O fracasso do partidarismo – ou o corvo branco e o cisne preto.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão analisaremos, ao menos por agora, se no conflito Relvas-jornais a razão era de um ou de outro dos contendores, se repartida mais ou menos equitativamente por qualquer deles, ou se, por respeito de quem não gosta destas tricas e tem o direito de viver fora delas, todos devessem estar calados.
O que pretendemos realçar, até porque a ninguém pode ter passado desapercebido, foi o tristíssimo espectáculo protagonizado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (a ERC) a propósito do conflito.
Três dos ilustríssimos conselheiros ilibaram Sua Excelência o Ministro.
Os outros dois, se não disseram daquele conspícuo estadista o que Mafoma disse do toucinho andaram perto.
Poderão objectar-me que a discrepância de opiniões é própria do limitado do nosso campo de observação.
A prevenção vem de há muito e tem-se perenizado. De Platão a Gassett,
Se neste mundo não há
Nem verdade nem mentira
Tudo depende da cor
Do vidro com que se mira

Pois,
Intervém logo um cristal
Chamado caleidoscópio
Que á visão que é a real
Dá logo a versão do próprio

Ora,
O mais preclaro varão
E o Santo a Deus mais temente
Sofrem a limitação
De o homem ser contingente

E daí a conclusão,
É louco aquele que intenta
Deter certezas a rodo

Já que,
Do lugar onde um se senta
Não se vê o mundo todo

Assim, parece ficar coonestado o comportamento de todos e cada um dos cinco membros daquele ilustrissimo conciliábulo…
E assim seria se cada um tivesse decidido pela sua cabeça e não cumprindo como foi o caso ordens de mandantes.
Os membros progovernamentais teriam de decidir a favor do ministro, fosse qual fosse a gravidade ou a inocência dos actos em exame.
Os outros teriam de ajuizar contra.
São assim na nossa democracia parlamento-partidária as regras.
Foi assim desde mil oitocentos e vinte a mil novecentos e dez.
Foi assim na Primeira República.
Está sendo assim na Terceira.
Daí o que foi e continuará a ser a nossa instabilidade.
Jorge Campinos, que ninguém pode acusar de antidemocrata deixou exarado numa nota do seu monumental trabalho O Presidencialismo do Estado Novo que «a nossa Primeira República perpetuou a instabilidade herdada da Monarquia Parlamentar, multiplicando-a até ao absurdo».
E continua:
«A Quarta República Francesa oferece em comparação uma bem pálida imagem.
Na França em desordem houve dezoito ministérios.
Em Portugal, entre mil novecentos e dez e mil novecentos e vinte e seis, houve quarenta e quatro.»
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

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