Hoje dedico estas poucas linhas a uma reminiscência que já mal se encontra e só deve ter subsistido nalguma casa velha ainda não recuperada. São os postigos. Peça engraçada cuja utilidade só percebi já com a juventude a ir-se embora. Primeiro: os postigos da minha terra são diferentes de outros. Porquê e para quê os postigos do Casteleiro?

Coloco assim a questão porque os postigos ou o que se chama postigos são muito diferentes de terra para terra. Não encontrei nenhuma foto que retratasse exactamente os postigos que havia no Casteleiro. As fotos que se publicam neste artigo vão numeradas em cima à esquerda. A mais parecida com os postigos do Casteleiro é a foto número 1.
As fotos 2 e 3 referem-se a «postigos» também mas das zonas, respectivamente de Viseu (parece-me algo como uma janela especial em pedra, mas é chamado postigo) e de Évora (uma abertura na parte de cima da porta – o que no Casteleiro se chamaria um «janelo»).
No Casteleiro, era, pois, uma meia porta: do meio da porta para baixo, havia outra portada. Mesmo que se abrisse a porta inteiriça, ficava sempre fechada aquela meia porta.
Para quê? Segurança? Não, na altura essa questão era completamente desconhecida nestas paragens. Mas tinha funções. Vamos vê-las.
Arejar
Não sendo as casas muito arejadas nem tendo janelas grandes, o postigo servia para arejar o espaço. Mais: como as comidas eram sempre feitas ao lume de brasas e não havia exaustores – e por vezes nem chaminé –, então não admira que o postigo fosse o exaustor da época, pelo menos quando se podia ter essa meia porta aberta.
Iluminar
As janelas nas casas desse tempo eram poucas e pequenas. As casas eram escuras. Para entrar mais claridade, o postigo estava aberto em quase todo o ano, só se fechando nos dias muito frios.
Nesses dias, o postigo servia de reforço de isolamento da casa.
Namorar
Não menos importante poderá ter sido esta outra função especial que os postigos por arrastamento e já que ali estavam acabaram por desempenhar: a rapariga não passava para fora do postigo e o rapaz não passava para dentro.
Um jogo de prisões e grilhetas próprio de todas as épocas anteriores à nossa.
Por isso eu ouvia alguns homens falar do namoro e associarem as conversas com as raparigas com os postigos e muitas vezes com as janelas.
Para o caso da janela havia até aquela canção gozada do Casteleiro de 60: «Ó Ferreiro, casa a filha / Não a tenhas à janela / Que anda aí um rapazinho / Que não tira os olhos dela».
Para o postigo, no Casteleiro, não conheço esta «aplicação».
Mas mais a norte, cantava-se, segundo sei algo como «Eu quero namorar contigo / Da janela para o postigo / Eu quero namorar com ela / Do postigo para a janela».
Para tudo isso servia aquela meia porta de baixo, o postigo.
Notas
1. Soube, já depois de escrita a peça – melhor, foi-me lembrado –, que na parte de dentro de algumas casas havia também um postigo sem porta a separar a cozinha do corredor. Aí, a função era claramente manter a cozinha quente sem impedir os fumos de saírem. Mais uma solução inteligente, acho.
2. Tinha uma peça pronta sobre pronúncia popular, designadamente sobre um som espantoso do Casteleiro, da Raia e da Espanha aqui ao nosso lado: o som tch. Fica para a semana que vem. Hoje fui dominado por uma imagem vista na televisão: um postigo diferente dos do Casteleiro.
