«Fui o que fui, sou o que sou e serei o que Deus quiser. Eu não mudo, o que muda são os governos e as modas.»

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaTornou-se famosa como símbolo de incoerência política a afirmação em epígrafe, proferida por velho cacique local das Terras de Riba-Coa, que havia saltitado das hostes dos regeneradores para as dos progressistas, e com incursões também pelo Centro Liberal ou inversamente pelos seguidores de João Franco e que ainda no mercado do terceiro sábado de mil novecentos e dez assim justificava a sua adesão ao republicanismo triunfante.

O exemplo frutificou.
Com a mácula de, onde antes só havia um pouco de vaidade e de apego a influências que monetariamente nada rendiam – bem pelo contrário, pois o caciquismo implicava despesas de vulto e sempre proporcionais, no mínimo, ao grau de influência, hoje as deserções costumam ser motivadas por razões menos nobres e, por via de regra, nada altruístas.
Mas que o exemplo frutificou pelo lado negativo, qualquer observador, ainda que pouco ou nada atento, poderá testificar.
Basta atentar nas tergiversações e tenteios, quando não mesmo no cambalhotismo político dos nossos deputados, que, para honra e lustre do partidarismo político que nos rege, deveriam ser um alto exemplo de coerência.
Mas que o não são, tendo alguns deles percorrido, pelo menos, metade do quadrante ideologicamente reconhecido.
Caso tipico é o de Basílio Horta, actualmente quase porta-voz do Partido Socialista, que logo no imediato post-Revolução de Abril foi destacado militante centrista e que, a meio do percurso, foi mesmo o candidato das Direitas à suprema chefia do Estado.
E o que muitos não saberão é que Sua Excelência foi figura de topo no aparelho do Corporativismo Marceliano.
Homem de mão de Silva Pinto foi secretário, exactamente na era Marcelo Caetano, da Corporação da Indústria, autenticamente o baluarte do Regime.
E ali tinha por função essencial representar o lado patronal na negociação das convenções colectivas de trabalho.
Cargo que exereceu despoticamente, desagradando a sindicatos e grémios.
Áqueles pela pobreza das suas propostas.
A estes pela rigidez e acrimonia das imposições de que era corrente de transmissão.
Silva Pinto foi o mais odiado por todo o sistema – associações patronais e sindicais e sobretudo pelos quadros superiores do Ministerio.
Pela sua grosseira sobranceria. Por uma execranda falta de civilidade contrastava com a personalidade dos anteriores titulares da Pasta – a firmeza de Soares da Fonseca, a lhaneza de Veiga de Macedo, a elegância de Gonçalves de Proença, a superior fidalguia de Baltazar de Sousa.
Discípulo de Silva Pinto, Basilio Horta mimetizou-se com ele e de corporativista à outrance, de degrau em degrau chegou a assanhado socialista.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

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