Conto esta estória que eu mesmo vivi no passado a propósito de um dia destes ter comido um pratinho de feijanito com dobrada na Tasca do Tomé.

José Jorge CameiraHá já um belo par de anos fui ao Aeroporto de Lisboa buscar dois holandeses – desses quase iguais, loiros e de olhos verdes. Vieram investir no Alentejo.
Como era hora do almoço, parei com eles em Setúbal num restaurante perto do Bonfim. Pediram que eu escolhesse por eles… Então, vá de feijão com dobrada para os três…
Os amarelos só diziam:
Very good! Good taste! Nice! – e outros elogios no linguajar deles…
Quase no fim, um deles pergunta-me, segurando no garfo um bocadinho de dobrada, pois queriam a receita:
What’s that, George… so wonderful taste???
Como eu não sabia dizer «intestinos» em inglês, comecei a fazer com uma lapiseira no papel da mesa o desenho dos intestinos, os nossos, aquela tripagem enrolada várias vezes…
Foi o bom e o bonito!
Os dois marmelos olharam um para o outro, de amarelos passaram a vermelhos… E, mudos, começaram a afastar com o garfo os restantes naquinhos de dobrada.
No outro dia em Beja, fomos petiscar ao Capitél.
Aí os Dutches tiveram um segundo choque!
Em todas as mesas comiam-se caracóis, com o palitinho…
Perguntaram-me qual o recheio dentro dos snails e eu, antevendo a carga de nojice que aí vinha, com um palito puxei lentamente o corpão que saía de uma caracoleta, com duas belas antenas bem à vista…
Foi um quase caos. Mexeram-se nas cadeiras, de um lado para o outro, parecia que tinham bichos-carpinteiros.
Por educação ficaram ali firmes, esmifrando batata-frita com ketchup…
Que gente!
Então no País deles (do tamanho do Alentejo) não comem peixes (arenques) crus?

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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