas anomalias.
A partir dali (1950) parece que as coisas entraram mais nos eixos.
Mas aí estamos hoje nós todos com estes fardos (nem leves nem pesados, mas que podiam bem ter-se evitado).
Se assim tivesse acontecido, o meu pai ter-se-ia chamado pelo menos José Augusto Catana e eu José Carlos Mendes Augusto Catana ou coisa no género – com ou sem o Augusto, admito, e ainda faltando o nome de família da minha avó, que não aparece no nome de ninguém lá de casa….

Nota
A pia baptismal que se publica não é a do Casteleiro – mas é idêntica.

Trouxe aqui apenas os exemplos do meu próprio nome e da minha família, pela via paterna, para que não haja dúvidas nem incómodos para ninguém.

PS 1
Era no baptismo que se fixava o nome das crianças. Conta-se até este diálogo já na pia baptismal do Casteleiro:
Padre:
– Que nome lhe pomos?
Mãe:
– Prantelhana, sr. Vigário.
Padre para o pai:
– O que é que ela disse?
Pai:
– Pescana, sr. Vigário.
Ana – era o nome que queriam. Só isso: Ana.

PS 2
Esta semana aprendi mais uma crendice popular da minha terra. Desconhecia por completo. Sei que há quem aprecie estas notas e por isso vou partilhar mais esta, que nunca tinha ouvido.
Já ouviram a expressão «bicho do ouvido»? Pois bem, soube agora que quando o bicho do ouvido mexe quer dizer que vai mudar o tempo. Isto foi-me contado depois de… uma mudança de tempo neste Agosto: o bicho do ouvido tinha mexido e zás: mudou o tempo…

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Aqui há um par de meses, a imprensa espanhola e europeia em geral «crucificou» o rei Juan Carlos I devido a um acidente que ele sofreu durante a participação numa caçada aos elefantes. Todavia, se as razões de ordem ecológica eram óbvias, existia por trás uma outra questão, esta de ordem ética: o rei encontrava-se acompanhado por uma alegada amante. Uma das muitas que a imprensa «cor-de-rosa» lhe costuma atribuir.

D. João V, rei de Portugal (1706-1750). Foram bem conhecidos dos seus contemporâneos os amores do Rei Magnânimo por uma freira de Odivelas, a Madre Paula, a quem instalou, com os três filhos bastardos que dela teve, no Palácio de Palhavã

Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaMuitos dos meus leitores lembrar-se-ão, por certo, de um caso semelhante, que envolveu o antigo presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton e uma jovem estagiária da Casa Branca, caso que chegou às mais altas instâncias do Poder americano. O bom-senso acabou por levar os senadores americanos a pôr um ponto final no folhetim. Na sociedade romana, os «senatores» eram os cidadãos nobres mais velhos e conceituados, supostamente os mais avisados, prudentes, sábios e sensatos. Infelizmente, antes como hoje, nem sempre isso acontecia. Muitos senadores romanos eram o protótipo antecipado do Frei Tomás: «Fazei o que ele diz, mas não o que ele faz.» E as denúncias sensacionalistas do jornalismo tablóide têm mostrado que alguns dos julgadores americanos também têm telhados de vidro. As pedras que, hipocritamente, atiravam sobre a Casa Branca, fizeram ricochete e estilhaçaram os seus próprios telhados.
Ninguém veja nas minhas palavras a desculpabilização do comportamento do Presidente Clinton e, do mesmo modo, do rei de Espanha. Na minha modestíssima opinião, eles agiram mal antes, durante e depois dos factos. Mas isso é uma questão, e o aproveitamento político e jornalístico do caso é outra.
Ao tempo da «lewinskyzação» da política americana, o histerismo sobre a vida privada dos políticos mostrava um sinal exterior de uma mentalidade puritana, que aparecia, aos olhos de qualquer europeu com milhares de anos de civilização às costas, como que um infantilismo histórico. Vejamos apenas alguns exemplos tirados dessa história europeia secular, cheia de casos tão ou mais explícitos que os de Clinton ou de Juan Carlos I.
Poderíamos falar de César e Cleópatra, ou de Calígula e as suas bacanais, ou da imperatriz Messalina, que parece ter hospedado no seu leito mais homens do que os que cabiam na arena do Coliseu; ou de Luís XV e a Pompadour. Ou de muitas rainhas e princesas que também não deixaram os seus créditos por mãos alheias: Catarina da Rússia, que preferia cossacos espadaúdos cheirando a vodka; ou Paulina Bonaparte, irmã de Napoleão, que, depois de se divorciar do general Leclerc, casou com o Príncipe Borghese, membro da mais alta aristocracia italiana, mas que vivia separada do marido porque este se envergonhava do seu comportamento libertino e licencioso. Poderíamos começar por tudo isso, mas comecemos antes pela nossa própria História.
São muito raros os reis de Portugal que não tiveram amantes. Abundam os bastardos e alguns deles até se tornaram reis, como acontece com D. João I, filho ilegítimo de D. Pedro I. Os casamentos régios eram geralmente uniões políticas, combinadas entre as casas reinantes da Europa, e só por sorte a um príncipe podia calhar uma princesa por quem viesse a sentir verdadeiro amor. Tanto lhe podia calhar em sorte uma mulher bela, sensível e bondosa (como parece ter acontecido com D. Dinis e D. Isabel, a futura Rainha Santa), como lhe podia sair uma mulher agreste e de pêlo na venta (como aconteceu com D. João VI e D. Carlota Joaquina). Portanto, nada de admirar que, cumprida a obrigação de assegurar descendência legítima, os monarcas procurassem outros leitos. É verdade que a religião condenava o adultério, mas havia sempre um confessor disponível para aliviar as consciências. E os reis sempre trataram bem os seus bastardinhos, nobilitando-os e doando-lhes vastas propriedades. O já citado D. João I, apesar de casado com a virtuosa e culta D. Filipa de Lencastre, não deixou de ter as suas aventuras extra-conjugais. De uma delas nasceu D. Afonso, que ele faria conde de Barcelos e duque de Bragança. Este D. Afonso, que casou com D. Brites Pereira, filha de D. Nuno Álvares Pereira, encontra-se ainda na raiz de outra das mais antigas famílias aristocráticas portuguesas, a Casa de Cadaval. E, para além disso, está também na origem da dinastia de Bragança. Duas das dinastias portuguesas tiveram, portanto, origem bastarda. E, se virmos bem, até a primeira: D. Afonso Henriques era filho de D. Teresa, ilegítima de Afonso VI de Leão e Castela. E isso que importância tem? Nenhuma.
O segundo rei de Portugal, D. Sancho I, teve 19 filhos, 11 legítimos, da rainha D. Dulce, e 8 bastardos, de várias mulheres. O próprio D. Dinis (casado com uma santa, como acima se diz!), também teve os seus amores mais ou menos clandestinos, dos quais nasceram 6 bastardos. Quanto a D. Pedro I, é bem conhecida a sua paixão extra-conjugal, avassaladora e trágica. Casado com D. Constança, viria a tomar-se de amores por uma das suas damas de companhia, a castelhana Inês de Castro, de quem teve três filhos. Já depois do assassinato de D. Inês (em 1355), D. Pedro teria ainda, de uma dama chamada Teresa Lourenço, mais dois bastardos – o já referido D. João, Mestre de Avis e futuro rei D. João I, e uma menina, D. Brites ou Beatriz. E consta até que este nosso rei D. Pedro, chamado o Cru ou o Cruel, demonstrou igualmente o seu apreço por alguns dos jovens pajens que o rodeavam.
Poderíamos multiplicar os exemplos. Ainda na história de Portugal, demos apenas mais um, o de D. João V. A rainha que lhe destinaram era uma austríaca frígida e friorenta, D. Maria Ana de Áustria, que, segundo conta José Saramago no Memorial do Convento, o fazia suar abundantemente debaixo de edredons de penas, enquanto se esforçava por garantir a sucessão ao trono. Logo que Nosso Senhor lhe deu descendência suficiente (e pela qual construiu, em troca, o próprio Convento), D. João V tratou de procurar amores mais ardentes. (Por alguma razão, no Palácio-Convento de Mafra, o quarto do rei e o quarto da rainha estão separados por um corredor com mais de 200 metros de comprimento!) Esses amores encontrou-os o Rei Magnânimo nos braços de uma freira de Odivelas, a célebre Madre Paula, de quem teve três bastardinhos. Instalou-os, juntamente com a mãe, no Palácio de Palhavã, em Lisboa, onde hoje fica a Embaixada de Espanha. Por isso, os infantes eram chamados os «meninos de Palhavã». Um deles viria a ser arcebispo de Braga e o outro Inquisidor-Mor do Reino. Como vê, leitor, em Portugal a bastardia régia nunca impediu ninguém de voar bem alto.
Na aristocrática e tradicionalista Grã-Bretanha não faltam também exemplos de amores ilícitos ao mais alto nível. Sem ser preciso recuar às tragédias históricas shakespeareanas, basta lembrarmos dois ou três casos relativamente recentes, a começar pela moralista rainha Vitória (1819-1901). Tendo subido ao trono muito jovem, com apenas 18 anos, casou em 1840 com um homem que muito amou, o Príncipe Alberto de Saxe Coburgo-Gotha. Teve um indiscutível e enorme desgosto quando enviuvou precocemente, em 1861. Durante alguns anos encerrou-se num luto puritano e obcecado, quase exigindo que o Reino inteiro partilhasse com ela esse luto. Era tão intransigente e rigorosa com os comportamentos e as aparências que ainda hoje aplicamos o adjectivo «vitoriano» a uma pessoa moralista e recatada. Pois bem: a moderna história da vida privada ainda não esclareceu suficientemente as relações que a rainha Vitória manteve com um inseparável mordomo escocês e, mais tarde, com um criado de origem indiana, com o qual viajava para onde quer que fosse. Mas tudo leva a crer que o comportamento da viúva rainha Vitória não seria lá muito «vitoriano».
Também o seu herdeiro, Eduardo, príncipe de Gales e futuro rei Eduardo VII, teve uma vida recheada de aventuras galantes, que já deram lugar a filmes e séries televisivas. Eduardo VII passou uma eternidade à espera do trono (como está a acontecer, aliás, com o actual príncipe de Gales). A rainha Vitória morreu com 82 anos e Eduardo VII já tinha 60 quando subiu ao trono, em 1901. Entretanto, enquanto esperava, foi aproveitando bem o tempo. Embora casado com a princesa Alexandra da Dinamarca, teve sempre amantes mais ou menos oficiais ou oficiosas, tendo uma especial predilecção por actrizes (o nosso rei D. Luís também tinha um fraquinho por bailarinas e cantoras espanholas). Um dos amigos íntimos de Eduardo VII foi o marquês de Soveral, diplomata português em Londres. Sabe-se que o marquês de Soveral era muito discreto e eficiente na forma diplomática como preparava os encontros amorosos do príncipe de Gales. Era, se quiséssemos usar uma linguagem vicentina, uma espécie de alcoviteiro-mor do herdeiro do trono britânico.
Não falemos, porque seria pouco «caridoso», dos amores e desamores do actual herdeiro do trono de Inglaterra. Lembremos apenas que, bem perto de nós, François Miterrand manteve, em todo o tempo em que foi Presidente da República francesa, duas mulheres e duas casas, uma a oficial e outra a secreta, situação que só assumiu publicamente quando se encontrava próximo da morte.
A vida privada dos políticos, particularmente a sua vida sexual, na Europa, raramente foi motivo para a sua exclusão do poder. E até mesmo o rei Eduardo VIII de Inglaterra, que foi forçado a abdicar do trono em 1936, quando se apaixonou pela americana divorciada Sra. Simpson, sabe-se hoje que foi mais devido às suas simpatias pró-nazis do que ao seu casamento. Ao contrário do que se passa na América, a velha sabedoria dos europeus tem-nos levado a relativizar as fraquezas humanas, sobretudo as fraquezas da carne, e a valorizar as capacidades políticas, intelectuais e humanas dos governantes. Foi talvez por isso que o antigo chanceler conservador alemão Helmut Kohl declarou aos jornalistas que a novela Clinton-Lewinsky apenas lhe «dava vómitos».
Concluamos esta crónica com uma citação de «O Príncipe», de Nicolau Maquiavel: «Não é necessário a um príncipe possuir todas as qualidades, mas sim parecer possuí-las.»
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

