Se para ser cargueiro não se exigia mais que uma mediana robustez de peito e pernas e para ser empresário o problema era de fundo de maneio e capacidade de relacionamento, o guia, só o poderia ser, se aliasse a um perfeitissimo conhecimento do terreno, uma velocidade e capacidade de carga que a Natureza só concede excepcionalmente e, acima de tudo, uma coragem a roçar o temerário.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEste vocábulo guia, na sua simplicidade dissilábica é dos que mais linhas exige dos dicionaristas e dos que mais nótulas e comentários lhes suscita.
Comum de dois, quando relativo a pessoas – que podem ser celícolas, como o anjo da guarda, simplesmente feminino quando referido a autorizações de marcha ou despacho – os tratadistas dizem, para a primeira hipótese, que guia é pessoa que conduz outra ou outras, a ou as acompanha e lhe ou lhes mostra o caminho.
Para a segunda hipótese, tanto pode ser roteiro que indica o caminho que se há-de seguir, como obra que encerra instruções; como a famosa carta de guia de casados do nosso Dom Francisco Manuel de Melo,,,
Nas operações de contrabando, a primeira tarefa é a da escolha da rota – caminho pouco simpático e acessível às patrulhas fiscais, de horizontes muito curtos e com obstáculos naturais a corridas de perseguição.
Mas, porque há sempre o receio de qualquer iscariotes que faça denúncias ou se espera comunicação dos vigilantes de serviço que inculquem perigo para o delineado trajecto, logo desde a primeira hora se estabelecem alternativas. E, conjecturando-se sempre a hipótese de aparecimento de guardas ou carabineiros, estudam-se cenários de diversão, a partir dos possíveis nós de intervenção.
Iniciada a travessia, o lugar da frente pertence sempre a um guia, que leva uma pseudo-carga, logo abandonada a voracidade dos homens do fisco, caso apareçam.
Mas o guia não foge do perigo, busca-o mesmo para decobrir e entreter possíveis apreensores. A carga serve de negaça. Mas quando dela se despoja, atira para os ares com um fortíssimo ahhuu que alerta toda a fila.
Os cargueiros, embora no encalce, vão separados um a um por algumas dezenas de metros. E, enquadrados – de tantos a tantos, segundo o valor das cargas, podendo ser um para dois, no caso de mercadorias muito caras – por outos guias, que à ordem de debandada, fornecem aos seus protegidos, novo itinerário. Aliás, quando um cargueiro, por mais timorato ou acossado, perde a carga, o seu guia tudo fará para recuperá-la.
Meu pai, que foi guarda fiscal, contou muitas vezes, apontando o autor comum dos mais famosos guias de toda a Raia, que o Zé Júlio, das Batocas, se safou com três cargas de estanho, de vinte e cinco quilos cada uma, fugindo com elas pelos brejos…
Houve muitos guias que deixaram fama, como o Chicata, das Naves, o Berrnau, que sendo da Bismula, passava por batoqueiro, em virtude de viver amancebado com uma estalajadeira das Batocas… Os mais decantados de todos foram, no entanto, os quadrasenhos.
Porque alguns morreram crivados de balas pelos civiles que, vindos das crueldades da Guerra Civil de Espanha, tinham pouco respeito pela vida – sua e dos outros…
Os folhetos de cegos davam-se conta dos insucessos:
Era valente e sem manha
Amado pelos cargueiros
Quando ia para Espanha
Foi morto pelos carabineiros

Assim rezava o libreto, alusivo ao Aristides Perricho, que se podia transcrever só com mudança do identificativo para Leu, Léi, Balhé ou Balecho, nome de alguns dos caídos nas ravinas de Gata e Gredos.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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