De regresso a Manaus, eu mesmo programei o dia seguinte. Fui visitar o famoso Mercado de Manaus: do peixe, da carne, da fruta, passarada, cobras secas, verduras esquisitas, de tudo…

José Jorge CameiraMas que coisa incrível esse Mercado! Vem gente de todo o interior vender os seus produtos.
Vi bancas cheias de peixões enormes, 50…100… 200 quilos!! Peixes do mais esquisito que já vi, cabeças tortas, torcidas, barbas aqui, barbichas ali… cortavam bifes desses peixes com mais de um quilo, que vendiam por 2 reais…
Naquele Mercado é tudo em grande! Carapauzinhos dos nossos? Nada disso! Nem para os gatos…
Cá fora, nas paredes – tudo se vende. Chás para todas doenças, tachos, panelas, malas…
À noite aquele Mercado transfigura-se: cá fora passa a ser poiso de Putas e Veados (gays). Às centenas, tudo alinhado à espera do freguês como naquelas filas à espera de táxi. Um cliente chega e não escolhe: é quem está a seguir, seja bonito ou feio, novo ou velho.
Em Manaus é vulgar o sol esconder-se de repente e cai uma formidável chuvada, todos se molham mas parece que ninguém se rala, pois a seguir o sol desponta, seca tudo e todos. Aquela cidade é a descair em direcção ao rio – então nesses momentos de chuvada as estradas de asfalto transformam-se em rios velozes correndo até o rio grande.
As ruas da Cidade, muitas delas exalam um perfume que me agradou muito – por volta do meio-dia inúmeros restaurantes começam a grelhar nacos grandes de carne de boi só com sal. Comi uma pratada dessa carne, tinha que ajeitar com a mão para não cair e apenas paguei 5 reais (2 euros).
No meu deambular pelas ruas da cidade, dois detalhes da vida amazónica me ocorreram.
No Séc. XVI na altura em que Portugal perdeu a Independência para Espanha, as possessões portuguesas tornaram-se por esse facto «colónias espanholas», ficando rasgado automaticamente o Tratado de Tordesilhas. Daí que inúmeros aventureiros, exploradores e militares daquele país (e de outros então inimigos de Espanha) tivessem penetrado nas entranhas da Amazónia, não para colonizar mas tão somente para procurar ouro. E faziam-no como procederam no México, Perú, etc: locupletavam-se com o vil metal à custa de chacinas dos indígenas. As populações indígenas locais estranharam esses comportamentos, diferentes dos usos lusitanos, que mesmo explorando as riquezas, também promoviam militantemente a miscigenação!
Militares e aventureiros espanhóis frequentemente subiam e desciam o Rio Amazonas. Eram atacados por indígenas, algumas vezes ao lado de portugueses.
Ficou conhecida uma célebre tribo índia, vivendo perto de Nhamundá – várias centenas de quilómetros a leste de Manaus – cujos soldados eram só mulheres. Estas guerreiras que causaram grande mortandade no meio da soldadesca espanhola, cortavam o seio direito para melhor manobrarem o arco e as flechas! Assim seriam mais eficazes nos ataques…
Frente a Nhamundá, do lado sul do Rio, está a cidade de Parintins. É famosíssima pelas suas grandes festas carnavalescas, embuídas de autêntico espírito decorrente da cultura amazónica…
Fui a um barbeiro, tinha de preencher os tempos mortos: cortar o cabelo e lavar, isso eu pedi. E sem pedir apararam-me os pêlos do nariz, dos ouvidos, arranjaram-me as unhas das mãos e dos pés com massagem, sentindo ser alvo de todos os olhares por ser «ave rara» – tudo por 15 reais (6 euros).
No último dia fui de táxi ver o mais famoso edifício de Manaus – o Teatro Amazonas, onde está a Ópera de Manaus, construído em 1896.
Manaus teve o seu auge de riqueza no tempo da procura da borracha. Foi dali que saíu pela primeira vez essa matéria-prima, com o trabalho quase escravo dos seringueiros (um pouco como a recolha da resina dos pinheiros em Portugal). Houve muito dinheiro, mas como sempre, mal dividido e mal gasto.
Daí que alguém rico se lembrou de construir na cidade o maior, o melhor e o mais bonito edifício onde se realizassem Concertos, Óperas e actividades afins, em ambiente rico e snob! Mesmo de avião se vê essa magnífica construção encimada por uma maravilhosa cúpula verde-dourada. Por dentro, não há palavras para descrever os tectos, os frescos, as pinturas, as colunas, adornado com o amarelo do ouro.
Todos os mais famosos tenores do Mundo ali actuaram, entre eles o Luciano Pavaroti…
Regressando a Natal (para mim a melhor cidade do Brasil para os Europeus) tive uma última surpresa: o avião sobrevoou a Amazónia para sul, até Brasília, onde após 5 horas regressei ao relativo sossego da cidade potiguar. Vi de novo um imenso e quase infindável mar verde da selva amazónica, o Pulmão do Planeta!
Já visitei essa maravilha da Natureza que é a Amazónia! – assim pensei no fim do périclo, como se fosse um dever cumprido! Dever de gozo, entenda-se!!!!
Veja aqui o mapa da região visitada.

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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