Manuel Leal Freire - Capeia Arraiana«Poetando» é a coluna de Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, na qual a cada domingo vai publicando poemas inéditos, cada um dedicado a uma aldeia do concelho do Sabugal. Este Município raiano, um dos maiores do País em termos de extensão territorial, tem 40 freguesias, algumas delas com anexas, sendo no total exactamente 100 (cem) o número das localidades do concelho do Sabugal. Nesta edição o escritor e poeta bismulense dedica um soneto a Aldeia do Bispo, freguesia da orla raiana do concelho. No próximo domingo será editado o poema relativo a outra freguesia: Aldeia Velha.

ALDEIA DO BISPO

O ser reguengo episcopal impunha
Obrigações mas outorgava títulos
A fé o certifica e testemunha
São laudas nobres ditas em capítulos

Pedia a liturgia novos rótulos
O corpo dos deões é que os propunha
Queimasse-se o incenso nos turibulos
A mordomia em ápice os repunha

Vulgar na toponímia lusitana
O nome, mesmo assim, exalta e ufana
E a fé, de fervente ferve em crispo

Porém, o ser do bispo e ser da raia
Conduz a que se extreme e sobressaia
E seja ela a Aldeia do Bispo

«Poetando», Manuel Leal Freire

Damos continuidade à apresentação do léxico com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.

