Hoje resolvi contar mais umas quantas estórias das muitas que a malta repete em reuniões de convívio. Mesmo repetidas, têm sempre imensa piada e a rapaziada ri a bandeiras despregadas – re-ganhando a ingenuidade de tempos idos, quando estas coisas nos encantavam a meninice. Divirta-se o leitor também. São historietas semelhantes às de qualquer aldeia de há 50 e tal anos.

Mouras encantadas, buracos misteriosos nas rochas, rochas que falam, potes de ouro são o condimento do imaginário aldeão do interior beirão. O sublime maravilhoso equivalente ao das sereias das zonas costeiras.
Mas há mais.
Há as estórias que metem pessoas reais. As dos quadrazenhos, as dos contrabandistas.
E não só.
Quando somos crianças há três ou quatro realidades que nos dominam: o fascínio pelos mais velhos, designadamente aqueles com os quais nos queremos parecer quando formos grandes; o imaginário maravilhoso popular no seu melhor que enforma quase sempre as estórias contadas pelos profissionais da narrativa que todas as aldeias têm; o prazer de sabermos que em muitas ocasiões somos o centro das atenções e do mundo destes adultos que nos parecem tão fortes, e até o gozo de sermos gozados – porque, acho, queremos entrar no jogo das brincadeiras dos adultos da aldeia. Somos assim uma espécie de protagonistas da nossa própria fragilidade.

O homem do tempo
Havia no Casteleiro um homem que sabia sempre se chovia ou fazia vento. As pessoas tinham o hábito de lhe perguntar isso porque ele acertava mesmo. O segredo dele eram os dias do governo. A palavra governo aqui significa apenas «orientação».
Explicando: a teoria nesse tempo – agora já não será assim, com as alterações climáticas – era a seguinte: cada um dos dias entre 2 e 13 de Agosto (o dia 1 estava excluído desta tese) correspondia a um mês do ano seguinte. Ele dava-se então ao trabalho de registar de memória o que se passava nesses dias de Agosto (acho que cada hora correspondia a dois dias ou coisa do género, já não me lembro). E com essa informação, caldeada depois com a observação astral do próprio dia, o homem conseguia hoje dizer que tempo fazia amanhã com grande probabilidade e muito acerto.
Para mim, isto era uma maravilha estranha. Mas ele não era vidente – era um observador popular. Provavelmente hoje teria uma daquelas equivalências a mestrado.

A pedra das agulhas
Esta estória tocou-me a mim muitas vezes. Um sapateiro mandava-nos levar uma saca atada com um pedregulho lá dentro a outro sapateiro seu colega. «Era» a pedra das agulhas. As oficinas distavam aí uns 200 metros uma da outra. Um dos sapateiros, ti Luís Pinto de seu nome, era um ponto danado, estava sempre com piadas e ditos engraçados e a criançada assentava ali arraiais.
Um dia, diz-me ele:
– Olha, vai lá levar esta pedra das agulhas ao ti António Martins, que precisa de afiar as agulhas dele e as sovelas.
Eu, como era muito bem mandado, agarro no saco com a pedra, faço-me forte, arranco por aí acima e… «ala» para a oficina do homem.
Eles faziam esta matreirice de malandragem.
E nós a cairmos na esparrela.
Às vezes ainda duplicavam ou triplicavam a dose porque o outro, quando lá chegávamos, ainda tinha a lata de dizer que o ti Luís se tinha enganado e…
– Leva-a lá e diz-lhe para mandar a outra.

Pés endurecidos
Na minha terra havia um homem, pastor, que esmagava os ouriços com os pés descalços. Parece mentira mas não é. Segundo me contam, os primeiros sapatos que alguma vez calçou foram as botas da tropa (foi para a Marinha e julgo que terá ido para a Primeira Guerra). Isso queria dizer que andou nada menos do que 20 anos descalço.
Era tal a dureza da pele, que «britava» os ouriços com os pés. Os ouriços são os invólucros das castanhas e como se sabe estão protegidos de picos agressivos. Imaginem a situação: o homem a pisar em cima daquela coisa e as castanhas a saltarem.

Convém saber que muitas pessoas depois contavam estas histórias e realidades da terra, cada qual à sua maneira, mas sempre com muita graça.
Acho hoje que istas eram, afinal, formas de literatura popular ingénua que faziam o dia-a-dia da aldeia. Literatura viva e interactiva: de cada vez que alguém as contava ou as sublinhava, as histórias iam-se compondo, ampliando e diversificando, nunca iguais de versão para versão.
Publico, aliás, com grande respeito, uma foto da geração adulta do tempo em que eu era criança no Casteleiro.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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