3. A propósito da origem do nome da Serra d’ Opa, queira dedicar uns segundos a pensar se a tese de Américo Valente (aqui) tem de facto pés para andar: viria da palavra Opes (ou Opas) – nome da deusa romana da abundância, por outros dada também como deusa protectora da Terra e da agricultura e até da fertilidade. Mas sabe-se que outros autores falam da deusa Abundantia. Ou de Ceres, deusa da terra cultivada e dos cereais. Enfim: mitos e mitologias…
4. Tal como prometi em comentário, faço hoje remissão para uma peça publicada há quinze dias, onde aproveito as pesquisas de Américo Valente (e de António Marques). Essa peça e comentários pode ser lida e reflectida aqui.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Clique para ampliar
Clique para visitar a Caracol Real
Clique para visitar Vinhos de Belmonte
Clique para ampliar

Clique para ver o blogue oficial
Clique para ver a página web
Clique para visitar
Clique aqui
Clique para visitar
Clique para visitar
Clique para ampliar




Clicar na imagem para aceder
Clicar na imagem para ver
Clique para ver o calendário
10 comentários
Comments feed for this article
Segunda-feira, 23 Julho, 2012 às 0:34
José Jorge Cameira - Beja e Vale da Senhora da Póvoa
A Serra comum ao Vale da Senhora da Póvoa e ao Casteleiro hoje chama-se Serra da Opa; em 1758 o prior chamou-a Serra do Pa. Entendo que a verdade em História não se pode consumar de animo leve todas as teses e anti-teses propostas. Será boa a do Américo? Boa a ponto do Ze Carlos Mendes a considerar definitiva? Não vou por aí. Lançarei aqui 2 ideias. Os Romanos estiveram por ali até ao Séc.8, levando em conta o ano da ruptura do Estado romano (751). Depois vieram os Árabes ou Mouros que por ali habitaram durante.,.300…400 anos. Mantiveram eles durante esses séculos o nome da deusa romana sustentado pelo Américo e aceite pelo Zé Carlos? Eu duvido muito,acho mesmo impossível. Então por que não considerar digna de discussão a palavra OPA (rejeitando PA por possivel erro ortográfico), por uma imposição eclesiástica da Inquisição, aludindo às vestes sacerdotais,a opa ! Um abraço colectivo cá do sul do Jorge Cameira
Segunda-feira, 23 Julho, 2012 às 9:10
Américo Valente
Amigo José Carlos
Do que você se foi lembrar!!!! Posso garantir que este seu artigo é autêntico.
Nasci no Vale de Lobo mas com dois meses de idade fui para Lisboa viver.
Ia regularmente ao Vale, durante a minha infância, passar as férias grandes da escola. O meu avô da parte materna era o regedor da aldeia e tinha em casa um postigo à entrada da cozinha.
Abraço
Américo Valente
Segunda-feira, 23 Julho, 2012 às 19:53
José Carlos Mendes
Olá, Zé Jorge.
Gosto de novos caminhos, com base.
E há aí uma base, acho.
Aliás, já um dia pus a hipótese de o Cura Olival (da tua terra, mas em1758) ter escrito «Serra do Pa» para evitar a palavra «opa» (exactamente essa veste clerical que referes.
Podes ver isso aqui, no ‘Capeia’ em crónica anterior e comentários.
Mas disso eu pouco poderei entender.
Interessava-me mais era ler a opinião do Amigo Américo Valente sobre a tua tese – sobre a qual me agrada muito discutir.
Talvez até haja a sorte de entrarem na liça outras pessoas com novo tipo de informação.
Abraço.
Segunda-feira, 23 Julho, 2012 às 19:58
José Carlos Mendes
Olá, Américo Valente.
Também me deu gozo recuar até ao interior das casas a cheirar a fumo.
E «tinha de ser», se não como é que secava o fumeiro?
Morcelas, chouriças – está a ver?
Eu estava a escrever e a cheirar isso tudo.
E foi uma inspiração de momento, quando vejo num qualquer programa de TV uma imagem de uma janela e o texto lido pela apresentadora a falar de «postigo».
Pensei:isso não pode ficar só assim.
Na minha terra, postigo é outra coisa…
E foi assim.
Obrigado pelo apreço.
Mas atrevo-me a desafiá-lo para a reflexão agora concitada aí em cima, num comentário, pelo JJ Cameira.
Valeu?
Abraço.