BABADOIRO – babete (Duardo Neves).
BABANCA – palerma; lorpa; ingénuo; simples (Leopoldo Lourenço).
BABEIRO – babete (Aldeia Velha).
BABONA – jogo infantil em que se esconde um anel nas mãos, cabendo aos jogadores adivinhar quem o tem, entoando uma cantilena (Júlio António Borges).
BABOSO – parvo; apaixonado (Júlio António Borges).
BACELO – vara de vide para plantar; videira nova. Segundo Manuel Santos Caria, de Pêga, também se diz bravio e americano.
BACHICAR – borrifar com água; respingar; salpicar. Adérito Tavares, de Aldeia do Bispo, e José Prata, de Aldeia da Ponte, escrevem pachicar.
BACHUCAR – vascolejar; aspergir; respingar (Pinharanda Gomes); o m. q. bachicar.
BAÇÓ – moela de galinha. Também se diz morçó. Em Monsanto dizem meçó e moiçó, segundo Maria Leonor Buescu.
BACÓCO – garoto gordo e baixo (Júlio António Borges).
BACORADA – coisa suja; porcaria; javardice; asneira.
BACORICE – porcaria; javardice; o m. q. bacorada.
BÁCORO – porco pequeno; leitão. Pessoa suja. Também se diz bácro e báquero.
BADABOI – relaxado; mandrião (Joaquim Manuel Correia).
BADAGONEIRO – maltrapilho; sem gosto no vestir; vadio (Joaquim Manuel Correia). Desmazelado (Francisco Vaz). Fem.: esbodegada, trapalhona (José Pinto Peixoto).
BADALÃO – pessoa que fala demais (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa da Raia).
BADALAR – falar de mais e sem razão; tagarelar.
BADALHOCO – porcalhão; sujo.
BADALO – pessoa que fala demais; tagarela. Dar ao badalo: tagarelar.
BADAMERDAS – pessoa reles, sem préstimo. Não passas de um badamerdas.
BADANA – ovelha velha ou carne da mesma. Duardo Neves, de Alfaiates, traduz por: velha, sem valor. Por sua vez Francisco Vaz, também de Alfaiates, e José Pinto Peixoto, da Miuzela, traduzem por: pessoa sem carácter. Também se usa o masculino com significado de ovelha: «Os pastores levavam os badanos para as arribas do Águeda» (Carlos Guerra Vicente).
BADANAL – desordem, confusão (José Pinto Peixoto).
BADANECO – indivíduo reles; fraco; sem préstimo. Também se diz badameco. Nas Terras do Campo (Monsanto) chamam feijão-badaneco ao feijão frade (Maria Leonor Buescu).
BADIL – pá de tirar a cinza ou de mexer o lume (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
BADORRO – carneiro ou ovelha fica para trás do rebanho (Clarinda Azevedo Maia – Batocas). O m. q. madorro ou chalano.
BAETA – pano de lã grosseira (Júlio António Borges).
BAGAÇO – restos das uvas que ficam no lagar após ser escoado o vinho; o m. q. engaço, bagulho ou balsa. Aguardente destilada a partir dos restos das uvas.
BAGALHOÇA – dinheiro (Júlio António Borges).
BAGANHA – cápsula que contém a linhaça (semente do linho). Júlio António Borges acrescenta: «carne sem sabor, por ser nova».
BAGAROSA – cadeia – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
BAGÉ – diminutivo de Maria José (Quadrazais).
BAGEM – vagem do feijão.
BAGIJA – diminutivo de Maria Luísa (Quadrazais).
BAGINA – vagem do feijoeiro. Também se diz: baige, vaige, beigina, veigina. Com as vagens do feijão faz-se o saboroso caldo de baginas.
BAGULHO – o que resta dos cachos pisados e espremidos no lagar (Júlio António Borges e Clarinda Azevedo Maia); o m. q. balsa, bagaço ou engaço.
BAIA – interjeição, muito usada na raia, que exprime afirmação, concordância (do Castelhano). Baia! Baia!: exclamação de despedida que pode ter conteúdo irónico, idêntico ao ora, ora (Clarinda Azevedo Maia).
BAIANO – casaco mal feito (Júlio António Borges).
BAILE D’AGARRADO – dança em que o par baila agarrado (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
BAILO – baile (Nave de Haver);
BAIXAR AS CALÇAS – fazer as necessidades fisiológicas no campo.
(Continua…)
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

Na Europa, o signo imperial nasceu sob a égide dos filhos da Loba. Recordemos a origem, mantendo a narração latina.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaProca, rex albanorum duos filios, Numitorem et Amulium, habuit. Numitori regnum legavit, sede Amulius pulso fratre, regnivit. Deinde, cum eumsobole privare cuperet. Rheam Silviam, eius filium, Vestae sacerdotem fecit Haec tamen Romulum er Remum uno partu edidit. Tune Amulius ipsa in vinculo, conjecit, parvulos alveo imposuit et abjecit in Tiberim que forte tunc exundaverat. Sed, relabente flumine, eos aqua in sicco reliquit. Vastae tunc in iis locis solitudines erant. Tradunt lupam ad vagitum infantiam acurrisset: EOS LINGUA LAMBISSE, MATRISQUE MINISTERIUM SUSCEPISSE.
É afinal, a velha história.
Amulei destronou o irmão e cativou-lhe a filha. Todavia, esta, mesmo virgem de Vesta, concebeu de Marte e assim nasceram Rómulo e Remo.
Deitados à àgua do Tibre, sobreviveram; e uma loba, atraída pelos vagidos, perfilhou-os, tomou o mester de mãe…
Crescidos, fundaram a cidade. Rómulo traçou-lhe os limites. Remo saltou-os, dizendo: assim entrarão os inimigos em Roma.
Rómulo, lembrado possivelmcnte do exemplo do tio-avô, já que não deveria conhecer a história de Caim e Abel, liquidou-o, dizendo: assim morrerão os inimigos da cidade.
Não há mulheres, mas o rapto das sabinas findará a quarentena.
Houve necessariamente luta e os sabinos estão quase a veneer. Rómulo eleva a sua arma aos céus e promete um templo a Jupiter, que permanece impassível.
Mas as sabinas lançam-se entre os combatentes e fazem as pazes.
Raptae mulieres, crinibus passis, ausae sunt se inter tela volantia inferre: et, hinc fratres, inde viros deprecate, pacem conciliarunt…
A população crescia, o território tornava-se exíguo.
A pequena cidade tinha de lutar pela sobrevivência, começando obviamente pelos vizinhos.
Nebulosamente, passam os reis lendários: além de Rómulo, Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Sérvio Túlio: os dois Tarquínios, já históricos. Anno trecentesimo trigesimo quinto ab urbe condita, Veientes contra romanos rebellaverunt. Dictator contra ipsos missus est Furius Camilus…
Como este, muitos outros heróis celebra a história, ainda nimbada de lenda: Coriolano, Cincinato, os trigemini Horácios, Cevola, Menénio Agripa, o diplomata, inventor e narrador da fábula dos membros revolados contra o estômago:
Olim, humana membra, cum ventrem otiosim viderent, ab eo discordarunt et conjuratio-nem adversus eum fecerant…
Os séculos rodam e uma potência concorrente emerge do outro lado do Mediterraâneo. Seguem-se as guerras púnicas. Caio Duilio obtém a primeira vitória naval; mas Aníbal estava já para surgir com o seu eterno ódio aos romanos, jurado na infância com as mãos em cadáver esventrado. Conquistador de Sagunto, vencedor em Canas e no Transimeno, acabaria vencido em Zama pela pertinácia de Cipião Emiliano e do delenda est Cartago.
As Espanhas e o Norte de África caíam assim sob o jugo romano que a terceira guerra púnica estenderia para Oriente.
Mais tarde vêm César e Augusto e com eles o Império continua a crescer.
Anno Urbis conditae sescentesimo nonagesimo tertio, o primeiro que mais tarde será imperador, é eleito cônsul com Lúcio Bibulo. Destacado para a Gália e a Ilíria com dez legiões, vence os helvécios que ao tempo se chamavam sequanos, conquista as três Gálias, avança para além do canal… Domuit omenm Galliam, que inter Alpes, flumen Rhodanum. Rhenum et OceanDum est et circuit, patet ab his et tricies centena milia passuum. Britannis mox bellum intuit…
Com o seu sucessor Augusto, as conquistas continuam, anexando-se o Egipto, a Can-tábria, a Dalmácia, a que outros juntarão a Judeia, a Arménia e os planaltos do Irão.
A excessiva grandeza do império e sobretudo a helenização de Roma no pior sentido do termo, cultivavam já o gérmen da decadência. Gracia victa ferum victorem coepit…
A cultura grega, que se impôs em Roma pela sua superioridade, trouxe também a degradação moral.
Juvenal, nas suas sátiras, atribui a esta grecização da cidade e do Império a raiz de todos os males.
Antes do furacão dos bárbaros são estes ventos, ou antes estas brisas de supercivi-1ização, de aspecto negativo que prepararão o aviltamento.
Eram os erotomanos que impunham à sociedade romana a sua decadência. Daí a interrogação de Umbritius:
Que faz em Roma quem como eu não sabe mentir nem efeminar-se? Eu que não posso suportar uma Roma grecizada?
Não há nada, para eles, estes celerados gregos, que esteja ao abrigo da sua lubricidade, nem mães de família, nem filhas virgens, nem o filho imberbe, à falta de melhor, a sua lubricidade satisfazer-se-ia com a avó do seu melhar amigo, ou com o avô…
Após sucessivas arremetidas, os bárbaros que começaram como servidores, passaram a aliados, depois até a condutores, acabaram por submergir todo o Ocidente do Império.
Foi quando Odoacro, chefe dos hérulos, depôs Augustulo, até no diminutivo do nome apenas arremedo da imperial autoridade.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A Câmara Municipal prepara mais um regulamento, desta feita o da Ocupação do Espaço Público e Publicidade no Concelho do Sabugal, definindo a forma como se poderão afixar mensagens publicitárias de natureza comercial, bem como a instalação de equipamentos no espaço público.

