O CERN (Centro Europeu de Investigação Nuclear) acaba de confirmar a existência do «bosão de Higgs» ou «partícula de Deus». Esta descoberta coloca a física no caminho para a compreensão das origens da matéria e da vida, demonstrando, mais uma vez, que não existem «ciências exactas», definitivas, acabadas. Toda a ciência está permanentemente «em construção», graças ao contributo de sucessivas gerações de cientistas. Newton dizia: «…vejo mais longe porque me sentei sobre os ombros de gigantes.»

Alguns dos grandes «construtores» da Ciência
A Galáxia de Andrómeda O Space Shutlle em trabalhos de conservação do telescópio espacial Hubble colocado em órbita pela NASA em 1990 Aspecto do interior do gigantesco acelerador de partículas do CERN situado num túnel circular com 27 kms de comprimento

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Adérito Tavares - Na Raia da MemóriaA moderna astronomia põe hoje na nossa frente um espantoso Universo! Poderosos telescópios perscrutam os céus e recebem luz emitida há milhares de milhões de anos. Sondas espaciais medem radiações e calor, em busca dos testemunhos do «big-bang», uma gigantesca explosão ocorrida há talvez 15 mil milhões de anos, que teria dado início à formação das estrelas e das galáxias.
Esses potentes telescópios, como o Hubble, ou o do Monte Palomar, nos Estados Unidos, dotados de lentes com vários metros de diâmetro, atingem distâncias impensáveis: estão hoje ao seu alcance dez mil milhões de galáxias, algumas das quais situadas a centenas de milhões de anos-luz (lembro que um ano-luz equivale à distância percorrida pela luz durante um ano, à velocidade de 300 mil quilómetros por segundo, isto é, cerca de 10 biliões de quilómetros).
Uma galáxia é um enorme aglomerado de estrelas. A galáxia de que faz parte o Sol, a Via Láctea, é composta por cerca de 100 mil milhões de estrelas. A galáxia mais próxima da nossa, a Grande Nebulosa de Andrómeda, igualmente formada por um número de estrelas semelhante ao da Via Láctea, situa-se à distância de 2 milhões de anos-luz. Por outras palavras: a luz que agora nos chega da Nebulosa de Andrómeda é uma luz «arqueológica», partiu de lá quando na Terra viviam os australopitecos.
Perante a prodigiosa grandeza destes números, somos irremediavelmente remetidos à nossa própria pequenez. Se conseguíssemos auto-observar-nos a partir de um ponto situado algures nesse Universo distante, que significado teriam as nossas mesquinhas disputas? Dizia Erasmo de Roterdão, em 1511, no Elogio da Loucura, que «se alguém pudesse observar os mortais a partir da Lua, julgaria ver milhares de moscas e de mosquitos envolvidos em rixas, guerras, maquinações, rapinas, enganos».
Na verdade, o Homem tem passado demasiado tempo a olhar para o seu próprio umbigo. Durante milhares de anos, acreditou mesmo que era o centro do Universo e que tudo girava à sua volta. A Terra constituía um ponto fixo em torno do qual se moviam os restantes planetas e o próprio Sol. Esta concepção geocêntrica do Universo, exposta por Ptolomeu no século II, foi aceite quase unanimemente até ao século XVI. Antes de Ptolomeu, apenas o grego Aristarco de Samos tinha defendido a hipótese de a Terra girar à volta do Sol, mas as suas ideias contrariavam de tal modo o senso comum que foram rapidamente esquecidas. Os livros de Aristarco perderam-se e só conhecemos o seu pensamento através das escassas referências que lhe faz Arquimedes de Siracusa.
No século XVI, o polaco Nicolau Copérnico retomou as propostas de Aristarco de Samos e, depois de algumas viagens a Itália e de demorados estudos, publicou em 1543 o seu De Revolutionibus Orbium Coelestium, no qual defende a teoria heliocêntrica: o Sol é uma estrela fixa, em torno da qual giram a Terra e os outros planetas.
Ainda nesse século, o dinamarquês Tycho Brahé e o alemão Johannes Képler confirmam o heliocentrismo de Copérnico e determinam as órbitas elípticas dos planetas. Já no século XVII, o italiano Galileu Galilei prova matematicamente a teoria heliocêntrica e procede às primeiras observações dos astros com um telescópio construído por si próprio. Na Inglaterra, Isaac Newton estabelece a teoria da gravitação universal dos corpos e desenvolve a astronomia experimental, designadamente através da invenção do telescópio de reflexão, que permitiria aumentar sistematicamente o diâmetro das lentes.
Estes foram alguns dos homens que «fizeram girar a Terra». Eles estão na origem de uma verdadeira revolução científica: juntamente com outros físicos, matemáticos e filósofos, como Francis Bacon, Pascal, Descartes, Leibniz e Torricelli contribuíram decisivamente para a substituição de uma mentalidade aproximativa por uma mentalidade de rigor. Daí em diante, as distâncias, os pesos, o tempo, a temperatura, tudo passou a ser medido rigorosamente, através de instrumentos então inventados – o relógio de pêndulo, o termómetro, o barómetro, etc.
No entanto, não se pense que todo este progresso científico foi conseguido sem oposição. As grandes e profundas mutações, sejam de carácter sociopolítico, económico ou cultural, encontram sempre resistências. E as resistências à mudança vieram, no caso da revolução científica do século XVII, sobretudo da Igreja Católica.
A Igreja não aceitava que fosse posto em causa o saber tradicional. Vivia-se então uma grave crise religiosa, desencadeada pela Reforma Protestante e pela resposta católica, traduzida no movimento da Contra-Reforma. As ideias inovadoras eram portanto consideradas perigosas e heréticas. Copérnico apenas escapou a um eventual julgamento porque morreu poucos meses depois da publicação do seu livro. Todavia, um dos seus continuadores, Giordano Bruno, viria a morrer na fogueira por ideias semelhantes. Galileu foi também julgado pela Inquisição e só evitou a fogueira porque aceitou renegar publicamente as suas teses (não deixando, todavia, de murmurar para si próprio: «E, no entanto, ela move-se!»). Só recentemente, 350 anos depois do julgamento, a Igreja Católica procedeu à reabilitação de Galileu. O amanhecer da tolerância é espantosamente lento!
A história, durante muito tempo, apenas estudou a mudança. Hoje investiga também as resistências à mudança. Interessa-nos saber como William Harvey, no século XVII, estabeleceu com segurança o princípio da circulação do sangue mas também nos interessa estudar todo o processo que levou muitos médicos a recusarem este conhecimento inovador durante dezenas de anos. Ou estudar as razões por que se ridicularizou a teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin. Ou ainda as razões da rejeição do impressionismo, do cubismo ou do surrealismo na época em que apareceram.
Alguém definiu a ciência como «curiosidade organizada». Se não fosse o inconformismo, o espírito de descoberta e de aventura, a ânsia de saber, muito provavelmente o «homem» ainda hoje viveria nas árvores. Como as outras 192 espécies de primatas.
«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

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