«Se observarmos a Alemanha em finais de 2011 desde o exterior com os olhos dos nossos vizinhos, tanto os directos como os mais afastados, veremos que, desde há uma década, Alemanha provoca mal-estar e, ultimamente, também inquietude política (…) a confiança na fiabilidade da política alemã está danificada (…) e quando recentemente vozes estrangeiras maioritariamente estadunidenses (…) exigem à Alemanha um papel de líder europeu, tudo isto também desperta nos nossos vizinhos, mais suspicácia e receios. Desperta más recordações.» (Pequeno extracto de um discurso de Helmut Schmidt a 4 de Dezembro de 2011, no Congresso do SPD – Partido Social Democrata Alemão).

António EmidioA Alemanha tem uma horrível carga histórica atrás dela, comecemos em Bismark com as suas guerras no século XIX e passemos ao século XX com as duas guerras mundiais, a primeira de 1914 a 1918 e a segunda de 1939 a 1945, só estas duas deixaram perto de 80 milhões de mortos! Tragédias difíceis de esquecer aos povos europeus que passaram estas barbáries causadas pela Alemanha.
Na Europa querido leitor(a), existe medo da Alemanha, o seu «milagre económico», uma das economias nacionais mais potentes da actualidade no aspecto tecnológico, político-financeiro e sócio-político, traz grande preocupação. Essa preocupação no momento presente nada tem a ver com uma possível tentativa do domínio da Europa pela Alemanha através das armas como nos séculos passados, isso é impossível nos dias de hoje, não é potência militar para isso, nem as potências militares europeias e os Estados Unidos lhe permitiam uma veleidade bélica. Hoje domina, mas com o esmagamento económico e da Democracia de muitos países da Europa, os países do Leste e do Sul, entre eles Portugal.
Houve uma altura em que o receio dos países europeus em relação à Alemanha se atenuou, e esta passou a ter uma boa imagem internacional, foi na altura dos grandes estadistas alemães como Willy Brandt, Helmut Schmidt, Helmut Kohl, entre outros. A reunificação obriga a abandonar esse «estado de graça», porque enquanto dividida o seu poder político estava limitado, mas unida daria origem a uma grande potência hegemónica, assim é. Não é por acaso que a maior parte dos governos europeus e não só europeus, da altura da reunificação, receberam esta com uma certa frieza, o caso de Thatcher, Mitterrand e Andreotti. A frieza tinha razão de ser, eis que surge Merkel, saída das profundezas de um Estalinismo de Leste, misturado com Calvinismo, que está a levar muitos países europeus, entre eles o nosso, economicamente a um beco sem saída. Desta actual crise económica é ela a única beneficiada, tem crédito barato e fácil, usa de uma brutal usura para com os países seus devedores, Grécia, Portugal e Irlanda, e goza de todas as oportunidades que o Euro lhe traz.
Churchill em 1946 pediu aos franceses para se reconciliarem com os alemães e formar uma espécie de Estados Unidos da Europa. Queria com isto, em primeiro lugar, a defesa comum em relação à União Soviética, depois integrar a Alemanha numa associação ocidental mais ampla, Churchill já previa um ressurgimento alemão. A União Europeia não nasce com o propósito de solidariedade entre os povos europeus, mas sim para diminuir o perigo de uma confrontação bélica novamente causada pela Alemanha. Os Estados Unidos estiveram em todos este processo, por isso se dizia na altura que a Comunidade Europeia seria alemã, debaixo da supervisão dos Estados Unidos. O que é hoje a união Europeia senão o poder alemão? Porque é que os Estados Unidos estão a exigir á Alemanha que assuma o papel de líder europeu? Porque estes querem que o poder político, económico, tecnológico e militar a nível mundial esteja no eixo Washington – Berlim. Não devia ser Washington – Bruxelas? Devia ser, mas isso são outros pormenores…
E a França? Essa não cederá um milímetro da sua soberania a Berlim, nem aceita com bons olhos a liderança da Alemanha, a recordação da II Guerra Mundial, e não só, ainda condiciona a política francesa em relação à União Europeia e à Alemanha. Há quem diga que será impossível uma União Europeia sem o directório Berlim – Paris, mas o problema é que a Alemanha nasceu para mandar, só aceitará esse directório se dela partirem todas as iniciativas político/económicas, Sarkozy foi um exemplo disto. A Europa para solucionar este problema de liderança será dividida em duas? A Alemanha dominará o Leste e a França o Sul? O futuro o dirá.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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