A «febre» dos regulamentos já aprovados e em fase de projecto e de discussão, ocorre em parte no quadro do programa «Licenciamento Zero», que pretende desburocratizar as práticas administrativas nos municípios portugueses. Porém a produção de regulamentos é neste ano de 2012 o grande desígnio do concelho do Sabugal, na medida em que o Município colocou a sua elaboração como objectivo institucional, inserido no Sistema de Avaliação e Desempenho da Administração Pública (SIADAP).
O projecto de regulamento em apreço, que pode ser consultado na página digital da autarquia, define os critérios a respeitar na ocupação e utilização do espaço público afecto à afixação, inscrição ou difusão de mensagens publicitárias.
A publicidade feita no espaço púbico fica sujeita a licenciamento ou a comunicação prévia à Câmara Municipal do Sabugal.
O licenciamento terá uma durabilidade temporal, que pode ir de um só dia até aos 365 dias correspondentes ao período de um ano, com possibilidade de renovação, o que será efectuado automaticamente, bastando que o interessado liquide a respectiva taxa.
O regulamento estabelece que o interessado deverá usar o Balcão do Empreendedor para requerer autorização para o uso do espaço público e, bem assim, para comunicar a sessação da sua utilização.
É da responsabilidade do interessado a remoção da publicidade no fim do período que lhe foi concedido. Porém, se houver recusa ou inércia nessa remoção, caberá ao Município fazê-lo.
A simples ocupação do espaço púbico para fins de exploração de um estabelecimento deve ser comunicado ao Município. Inscrevem-se aqui os casos da instalação de toldos, esplanadas, estrados, guarda-ventos e guarda-sóis, assim como vitrinas e expositores, entre outros.
O regulamento define os documentos que é necessário reunir para a instrução do processo de licenciamento e obtenção da licença, bem como os montantes que em certos casos é necessário dar como garantia.
plb

Desde a Constituição de 1976, que institui as regiões autónomas da Madeira e dos Açores, que o sr. Jardim ameaça coma independência da Madeira. Regra geral, a ameaça, vem quando precisa ou quer alguma coisa do governo central ou, como ele gosta de dizer, dos cubanos do continente.

As regiões autónomas foram instituídas como um processo de autorregulação em algumas matérias, tendo em conta que são arquipélagos e, portanto, longe das decisões centralizadas. A verdade que o sr. Jardim tem-se limitado a governar a seu belo prazer como se a Madeira fosse independente. Não haveria mal nenhum se tal governação fosse feita com os dinheiros que a própria Madeira gerasse. Mas não. O sr. Jardim governa com o dinheiro dos outros. Precisamente com o dinheiro dos “cubanos” do continente. A Madeira já possui imensas regras exclusivas, beneficia de excepções numa série de matérias e, no entanto, o sr. Jardim acha que não é suficiente, vindo agora, com mais uma ameaça. Agora de referendo sobre não se sabe bem ao certo e mandando os “seus” deputados prepararem uma projecto lei de revisão constitucional! O que me surpreende é o facto de, depois destes anos todos de autonomia ter enterrado a Madeira, ache este senhor que os outros lhe devem pagar as megalomanias de um homemzinho que se comporta como um cacique. A falência da Madeira é um facto. O buraco financeiro é colossal. A culpa é do sr. Jardim? Sim. Mas não só. A culpa é de todos os governos – PSD, PS, CDS – que fecharam os olhos às arrogâncias, insultos e mentiras deste senhor, permitindo que a torneira nunca se fechasse. Pagando festas e festarolas, inaugurações a la carte de obras também elas a pedido dos amigos e dos afilhados. O governo regional é composto por uma tribo. Secretários, assessores, chefes de gabinete… até ao estafeta, todos pertencem á mesma família (e não me refiro à família política). A sociedade madeirense está, praticamente, dependente do favor da família jardim. São os empregos, os jornais, os clubes, as empresas, etc, etc. a Madeira é do sr. Jardim. Por isso o referendo que propõe não passa de mais uma manobra de diversão na já longa comédia deste senhor. Deveria era ter vergonha na cara e explicar o descalabro da sua governação aos madeirenses e aos portugueses em geral. Ser responsabilizado pelo estoirar de milhões sem ter melhorado a vida dos seus concidadãos. Já imaginaram se as câmaras municipais tivessem tido acesso aos milhões como teve o sr. Jardim? E quantos jardins teríamos por aí? A Madeira é uma zona desfavorecida? E a zona do interior do país não o é? Porque não beneficiamos nós também dessa autonomia? Talvez, até, com mais argumentos do que a Madeira. Só porque esse senhor ameaça com a independência? Pois bem, proponha-se um referendo em relação à independência da Madeira… e vejamos o resultado! Se o senhor não consegue governar nem com o dinheiro dos outros, como vai governar de forma independente? Se não fosse um assunto sério, isto daria para rir como mais uma anedota do sr. Jardim. Por mim, até pagava para que a levassem.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

No verão de 2009, já lá vão três anos, os turistas que visitaram o Castelo do Sabugal tiveram ao seu dispor bicicletas para percorrem a cidade. O projecto «Bicôas – Passeios a Rodar», da iniciativa da empresa municipal Sabugal+ depressa definhou e com ele as bicicletas, que nunca mais foram vistas.

O projecto BICÔAS (bicicletas do côa) afigurou-se como uma iniciativa inovadora e pensada para dinamizar a cidade. Os visitantes poderiam alugar as bicicletas e assim rodarem em busca de um Sabugal diferente, visto a partir de um transporte ecológico, que ao mesmo tempo lhes proporcionava a melhoria da condição física.
Foram até definidos percursos, passando pelos pontos históricos de maior interesse da cidade, sendo um deles a barragem do Sabugal, no sentido de aproveitarem o nosso ar puro à beira-rio e contemplarem as nossas paisagens.
Bicôas Castelo SabugalAs bicicletas estavam no Castelo do Sabugal, onde se disponibilizavam para aluguer, acompanhadas por um regulamento de utilização (a febre camarária da produção de regulamentos já se fazia sentir), que obrigava ao preenchimento de uma ficha de inscrição e de um termo de responsabilidade.
Os preços eram convidativos: 2 euros à hora, 3,50 euros por manhã ou tarde, e 5 euros ao dia. Estiveram disponíveis durante uns meses, sem grande sucesso em termos de utilização, mas depois desapareceram para local incerto e das Bicôas não mais se ouviu falar.
Onde andam as Bicôas (que eram bicicletas de qualidade), é a questão que importa levantar.
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

Continuo hoje em volta desta Empresa Municipal, tentando colocar algum bom senso no que vem sendo dito.

