O título desta crónica não é original, bem sei, mas corresponde na perfeição para o assunto. Quando abrimos o jornal ou ouvimos as notícias, lá vem mais um anunciado fecho seja de que serviço for no interior. O elevado número de escolas fechadas, os vários serviços do estado, tribunais, centros de saúde, que vão fechar, levam a um efectivo abandono do estado e, portanto, da sua soberania, em grande parte do território.

Poderia, assim de repente, parecer uma boa notícia, mas ela encerra uma realidade amarga, traduzida numa palavra: abandono. Costuma-se dizer que, mais vale que me odeiem do que me ser indiferente! É verdade, mais vale que nos odeiem, mas que não nos vejam com indiferença. Com o abandono por parte do estado, do interior, perde a sua proximidade com os cidadãos, perde a confiança e, mais tarde, perde a identidade nacional, porque perde a sua coesão e, claro, a sensação de abandono terá sempre um preço caro. Hoje, o interior, perde de uma forma constante recursos humanos, diria, os seus melhores recursos humanos. Os jovens abandonam porque foram abandonados. O empreendorismo, tão badalado, só é possível com gente, Onde é que ela está? Somos um país assimétrico, quer materialmente, quer humanamente. Os recursos são, invariavelmente, concentrados no litoral, esquecendo todo o resto do território e as sua gentes. Já aqui expliquei nestas páginas que, para além das razões históricas, este fenómeno é, também, culpa de uma visão míope dos nossos governantes. Nunca pensaram o país como um todo. Para eles o país é somente uma franja do território. Os serviços do estado têm que estar presentes em todo o território nacional. Sei que custa muito aos senhores doutores médicos vir para a província (como eles dizem), mas num país tão pequeno em extensão, não nos podemos dar ao luxo de Coimbra, por exemplo, ter mais médicos por metro quadrado em toda a Europa, e ter cerca de oitenta por cento do território com falta de médicos. Ter os senhores juízes a não quererem vir para o interior, porquê? Se não forem juízes no sistema do estado vão sê-lo onde? Ainda por cima lhes pagam renda de casa, quando em muitos locais o estado está a pagar casa para os senhores! Se querem (e alguns só podem) trabalhar para o estado, este, é todo o território. Mas não, o corporativismo ainda é quem mexe os cordelinhos nesta sociedade…
A morte do interior do país é agonizante. Podem vir os peritos anunciar sugestões de fechos e mais fechos, que a única conclusão válida que sempre conseguem é um resultado em números, nunca em pessoas, e que vão sempre de encontro ao encomendador da perícia. E isto vem em resposta ao estudo encomendado pelo Ministério da Saúde aos peritos sobre as urgências. E, claro, lá vem que é preciso fechar umas quantas! E dizem que ninguém fica a mais de uma hora de uma urgência! Talvez. No mapa é possível… Mas lembraram-se de que, nós, chegamos à Guarda e… depois temos que ir para Coimbra! Efectivamente, estamos a menos de uma hora da urgência… E este estudo seve, apenas, como exemplo. Porque no resto é a mesma coisa: tribunais, serviços de correios, educação, finanças, segurança social, etc. É comércio; não atinge tal número? Fecha. As pessoas não importam. O paradigma que vivemos esqueceu todo o sentido humanista e converteu-se ao economicista. Parece não se ter aprendido nada com a história. E esta, acreditem, far-nos-á ver o quanto andamos e estamos enganados. Os sinais estão a começar a ficar visíveis. As pessoas, sim as pessoas, erguer-se-ão em protesto e na exigência do respeito pela sua dignidade: a de ser pessoas e cidadãos.
Até lá, o anúncio da morte do interior, já era anunciada. Diria, pela elite deste burgo, desejada. Sai mais barato.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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