Hoje quero que se lixem – para usar a expressão do nosso primeiro – os arrufos políticos já em veraneio. As tricas da licenciatura do manda-chuva do partido do poder. As mil e umas vindas de jogadores para clubes portugueses. Os incêndios que são sempre de suspeita de fogo posto, nunca a certeza. As promoções dos militares que, segundo eles, há já soldados a comandar soldados (rasos, entenda-se), o que só prova que os oficiais são dispensáveis. E todo o burburinho que se vai levantando com o aproximar das eleições autárquicas.

Não. Hoje quero falar da verdadeira pré época na raia. Por estes dias, decorrem as festas de Albergaria – Espanha. Para aldeias como Aldeia da Ponte era uma verdadeira peregrinação para as festa da Sant’Ana. Consta, pelo menos assim aprendi pela tradição oral, que a imagem desta santa foi levada pelos espanhóis aquando das guerras da Restauração e que, em contrapartida, os portugueses trouxeram (roubaram) a imagem de S. Sebastião. Não me perguntem da veracidade. Mas a história tem o seu sentido, já que os portugueses frequentam verdadeiramente tal festa. Porque será? Mas deixo esse trabalho para os historiadores.
Esta festa é verdadeiramente o arranque das festas. Uma espécie de pré temporada. Com os seus bailes, copas e, claro, encerro e capeia! Aqui se começa a libertar a ansiedade para abertura oficial na Lageosa da Raia. Abrindo-se, depois, um calcorrear de caminhos e tapadas nos encerros, a poeirada levantada pelo galope de cavalos e touros… e gente. O peregrinar devoto a cada capeia. Os abraços sentidos dos amigos. A explosão de toda uma região em cada investida do touro. O entardecer sereno, recortado por varas e cavaleiros, no horizonte do planalto castelhano. É esta a verdadeira época. A época, em que a identidade individual se funde numa identidade colectiva e abrangente. Não se cingindo a uma fronteira territorial.
Esta é a época em que, toda a raia se enche de gente, num cruzamento harmonioso de gerações. Proporcionando a transmissão da cultura e enraizando uma maneira de ser. Esta é a época.
Eu sei que o mundo continua a girar. Mas hoje, importa-me o girar do meu mundo.

P.S. Bom regresso a toda a diáspora!
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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