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»1. As atividades da SABUGAL+
Esta é uma questão central, pois tem vindo a justificar a argumentação dos que defendem a necessidade da sua existência.
Em primeiro lugar, está, sem dúvida, a gestão e o funcionamento dos seguintes equipamentos: Museu/Auditório Municipal, Piscinas e Gimnodesportivo Municipais, Centro de Juventude, Cultura e Lazer do Soito, Posto de Turismo do Sabugal e de Sortelha, Colónia Agrícola de Martim Rei, Estádio Municipal, Praia Fluvial do Sabugal e Centro de Negócios Transfronteiriço.
Por outro lado, a SABUGAL * estava envolvida na questão do Parque de Campismo (hoje um projeto à espera de melhores dias), na gestão das Termas do Cró, gestão que já passou para uma empresa privada e, ainda, na organização de um conjunto de eventos, questão também ultrapassada, pois o Sr. Presidente atribuiu em 2012 essa responsabilidade aos serviços municipais.
Isto é, em 2012 a única coisa que ainda está a cargo da Empresa é a gestão dos equipamentos.
Face à tipologia e ao número de equipamentos sob a gestão da empresa, não encontro qualquer justificação para que a mesma não pudesse ser efetuada pelos serviços municipais.
Assim: a gestão do Museu/Auditório Municipal, Piscinas e Gimnodesportivo Municipais, Centro de Juventude, Cultura e Lazer do Soito e Estádio Municipal seria atribuída à Divisão Sócio-Cultural e Qualidade de Vida – Serviço de Cultura, Juventude, Desporto e Associativismo; a praia Fluvial do Sabugal ou passaria para a responsabilidade da Junta de Freguesia do Sabugal (como acontece com as restantes praias fluviais do Concelho), ou ficaria na Divisão indicada; ainda na mesma Divisão ficariam os Postos de Turismo, pois esta Divisão possui já um conjunto de competências no âmbito do Turismo; no que diz respeito à Colónia Agrícola de Martim Rei e ao Centro de Negócios Transfronteiriço, os mesmos poderiam ser integrados no Serviço de Desenvolvimento Rural e no Serviço de Estratégia e Desenvolvimento, respetivamente.
2. O pessoal ao serviço da SABUGAL +
Eis um outro argumento, o do pessoal, que se prende com o que iria acontecer aos trabalhadores se se extinguisse a empresa.
Estamos a falar (e continuo a socorrer-me do Relatório de Gestão de 2011, disponível na INTERNET), de um universo de 39 pessoas, com o seguinte estatuto: 22 efetivos, 14 com contrato a termo certo, 1 em regime de mobilidade e 2 em regime de prestação a tempo parcial.
A afetação dos trabalhadores a 31 de dezembro de 2011 era a seguinte: Museu e Auditório Municipal – 9; Pavilhão e Piscinas Municipais – 19; Estádio Municipal – 1;Postos de turismo – 4; Centro de Juventude, Cultura e Lazer – 1; Colónia Agrícola de Martim Rei – 2; Centro de Negócios Transfronteiriço – 3; Complexo Termal do Cró – 2. (havia trabalhadores que estavam afetos a mais de um serviço)
Uma leitura rápida destes números, mostram que quase 70% do pessoal se encontrava afeto à gestão do Museu/Auditório e do Pavilhão/Piscinas.
O futuro destes trabalhadores, em caso de extinção, está claramente salvaguardado na Lei que aprova o regime jurídico da atividade empresarial local e das participações locais (decreto 77/XII, aprovado na Assembleia da República e a aguardar promulgação pelo Presidente da República, como mostrarei na próxima semana.
«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

rmlmatos@gmail.com

O tempo passa depressa. Já lá vão três anos, que o Padre Francisco dos Santos Vaz deixou o mundo dos vivos. Neste terceiro aniversário o meu objetivo é relembrar, avivar a sua memória. Sabemos que há tendências para esquecer aqueles que nos são próximos, os nossos familiares, os nossos amigos, muitas vezes aqueles que nos ajudaram a crescer em todas as amplitudes humanas e sociais. Para combater essa vertente aqui estou novamente a escrever, porque há pessoas que pelo seu caminhar ao lado de comunidades, de sentirem e apontarem injustiças, não devem ficar nos baús do esquecimento. O Padre Francisco dos Santos Vaz não pode, não deve ser ignorado.

Com ele, partilhámos diversas atividades lúdicas na terra que nos viu nascer – A Bismula – Sabugal.
Com ele, partilhámos idas a Almedilha, terra fronteiriça de Castela, onde na casa «d´el Cura» tomávamos o pequeno-almoço. Ofertava-nos lindos selos que coleccionávamos em uso naquele país. Ainda nos ajudava para que as autoridades (os terríveis carabineiros franquistas), não nos «roubassem» uns pães, uns doces – as galhetas –, uma bola de borracha de futebol, umas sapatilhas e um ou outro livro religioso.
Com ele, partilhámos as idas e estadias no Rio Coa, nas margens de Badamalos, na propriedade de António Joaquim Morgado Leal. Com outros companheiros, pescávamos peixes, refrescávamo-nos, cozinhávamos, enfim, passávamos momentos maravilhosos de entretimento, fazendo parte deste grupo o actual Pároco do Sabugal – Padre Manuel Igrejas. Ainda no passado dia oito de Agosto, na renovada Igreja de Badamalos, na Celebração das Bodas de Oiro do Padre Agostinho Crespo Leal, e no Encontro Anual dos Sacerdotes da Diocese de Évora da Zona Raiana, te recordámos com saudade e rezámos.
Padre Francisco Santos VazCom ele, partilhámos na casa de seus pais, Albertino Vaz e Maria d’Ascensão Leal, o pão repartido, as refeições que fumegavam nas panelas de ferro, aquecidas à lareira, e alojamento à luz da candeia porque a luz elétrica ainda era uma miragem.
Com ele, partilhámos milhares de quilómetros à boleia quando éramos jovens estudantes, ficando mais conhecedores do património nacional.
Com ele, partilhámos cultura quando nos deslocávamos às ruinas romanas de Tróia, aproveitando para umas idas à praia com o mesmo nome, quando esses locais eram do Povo, as salgadeiras, onde os romanos guardavam o melhor peixe de Setúbal.
Com ele, partilhámos conhecimentos de línguas clássicas, grego e latim, onde era mestre, além de dominar o francês, o inglês e o alemão, sem esquecer a língua portuguesa com provas dadas no Ensino Secundário, no Jornal «O Nordeste» e nos livros de sua autoria.
Com ele, partilhámos a amizade dos meus pais e meus irmãos, que viam, no Francisco dos Santos Vaz um filho e irmão mais velho, culto e sabedor.
Francisco dos Santos Vaz, escrevi-te este pobre e simples texto, para que sejas recordado, para que ninguém afirme que já te não conhece na Bismula. Sabes que há muita gente que tem a memória muito curta. Esquecem-se facilmente aqueles que fizeram história, semearam e ensinaram cultura, apregoaram valores e foram sacerdotes ao serviço do amor e da proximidade, nas aldeias dos outros e na sua terra natal.
Francisco dos Santos Vaz, em tua homenagem e para que nunca sejas esquecido «cantarei sempre até que a voz me doa».
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

A notícia caiu como uma bomba e foi esta quarta-feira, 22 de Agosto, dada pela RTP e pela SIC. A Fundação AGAPE afinal não foi fundada pelo ex-futebolista e emigrante português na Suécia, Carlos Quaresma. A troco de 13 mil euros foram muitas as autarquias, incluindo o Sabugal, que receberam um camião carregado de material hospitalar usado proveniente da Suécia. Mas afinal nem tudo é como parecia…