Quarta-feira, 25 Julho, 2012 às 15:11
José Carlos Mendes
Uma nota
São Tiago, Santiago, Santo Iago
Há dias, em artigo meu anterior em que se comparavam as duas aldeias do Casteleiro e do Vale no século XVIII, o amigo Américo Valente escreveu-me uma nota interessante sobre Santiago – mais propriamente sobre o nome verdadeiro:
«Repare que agora dizemos São Tiago, mas o nome correcto era Iago. Portanto deveria dizer-se Santo Iago. Em francês Saint Iago. Na língua portuguesa, retiraram o T do Saint e juntaram-no ao Iago, ficando Tiago. Por isso eu escrevo sempre Santiago».
Faço notar que, por mera coincidência, acabo de ler isto no blog Praça do Bocage, de Setúbal:
http://pracadobocage.wordpress.com/2012/07/25/25-de-julho-dia-de-santiago/
Não é sobre o nome, é sobre o santo e sua devoção cá por estas bandas também.
Quarta-feira, 25 Julho, 2012 às 19:54
José Carlos Mendes
Vão gostar de ler esta, já agora: acabo de ouvir que no Casteleiro dantes se chamava «bestigo» ou mesmo «vestigo» ao postigo.
Mais uma nota para a minha colecção de corruptelas populares…
Sexta-feira, 27 Julho, 2012 às 23:29
José Jorge Cameira - Beja e Vale da Senhora da Póvoa
Jose Carlos Mendes: Não estaremos a complicar um pouquinho o que parece evidente? Refiro-me à designação São Tiago. Metendo-me o mais possivel e por imaginação na cabeça de um aldeão da Idade Média eu cansar-me-ia de pronunciar Santo Tiago. Fàcilmente com o tempo ficaria San Tiago » São Tiago. Convém não esquecer que no Livro de História mais antigo que se conhece – a Bíblia – há várias referências a Tiago’s, nomeadamente um tal Apóstolo Tiago. A talhe de foice, escreverei que o mesmo aconteceu com o meu apelido “Cameira”. Numa estória que me foi passada oralmente por um familiar nascido no Vale de Lobo em 1886, a palavra Cameira tem origem num outro nosso antepassado que, para não perder tempo nos dias da “aceifa” voltando à aldeia para retornar ao trabalho poucas horas depois,fazia a “cama-na-eira”, daí originando numa 1º fase o pejoratico algo jocoso que eu uso – Cameira.
Domingo, 29 Julho, 2012 às 22:42
José Carlos Mendes
Zé Jorge,
Tens toda a razão.
Muitas vezes complicamos o que é simples.
Nessa de São Tiago dou de imediato a mão à palmatória – mas sem deixar de ser interessante acompanhar o amigo Américo Valente nas suas deambulações fantásticas.
Quanto ao teu nome de família (Cameira), embora a versão popular que trazes possa ter piada, se calhar vou mais noutras versões – soam-me mais profundas. Por exemplo uma que liga os Cameiras à Espanha.
Podes verificar isso, por exemplo, aqui:
http://www.geocities.ws/ferncame/cameiras2.htm
Aí coloca-se a origem do teu nome na prole de um padre espanhol que andou pela região. Tem fundamento. Bem sabes quanto os padres dantes deixavam as proles nessa região (os «Abades» do Sabugal, Terreiro das Bruxas e Moita que o digam).
Mas eu faço lá ideia.
O que sei é que por afinidade alguns Cameiras do Casteleiro estão ligados a mim, via um tio-avô, o Ti’ António Joaquim Cameira e seu pai, Ti’Joaquim Cameira, que foi o protagonista de um episódio duro de uma campanha eleitoral em 1890 no Casteleiro – como há tempos recordei aqui https://capeiaarraiana.wordpress.com/2011/12/05/casteleiro-1890-campanha-eleitoral-violenta/ e tu leste e comentaste na altura.
Tanto quanto sei, estes Cameiras eram originários da zona dos Três Povos, para lá de Gralhais.
