Estamos em «Ano Olímpico»: não tarda, desta vez em Londres, iniciar-se-á mais uma Olimpíada Moderna. Talvez valha a pena, como temos feito nesta «Raia da Memória», tentarmos estabelecer mais algumas relações passado-presente.

Prova de corrida nos Jogos Olímpicos antigos. Pintura de um vaso de cerâmica ateniense (séc. V a. C.)
Discóbolo, do escultor grego Míron (séc. V a. C.) Carlos Lopes, medalha de ouro na Maratona, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1984) Rosa Mota, medalha de ouro na Maratona, nos Jogos Olímpicos de Seul (1988)

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Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaO historiador inglês Arnold Toynbee considerava que, na origem das civilizações, se encontrava sempre um processo de desafio-resposta. A humanidade avançava, progredia, criava civilização quando respondia positivamente aos desafios naturais – a caça, a pesca, a agricultura foram respostas ao desafio fome; a disputa das cavernas aos animais ferozes, a construção de cabanas, de casas, de arranha-céus, foi a resposta ao desafio frio. E assim por diante. Dito de outro modo: todo o processo histórico se teria resumido a uma constante fuga à dor e busca do prazer. Nas áreas onde os estímulos eram demasiado fortes (como as regiões polares) ou demasiado fracos (como os trópicos), as civilizações não se desenvolveram ou estagnaram.
E quem respondia aos estímulos? Seria uma resposta colectiva ou individual? Seria dada por toda a comunidade ou só por alguns dos seus elementos? Na opinião de Toynbee, apenas alguns indivíduos excepcionais, que ele designava por «minoria criadora», respondia aos estímulos e, portanto, geravam cultura e civilização. Esses teriam sido os génios, os insubmissos, os inconformistas, os inovadores − os Aristóteles, os Arquimedes, os Galenos, os Da Vincis, os Galileus, os Hertz, os Darwins, os Einsteins, os Picassos, etc. Teriam sido esses os homens que ultrapassaram os limites, que dilataram as fronteiras do conhecimento.
Trata-se de uma tese, de uma opinião, da qual podemos obviamente discordar. Pessoalmente, penso que esta análise do processo evolutivo das sociedades humanas é demasiado esquemática, demasiado linear. As coisas nem sempre são apenas isto ou aquilo. Há inúmeras variáveis que podem condicionar o processo histórico. Até o acaso, como vimos numa destas crónicas. E, se é verdade que o papel do indivíduo como agente da história não pode ser ignorado, não é menos verdade que cada vez mais tem que ser tomado em consideração o papel das massas, das classes sociais, dos grupos de pressão, das instituições, etc. A concepção de história baseada exclusivamente na decisiva actuação dos Césares e dos Napoleões está ultrapassada. Mais que a história das árvores, procura-se hoje fazer a história da floresta. Ainda que no meio dela existam árvores mais altas ou mais frondosas, que dão mais frutos ou mais sombra. Mas essas árvores, por si, não formam a floresta. Hoje, a história é a «ciência dos homens no tempo», como dizia Marc Bloch. Dos homens e das mulheres no seu todo, em sociedade.
E, no entanto, vivemos tempos de individualismo e de fortíssima competição. Mas só na aparência este facto é contraditório em relação a uma história cujo agente primordial é colectivo. Cada vez mais, nas sociedades contemporâneas, exaltamos os ganhadores, o triunfo, o sucesso. Teria Toynbee razão? As nossas sociedades progridem e avançam em função da resposta de uma «minoria criadora»? Não forçosamente. É verdade que incensamos os heróis da política, do espectáculo e do desporto. Mas que tem isso de mal? Absolutamente nada. A competição estimulante faz parte da natureza humana. É natural e saudável que as crianças e os jovens lutem pelas melhores classificações, pelo primeiro lugar nos jogos, pelo emprego melhor remunerado. Foi precisamente a convicção de que o estímulo concorrencial era maléfico, de que os homens deviam ser tratados todos igualitariamente, que conduziu à atrofia económica e cultural das sociedades ditas socialistas. Segundo parece, o homem gosta de lutar pelo triunfo, sobretudo se souber que, no final, pode obter uma recompensa. Ainda que essa recompensa seja uma simples coroa de oliveira brava, como acontecia nos Jogos Olímpicos antigos.
Em Olímpia, de quatro em quatro anos, entre 776 a.C. e 392 d.C., atletas vindos de todo o mundo grego reuniam-se em honra de Zeus para tentar ir mais alto, ir mais longe, ser mais forte. Ser o primeiro, para receber depois as honras do triunfo, as ovações da assistência, a glória efémera dos deuses do estádio. Regressar à sua cidade-estado, ser vitoriado pelas ruas e apontado às crianças como um modelo, eis a suprema ambição do jovem atleta helénico.
O espírito competitivo não impediu os Gregos de cultivarem o amor pelos altos valores do espírito e da moral. Não impediu o florescimento da filosofia, do teatro, da poesia, da arte. Não impediu a formação de personalidades profundamente humanas e humanistas como a de Sócrates. O próprio Aristóteles foi atleta olímpico. O espírito competitivo, em si mesmo, é positivo. Negativa é a competição sem regra nem lei.
Quando, em 1896, o barão Pierre de Coubertin promoveu a realização dos primeiros Jogos Olímpicos modernos, procurou restaurar o espírito da competição desinteressada. Hoje cada vez menos desinteressada, é certo, mas nem mesmo isso é forçosamente negativo. Até porque não é rigorosamente verdade que os atletas da Grécia antiga competissem apenas pela coroa de oliveira. No ano de 594 a. C., Sólon decretou que os campeões de Olímpia podiam receber um prémio de 500 dracmas, o que apenas oficializou o costume de o povo e as autoridades vencedoras recompensarem generosamente os seus heróis.
Tudo isto não significa a apologia da concorrência desenfreada e a todo o preço, da competição selvagem, do triunfo custe o que custar, do sucesso maquiavelicamente obtido sem olhar a meios para alcançar os fins, usando e abusando dos outros para «subir mais alto, ir mais longe e ser mais forte».
O doping, seja ele químico, social ou moral, deverá ser sempre penalizado.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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