Carlos Quaresma - AGAPE - Arquivo SIC

O português Carlos Quaresma não é fundador da Fundação AGAPE, uma ONG com sede na Suécia e os principais responsáveis pela organização afirmam desconhecer os«negócios» do emigrante luso. Quem o diz é a RTP e a SIC nos noticiários da hora do almoço desta quarta-feira, 22 de Agosto, onde ficaram prometidos desenvolvimentos para os jornais da noite.
Foram muitas as autarquias portuguesas, incluindo o Sabugal, que aceitaram o tal camião com material hospitalar «oferecido» pela AGAPE a troco de 13 mil euros para pagamento do transporte desde a Suécia. A face visível em Portugal destes actos de solidariedade foram os ex-futebolistas e velhas glórias do Benfica, José Augusto e Veloso, que se deslocavam aos concelhos para fechar o «negócio» e a cantora Micaela que realizou alguns concertos de solidariedade em apoio à causa.
Para o Sabugal ficou acordada (de acordo com informações tornadas públicas) a entrega de diverso material ortopédico – cadeiras de rodas, camas eléctricas, andarilhos eléctricos, canadianas, material de fisioterapia, um equipamento hospitalar bastante caro para tratamento de derrames cerebrais e… um piano.
A acta da reunião ordinária de 22 de Junho de 2011 do executivo da Câmara Municipal do Sabugal esclarece, pelo voz do presidente da Câmara Municipal do Sabugal, como decorreu o processo de aquisição de material hospitalar «oferecido» pela AGAPE, uma ONG com sede na Suécia. As questão são da vereadora Sandra Fortuna e as respostas do presidente Robalo:
Sandra Fortuna declarou que «(…) tinham sido informados de que a Câmara já tinha recebido o material ortopédico, vindo da Suécia, pretendendo saber qual o valor final do seu transporte. Disse ainda que estava disponívelo na LocalVisão, um vídeo onde se podia verificar que este material tinha sido colocado num armazém, no Alto do Espinhal, pertencente a um privado, pelo que pretendiam saber qual o motivo, considerando que a Câmara dispunha de locais para colocação deste material.» Em resposta «o Presidente da Câmara disse que o custo do transporte tinha sido de 13.000,00 euros, tendo o equipamento sido avaliado no montante de 500.000,00 euros. Que o material tinha sido colocado nesse armazém em virtude da Câmara não dispor de um espaço com agilidade de carga e descarga. Por isso agradecia ao privado a sua disponibilidade para ceder gratuitamente as suas instalações. Disse ainda que tinha enviado à AGAPE uma listagem das necessidades, baseada no inquérito efectuado aos Lares e Associações do Concelho, contudo não tinha vindo o material referenciado mas o material que, no momento, estava disponível, nomeadamente cadeiras de rodas e andarilhos.(…)»

Imposto de Selo de oito mil euros é ilegal
De acordo com a reportagem da SIC «o homem que ficou conhecido por trazer material hospitalar e ortopédico da Suécia para distribuir em Portugal pode afinal ter burlado autarquias e instituições. Carlos Quaresma dizia-se fundador de uma associação de beneficência e oferecia camas articuladas, cadeiras de rodas e outro equipamento, dispensado pelos hospitais suecos. Em troca, pedia o pagamento do transporte, feito em camiões, por cerca de cinco mil euros, e de um imposto de selo, no valor de oito mil euros. Uma investigação SIC apurou que esse imposto, afinal, não existe. Por outro lado, o preço do transporte também era muito superior ao real.» A SIC adiante ainda que «a burla pode ultrapassar um milhão de euros e está a ser denunciada pela fundação sueca AGAPE que já apresentou queixa à polícia. Algumas autarquias ponderam fazer o mesmo em Portugal».

Reportagens na RTP (Aqui) e na SIC (Aqui).

Agora, após a investigação da RTP e da SIC, parece que o benemérito Carlos Quaresma vai ter de clarificar algumas coisinhas…
jcl

Passei a primeira quinzena de junho a pensar na viagem de fim de ano. A véspera já foi, para mim, um dia eufórico. Mal dormi a última noite. Acordei, no dia da saída, muito mais cedo do que era preciso. Viajar da serra ao mar era um acontecimento demasiado importante para poder ser calmo.

Praia Figueira da Foz

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Ainda hoje consigo descrever o meu vestuário daquele longínquo dia. Vestia uns calções verdes. A camisa era de manga curta e muito mais verde que os calções. As sandálias eram castanhas assim como eram acastanhadas as meias que me afagavam os joelhos. O boné que encimava a minha frágil silhueta infantil era também, em tom castanho e, sobre a pala, na parte frontal, mostrava bordada, uma estrela cor de ouro.
No dia da excursão não iria vestir a bata branca que levava diariamente para a escola. Aliás, nunca gostei de usar tal bata. Ela impedia-me não sei bem de quê. Inibia-me os movimentos. Via-me preso e estranho dentro dela. Adorava os domingos por diversos motivos mas, principalmente, por não ser obrigado a usar bata. No dia da visita de fim de ano não vestiria bata apesar de não ser domingo.
Em casa ficaria a pasta castanha, afivelada de amarelo dourado. Essa sim, adorava levá-la para a escola. Ninguém tinha uma pasta igual à minha. Meu pai tinha-ma oferecido após uma das suas viagens ao Porto. Meu pai negociava em madeiras e deslocava-se mensalmente ao Porto transportando, em camionetas pesadas e lentas, enormes troncos de carvalho. Dizia-me que dos troncos se faziam pipas para o Vinho do Porto e eu achava que devia ser fácil fazê-las porque os troncos já quase pareciam pipas. Mas, naquele dia, em vez da pasta das fivelas douradas levei uma sacola de alça cuja origem se perdeu na minha memória. Deitei-a ao ombro. Dentro ia o lanche. Levei pão com queijo, uma garrafa de refrigerante que sabia a laranja e várias bolachas embrulhadas num guardanapo de pano azul. Levei também uma daquelas bananas tão amarelas que pareciam torradas. Minha mãe comprava-as ao merceeiro ambulante. Numa minúscula carteira, feita de um cartão que imitava muito mal o cabedal, guardei algumas moedas que meu pai me deu. Somadas, perfariam a quantia de vinte e cinco tostões.
Quando cheguei à escola, de manhã, pela mão da minha mãe, já o motor do autocarro rufava em frente à porta expelindo fumo negro. Muitos dos meus colegas já observavam e rodeavam a camioneta. A senhora professora já tinha chegado e quando deu ordem de entrada empurrámo-nos uns aos outros. Depois corremos por dentro do autocarro em busca de um lugar à frente ou, pelo menos, junto à janela como se essa procura fosse a coisa mais importante daquele dia.
Era quase Verão e, fora da camioneta, cheirava a fumo e a gasóleo queimado. Por dentro havia um cheiro quente e enjoativo. Julgo que cheirava a bancos de napa.
Durante o caminho a senhora professora fez muitas explicações, contou-nos muitas histórias e nós também cantámos muitas canções até chegar à Figueira da Foz, frente ao mar.
À chegada saímos atabalhoadamente do autocarro e corremos todos para a praia. A extensão ondulante e o azul marinho inebriavam-me. Depois, segundo as orientações da senhora professora, que a custo se conseguia impor, caminhámos na areia fininha juntinho à água. O mar tinha um odor novo, fresco, húmido e agradável. De mãos dadas, seguimos, na longa praia, mais de quinhentos metros junto à espuma das ondas. A água e a cor azul, o som, o movimento, a brisa e a humidade transcendiam-me.
Ouvi tudo quanto a senhora professora nos explicou. Ela falava-nos, na entoação que muito bem lhe conhecíamos, do mar, de sal, de lágrimas salgadas, de descobertas e também de peixes e pescadores. Acreditei, piamente, em tudo o que ela disse.
Eram precisas mais de mil palavras para descrever o que significou, para mim, estar ali, naquele lugar, solenemente, perante o mar.
O meio dia apanhou-me de surpresa mas, logo junto à água, sacámos das merendas e almoçámos. A seguir, despedi-me do mar, emocionado e tive, talvez pela primeira vez na vida, saudades do presente.
Iniciámos o regresso. Recordo o caminho do retorno. Com espanto e com emoção passei por Coimbra. A professora disse-nos, enigmaticamente, que era a cidade dos doutores. Admirei o movimento de peões e automóveis, estranhei os elétricos a rolar nas calhas, observei estudantes de capa e batina e vi, apenas por fora, a universidade.
Regressei a casa transportando comigo um mar que guardei até hoje na memória e… também na alma.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