Os Cameiras, ao que leio, estão espalhados desde Penamacor até ao Sabugal e pelo menos também em Caria e Belmonte.
É pois uma grande «família» onomástica…
Um grande abraço, JJC.
Segunda-feira, 30 Julho, 2012 às 1:09
Jose Jorge Cameira
Boa noite. O teu comentário merece-me estas considerações, sem qualquer intenção de alimentar polémica fútil. É sobre o meu apelido “Cameira”. 1–Se um qualquer sacerdote espanhol ao tempo do dominio filipino criasse prole na região Vale de Lobo/Casteleiro, ele JAMAIS deixaria ligado o seu nome a esse feito natural; nesse tempo vigorava a temível Inquisição e esse seu “crime” teria em 1ª e única Instância a Fogueira; 2–Aceito crível que um membro do Clero castelhano tenha constituído prole pelos lados do Casteleiro e se tenha “posto ao fresco”, sendo que o Povo apodou muito justamente essa descendencia como sendo os filhos do ABADE (=sacerdote em Castela) originando daqui a Família Abade (tive um tio Abade por afinidade, o José António Martins, falecido na Moita) 3–Olhando o site que indicas, afastando a 1ª parte, de índole mitológica, ele mais me reafirma a origem rústica que propuz para o meu apelido CAMEIRA. Por que nessa site, um interventor alvitra o nome espanhol CAMERA e mais abaixo CAMEYA, este radicalmente diferente.4—Entretanto devo dizer que lendo o que escreveste aqui no C.A. há meses sobre nomes de origem judaica, deparei com um MEIRA. Mas não lobrigo como e por que a esse nome foi acrecentado um CA. Por estes argumentos, mantenho-me por Cama+na+Eira » Cameira, por que o ouvi a familiar antigo e cabe bem no contexto na vida campesina do Vale de Lobo. Sem falsos bairrismos, afirmarei aqui que foi do Vale de Lobo que saíram os Cameira’s: atravessando a Serra do lado poente para os Tres Povos e a Norte e Nascente para o Casteleiro, Caria, Inguias (do Prof Cameira Serra) e para todo o Mundo….Um abraço cá de Beja !!!
Segunda-feira, 30 Julho, 2012 às 13:49
José Carlos Mendes
Boooooa, caríssimo Zé Jorge.
1
Quanto aos Cameiras, como digo, meus afins no Casteleiro e gente de antes vergar que torcer – como sei que são também os «teus» Cameiras do Vale -, considero o assunto arrumado por ti.
2
Já quanto aos Abades (que, de facto, são Martins), esses, conheço bem a linhagem até ao Abade do Sabugal, lá pelos idos de 1850 e tal.
Esse prelado, que era rico, teve uma filha, a quem deixou a riqueza, e um filho, que foi com a mãe para a Moita e por lá se criou com o apelido Martins.
Foi pai de uma dezena de filhos.
Muitos deles dados ao comércio – da Moita ao Terreiro, Casteleiro, Inguias, Carvalhal, Belmonte etc… tendo mesmo estado alguns em Angola e hoje já vão na zona de Viseu e a última geração em Lisboa…
Nada de sangue espanhol, JJC: sangue do Abade do Sabugal de meados do século XIX.
Sem te atulhar de literatura, dizem-me que este abade aqui referido (no livro de Joaquim Manuel Correia) http://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=19&ved=0CFgQFjAIOAo&url=http%3A%2F%2Fwww.cincoquinas.com%2Findex.php%3Fprogoption%3Dfiles%26do%3Dopenfile%26idfile%3D9%26categoryid%3D4&ei=F4EWUN6kMOfmmAXLl4DwBA&usg=AFQjCNGZ2uv6cQ8qZJCjM3Lg-P2oI_vlYQ é esse tal Abade… Talvez, sim. Mas lá que houve um abade do Sabugal, que era dali da região e que é o antepassado dos Martins, disso não haja dúvida.
«Tudo de bom».
Abraço.