Alguns historiadores portugueses vêem no século XVII o período de solidificação da decadência política, cultural, científica, económica e social de Portugal em relação aos países da Europa do Centro. Essa decadência pode dizer-se que começa em 1580, final do século XVI, quando Portugal fica debaixo do domínio de Madrid.

António EmidioA partir daí há como que um regresso a nível cultural, a uma mentalidade própria da Idade Média, para isso contribuiu um absolutismo régio, não permitindo as iniciativas locais, municipais e até individuais, o rei tinha o monopólio dos negócios do Império Ultramarino, e a igreja com a sua inquisição, sinónimo de intolerância e perseguições.
Neste estado de decadência estável, embora já bem entrados no Vintismo (1820), a Inglaterra deu-nos uma bofetada que atingiu o País inteiro, o Ultimatum. Não falarei dele, mas sim sobre o impacto que teve em Portugal. Seguiu-se ao Ultimatum uma onda de patriotismo e de indignação, não só a nível da imprensa, mas também em manifestações de rua, havia como que um luto nacional. Dos homens de letras e de ciências saíram os mais vibrantes protestos. Foi nesse período que Alfredo Keil, músico e também pintor, compôs o Hino Nacional, a Portuguesa, esteve na letra do Hino, além de Henrique Mendonça, presumo que Abel Botelho, escritor que escreveu um opúsculo intitulado «Uma Tourada no Sabugal». Guerra Junqueiro escreve o poema Finis Patrie. A estátua de Camões foi coberta por uma faixa negra em todo o País. A rainha Dª. Amélia teve estas palavras quando conheceu o Ultimatum: «Devíamos cair de armas na mão em vez de aceitar tal ultimato».
As forças políticas dessa altura utilizaram o sentimento popular com o fim de açular ódios e paixões? Principalmente os Republicanos? É muito natural que assim tenha sido, a própria História o diz. Quem mais se manifestou foram os estudantes, intelectuais, jornalistas, ou seja, homens de cultura, o povo em si, verdade seja dita, nem sabia onde ficava Angola nem Moçambique, mas sabia que eram pertença de Portugal. As revoluções e os sentimentos patrióticos nascem assim, uma elite culta revolta-se e movimenta um povo. Sem elites não há revoluções, uma revolução é uma substituição de elites. Se falo em revolução é para dizer que o Ultimatum e a onda de patriotismo que lhe seguiu debilitou a Monarquia. Num jornal dessa altura o Rebate, jornal dos estudantes do Porto, escreveu em Abril de 1890: «Morra o Rei! O regicídio passa a ser um direito». De facto, D. Carlos e o príncipe herdeiro são assassinados, mas antes disso acontece o 31 de Janeiro de 1891, tentativa de implantação da República, tentativa falhada, mas que foi originada pelo Ultimatum, este deu maior expressão ao ideal republicano que passados dezanove anos afasta o regime monárquico de Portugal. O mais importante e o que fica, é que houve sentimentos patrióticos e revolta quando Portugal foi humilhado. Segue-se a República com todas as suas contradições, até que os militares, primeiro Sidónio Pais que falha a ditadura por ter sido assassinado, mas que em 28 de maio de 1926, Gomes da Costa consegue implantar, originando com ela o Estado Novo. O que foi o Estado Novo? O Estado de Salazar? Regresso ao passado, ao passado imperial e marinheiro, ao Portugal religioso. A cauda das caudas da Europa, enquanto Fátima era o altar do Mundo!…
Abril, esperança num Portugal novo, num Portugal moderno e europeu, esse sonho durou pouco. A Europa entrou também em crise, e de crise em crise, com má orientação das nossas elites políticas, chegámos à suprema humilhação! Três ou quatro tipos, vindos não sabemos de onde, ganhando principescamente, têm mais poder do que os nossos representantes eleitos democraticamente, ou seja, Portugal perdeu a sua soberania. Sem dúvida que a desordem nas finanças e o endividamento são males crónicos, mas um jornalista do Jornal de Negócios soube apontar o dedo: «Ao longo dos séculos nunca criámos riqueza para pagar os luxos excessivos de uma elite que vive longe da realidade». De uma ELITE… Assim escreveu Fernando Sobral, os jornalistas quando querem, sabem!… E esse luxo excessivo, misturado com corrupção e subsídios europeus traduziram-se nisto em Democracia! Uma percentagem de desemprego impressionante, o pior índice de crescimento dos últimos 90 anos, a pior dívida pública dos últimos 160 anos, a segunda grande onda migratória em 150 anos. Detrás destes números há pessoas, 1.000.000 de desempregados e mais 900.000 que emigraram em 10 anos, entre 1998 e 2008! A isto temos de juntar a ineficácia da Justiça e da Educação.
Os portugueses trabalham, trabalham para o seu futuro e para o de Portugal, mas dá a impressão que voltamos ao tempo de Salazar, político que governou não para satisfazer e atender os desejos e necessidades dos cidadãos, mas para pôr acima de tudo os interesses do Orçamento do Estado, que ia para directamente a uma elite política e económica que parasitava esse mesmo Estado, Melos, Champalimaud, etc. etc. etc.
Os tempos presentes, os tempos da Troika estão a tornar-se mais difíceis do que os do Ultimatum, uma nação belicista, racista, prepotente e insolidária, a Alemanha, está a impor a sua hegemonia política e económica em toda a Europa, e quando a Alemanha sai das suas fronteiras, a História relata-nos coisas terríveis! Alguém disse que há duas formas de conquistar e escravizar uma nação, uma é com espada, a outra com a dívida.
Deixo esta pergunta: será que as nossas elites políticas não conhecem a História?
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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