Voltamos a Frederico Garcia Lorca para de novo dissertarmos sobre a magia do toureio e suas cores. Agora,fazemos apelo a uma charla sobre SOL Y SOMBRA.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaTranscrevamos, traduzindo:
Basta escrever aquelas duas palavras, assim, sol com letra amarela e sombra com letra escura para caracterizar a estética do toureio.
E assim teria que ser quando se jogasse com o sol e a sombra, quando daquelas palavras se queira fazer metáfora e conceito.
E isto não depende de nuvem, espelho ou muro, mas apenas do toureiro, pois é dele que brotam na arena o sol e a sombra.
Lagartijo, por exemplo, conseguiu corridas, em que não houve senão sol – gloriosa experiência de uma estética de estátuas, como a do touro, antes das banderilhas.
A sombra, em Lagartijo, era pura especulação, ou mera simulação.
Ele amava a nudez e a linha concreta, amava a roda do sol e suprimia o ângulo infinito da sombra.
Mas para muitos outros toureiros continuou a haver sol e sombra.
Bombito, esse aprendeu a lidar, sem riscos, com o sol e a sombra.
El Gallo levou a um alto expoente esse jogo de luzes.
Mas só a capeia raiana tem o condão de fazer apelo a um terceiro elemento – o arbóreo, personificado no forcão.
É a imagem protectora do carvalho-roble, é a floresta intrometendo-se neste duelo homem-touro.
Todos os contendores se sentem atraídos e protegidos por aquele nume.
O touro avança buscando na sombra projectada pelos troncos e ramos da floresta perdida.
Os bravos e possantes moços que guarnecem as alas, sentem o alívio de asas e o próprio rabejador na sua essência de timoneiro, não deixa de pressentir o hálito benfazejo da árvore mesmo desnudada.
As divindades que se acoitam no bosque transferem-se meteoricamente para a arena.
A dança do forcão é um baile mandado em que, fantagórica, mas harmoniosamente se agitam todas as divas da pradaria…
Até os freixos para que os vaqueiros sobem quando o espírito do mal açula os toiros.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Na passada semana, o Comando Territorial da GNR da Guarda desenvolveu uma operação de fiscalização geral de trânsito, incidindo na entrada ilegal em território nacional de cidadãos suspeitos da prática de crimes.

Operação STOP da GNRAs acções de fiscalização inseridas na operação, com o nome de código «Vagão 09.3» foram orientadas para as principais vias fronteiriças do distrito.
Durante a operação foram fiscalizados 45 veículos, elaborados sete autos por contraordenação e foi detida uma pessoa por posse ilegal de arma.
Durante toda a semana foram ainda detidos mais 2i indivíduos, em flagrante delito, pelos seguintes motivos: 12 por crime de condução sob o efeito do álcool, dois por condução sem habilitação legal, quatro por resistência e coacção sobre autoridade, dois por desobediência e um por detenção e posse ilegal de arma.
Segundo o comunicado da GNR da Guarda na semana anterior registaram-se 28 acidentes de viação, tendo 18 deles resultado de colisão, oito de despiste e dois de atropelamento. Desses acidentes resultaram um ferido grave e 16 feridos leves.
Na semana em apreço, as Secções de Programas Especiais dos Destacamentos Territoriais da Guarda, Gouveia e Vilar Formoso, realizaram cinco ações de sensibilização inseridas nos programas «Residência Segura» e «Apoio 65 – Idosos em Segurança», em freguesias dos concelhos de Guarda e Pinhel. No decurso das ações foram contactados 81 idosos.
plb

Segundo um artigo de Manuel António Pina, publicado no Jornal de Notícias em 23 de Julho passado, parece que um dos «homens de negro» que nos visita de tantos em tantos meses «sugerindo» ao governo o caminho que a economia e a política portuguesas devem seguir, para «bem» dos portugueses, disse que em Portugal «as pessoas são boas». Também Sua Excelência o Senhor Presidente da República afirmou que a «imprensa é muito suave». Estas as razões pelas quais os portugueses não se revoltam devido á actual situação económica.

António EmidioUma coisa é certa, devíamos protestar mais porque nos tiraram a soberania e estão a empobrecer-nos. Os protestos são débeis, tudo não passa de uma manifestação da CGTP de tantos em tantos meses, e de uma greve geral, que de geral tem pouco. Porquê só isto?
Em primeiro lugar tudo se deve a uma «sonolência» da sociedade portuguesa, causada por uma manipulação mental e psicológica, a televisão lixo, o futebol, as novelas e o consumismo desenfreado que a leva a comprar e a acumular mercadorias. Essa manipulação mental vê-se nisto, tenho visto quase todos os dias (propositadamente) quais são as notícias mais lidas num jornal nacional de grande tiragem, aí estão: «Filha de Alexandra Lencastre já namora» – «Mourinho ameaçou e insultou casal espanhol» – «Ronaldo quer Paris Hilton na inauguração da sua discoteca» – «A saia transparente da princesa Letizia». Mais palavras para quê?
Em segundo lugar vem o maniqueísmo político, resultante um pouco da ignorância e muito de uma «orientação» da comunicação social, leva isto a ver as anomalias do partido que está a governar, mas não as causas dessas anomalias, sendo assim, o partido que está na oposição faz o mesmo quando chegar ao poder, sendo depois criticado pelo que de lá saíu por fazer as mesmas coisas que este. Estabelece-se um ciclo infernal que leva as pessoas a afastarem-se da política e até das urnas. Este alheamento afasta da revolta, deixando o caminho livre aos governantes para entregarem a soberania económica e política de Portugal às potências estrangeiras. Leva este maniqueísmo também ao clientelismo político, este clientelismo arruinou Portugal, e continua a arruiná-lo.
Em terceiro lugar vem o medo, medo íntimo deixado por quarenta anos de ditadura. Este medo íntimo está a tomar grandes proporções na medida em que o Estado Neoliberal que presentemente temos, mas que já vem de alguns anos, possui cada vez mais dados sobre a nossa vida, as nossas conversas telefónicas, as nossas amizades, e as nossas ideias políticas e religiosas, já tudo sabe da nossa privacidade. Isto causa medo porque faz lembrar o Estado Policial. A Razão Democrática está anulada pela Razão de Estado! E a Razão de Estado é uma coisa muito elástica, chega a maior parte das vezes onde não deve…Chega ao emprego, e isso causa medo. As leis laborais também servem para afastar as pessoas das revoltas, mas pode ser que tenham um efeito contrário ao que eles pensam…
Estas as razões que eu vejo para a nossa «bondade». A Espanha, a Grécia e a Itália passam pelo mesmo, mas são realidades sociais, culturais e políticas diferentes de nós.
Como dizia Sua Excelência, «A imprensa é muito suave», pudera! Está do lado dos que têm depositado em Paraísos fiscais 21 biliões de dolares!!! (este dinheiro todo, como é natural não corresponde só aos exilados fiscais portugueses, era dinheiro a mais…).

Termino com o que li num cartaz durante uma manifestação em Espanha: «Um cidadão f… a quem não podem f… mais, é um cidadão muito f.. de controlar».
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

A «abalada» persegue os jovens que restam no concelho do Sabugal tal qual afrontou as gerações anteriores, com a diferença de que afecta cada vez menos pessoas, em razão da população não parar de diminuir.

A infância é feliz no concelho do Sabugal. Não abundam crianças (há aldeias em que não há uma única), mas as que aqui nascem e crescem, sabem o que é viver em espaço aberto, em contacto com a Natureza, no seio duma comunidade solidária. Têm ao dispor alguns espaços de lazer (jardins, parques, sala de cinema) e há a possibilidade da prática de alguns desportos (futebol, natação, judo). E quem quer ir mais além em favor dos filhos, desloca-se à Guarda ou à Covilhã, onde encontra outras oportunidades para o salutar desenvolvimento infantil e juvenil.
As escolas locais fecham sucessivamente, mas restam as do Sabugal, do Soito e de algumas outras terras, garantindo-se o transporte escolar, alimentação, bem como o recurso ao necessário material pedagógico. O ensino é ministrado por pedagogos de qualidade, seguindo à risca os programas nacionais de educação.
O verdadeiro problema surge quando os jovens chegam ao fim da linha. E este condiz com o termo dos estudos no Sabugal. Aí sobrevém o grande drama que as famílias enfrentam. Ir para a Universidade significa rumar para longe, via de regra para as cidades do Litoral. Os pais sabem que os filhos encetam aí uma viagem que não terá retorno. Claro que voltarão nas férias e até num ou outro fim-de-semana desafogado, mas não há qualquer possibilidade de um regresso prolongado ou definitivo, porque quando terminarem a formação académica os jovens não encontrarão aqui emprego.
Há pais que têm de ir às cidades distantes visitar os filhos e os netos, dado que estes pouco se deslocam ao Sabugal. Outros, na velhice, seguem por longos períodos para a casa dos filhos procurando o seu apoio. Dali são, em muitos casos, remetidos para lares de terceira idade que lhes estejam perto. Alguns nem regressarão à sua terra na hora da morte, porque os filhos optam por os enterrar num cemitério próximo, onde lhes renovem amiudadamente as flores.
Muitos dos que clamam «nós os que cá estamos é que sabemos» terão porventura este destino cruel, porque o grande problema é que o Sabugal há muito deixou de ser terra para novos, e, assim, também não será terra para velhos.
A inércia da administração autárquica, o manifesto medo de dar a cara em defesa do concelho, a incompetência que grassa, são também razões para este drama atroz. Sim, esta fatalidade não advém apenas dos que tomam as decisões em Lisboa. O Sabugal também tem os seus coveiros.
«Contraponto», opinião de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

«Aquilo é um Rei Herodes». Era assim que se dizia no Casteleiro para dizer «pessoa mesmo muito má». Isto tem a ver com a evolução corrompida do sentido de certas palavras.

Vamos ver se me faço entender: há palavras cuja evolução foi corrompida ao longo dos tempos em razão de novas grafias ou até de nova sonorização. Estas são o que costumamos designar por corruptelas. Mas há outras que, por razões de cultura, quase sempre muito por influência do universo católico envolvente, foram corrompidas no seu significado. É dessas que hoje aqui falo.

O que habitualmente chamamos corruptela é, por exemplo, o percurso da palavra «você» que resulta de «Vossa Mercê», que deu vossemecê e depois você. É um exemplo clássico.
Para deixar claro o modo como penso que estes fenómenos foram acontecendo em mais de 2 000 anos, volto atrás na grande História da nossa terra e da nossa língua.
Os eruditos falavam, falavam, mas os soldados romanos (sempre eles, para mim) não conseguiam pronunciar tudo – e vai de abreviar, compactar as sílabas. Deu resultados magníficos. Porque eles depois trouxeram essas sílabas para as nossas regiões. Misturou-se por aqui toda essa amálgama com o que já cá estava e que já era uma grande misturada e… eis a língua portuguesa no seu melhor.
Essas são as corruptelas – e diversos graus e modulações.

Mas do que eu aqui hoje quero falar é de outra coisa. É daqueles casos em que a palavra até é muito bem pronunciada (estranhamente bem), mas o seu significado foi completamente distorcido. Não pelo Povo, acho. Mas pelos seus habituais mentores, fossem os intelectuais, fossem os eclesiásticos. Eles tinham nas aldeias uma influência pesadíssima.
Realmente: onde é que seria possível (conhecendo nós o grau de acesso cultural normal numa aldeia do século XX, primeira parte) uma idosa aceder à palavra «maçónico»? Só com o empurrão dos homens letrados.
E foi assim que as coisas se passaram.
Nem vale a pena pôr muito mais na carta…

Palavras cujo sentido foi corrompido
Em muitos casos, as pessoas deram a certas palavras significados que nada têm a ver com a origem ou sentido lexicológico.
Em geral, tanto quanto conheço, para dizer mal de.
São palavras que originariamente iam num sentido mas acabaram por ganhar vida diferente. Muitas vezes, o Povo acabaria por lhes dar um significado diferente e mesmo contrário ao seu verdadeiro sentido. Em muitos casos, por influência religiosa.
O caso da palavra «maçónico» é para mim dos mais paradigmáticos.
Havia, claro, quem sempre tivesse odiado os maçãos originais (na origem, «maçons», pedreiros, operários – atenção)… vai de ensinar, apoiar e incentivar o Povo a dizer:
– Aquilo é que é um maçónico..
Isso, para dizer que a pessoa é de má índole, não presta.
Este é um caso de corrupção de significado de uma palavra.

Mas há muitos casos.
Trago aqui apenas meia dúzia de exemplos. Não vale a pena bater muito no ceguinho, nem gastar muita cera com tais defuntos.
São os tais casos de corruptela mas ao nível do sentido das palavras.
Eis alguns exemplos (muita influência bíblica, como não podia deixar de ser):

Judeu. Sabemos que os habitantes da Judeia, uma das regiões da Palestina de antanho (as outras eram: Galileia e Samaria), eram de facto os judeus. Mas depois, por influência romana provavelmente, judeu passou a ser o habitante de toda aquela zona da Palestina.
Ora quando o Povo diz:
– Aquilo é um judeu…
Quer dizer: uma pessoa mesmo má.
Capaz de atraiçoar e falsear.
Digamos: capaz de matar Cristo, pronto.

Já que estamos naquela zona do Planeta:
Rei Herodes. É a figura da foto. Foi rei da Judeia, a mandado dos Romanos. Foi ele que condenou Cristo.
Dizia-se (diz-se) no Casteleiro para adjectivar certas pessoas:
– Aquilo é um Rei Herodes…
Quer dizer que é mau. Antes de mais, para a mulher e os filhos, em geral as grandes vítimas. Mas não só.

Agora o caso da palavra «maçónico» já acima referido «à ligeira»:
Maçónico. De mação.
Quando a pessoa dizia:
– Aquilo é um maçónico..
Nem valia a pena discutir. Era pessoa nada de igrejas e portanto capaz de tudo. No Casteleiro havia uns quantos, bem conhecidos: uns maçónicos.
Mas depois maçónico passa a ser qualquer pessoa que não fosse praticante religiosa.
E agora eu pergunto: mas que mal fizeram os maçãos originais (não consigo dizer «mações», sei lá porquê) para merecerem tal epíteto?

Outras:
Valdevinos. Da referência ao Rei Balduíno. Devia ser um tanto estroina.
– Aquilo é que é um valdevinos…
Quer dizer que a pessoa fazia vida de tascas e arredores das mesmas, com os condimentos que se adivinham… um vadio. Coitado do rei…
Perua. Bebedeira a sério, tipo «gateira», mesmo.
– Estava cá com uma perua…
Estava bêbedo que nem um cacho.
Coitadas das peruas. Bebem, mas só quando os humanos as embebedam nem sei porquê.

Mais uma, finalmente, e bem sintomática:
Azamel. Correcto seria dizer-se «azemel», mas o Povo, e bem, diz «azamel». Mas para mim isto não é assim tão líquido. Sobre este termo, antes de mais uma nota: a palavra talvez devesse mesmo ser «azamel»: originariamente vem do árabe (az-zammal – aquele que conduz as azémolas, os animais). Ainda há famílias árabes assim chamadas (Azhammal, se não estou em erro).
As pessoas diziam:
– Aquilo é um azamel…
Quer isto dizer: é uma pessoa que não tem jeito para nada que se veja, ou que está sempre doente, um fracote.
Que raio de mal tinham os azeméis (almocreves, carregadores de cargas das bestas)? A não ser que se fartavam de gemer debaixo dos pesos excessivos…

Termino com uma que toda a gente usa:
Macaco. «Aquilo é um macaco» quer dizer que é um «charepe», que não é de fiar.
E agora pergunto eu: que culpa terão os macaquinhos, coitados? Pior ainda quando se diz(ia). «Aquilo é um macaquito reles» – aí, então, era o fim da linha contra a pessoa visada.

Ao fim e ao cabo: caminhos diversificados de uma língua que sempre esteve bem viva e se recomenda…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

JOAQUIM SAPINHO

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