Em Portugal é já vício velho os partidos políticos colocarem os seus «quadros» nas chefias intermédias dos organismos públicos. Digo vício velho porque isto já vem dos finais da Monarquia, atravessa a República, continua com o partido único do Estado Novo, a União Nacional, e, sem interregno, entrou pela Democracia dentro até ao presente momento. Neste artigo só me refiro aos pequenos «quadros» não a gestores de institutos públicos.

António EmidioQuero frisar o seguinte antes de começar o artigo propriamente dito: conheci e conheço, homens e mulheres em lugares de chefia intermédia, pequenos «quadros», com uma capacidade, honestidade e humanismo a toda a prova. Honrosas excepções. Compreendido?
O que acontece querido leitor(a), é que em noventa por cento dos casos, os partidos colocam a chefiar os mais submissos, aliás o Estado não premeia o talento, mas sim a submissão, os mais aduladores, os mais espertos, os mais ambiciosos, os sem escrúpulos, os traidores, os medíocres e incapazes, gente com mentalidade de patrão, fazendo do sector que comandam um couto «privado», com resultados catastróficos para o bom funcionamento do serviço e dos interesses dos cidadãos, na medida em que lutam simplesmente pela nobilitação individual. Já Eça de Queiroz no seu tempo, nos finais da Monarquia, desmascarou a Democracia sem valor e sem mérito, vejamos este pequeno diálogo tirado de uma página do seu livro A Capital, onde depois de uma reunião de Republicanos, a personagem principal do livro, Artur Corvelo, diz para um dos assistentes a essa reunião:
– A leitura foi longa.
O outro inclinou-se-lhe para o ouvido:
– É que se não faz nada! Tudo isto é uma história. É palrar, é palrar! Não se faz nada enquanto não se deita o governo abaixo! Eu já disse ao Matias – eu quero ir recebedor para Belém. Eu cá sou franco.
(…)
Nesse tempo o recebedor era o funcionário incumbido de receber e arrecadar impostos.

Se juntarmos a isto, multiplicado por milhares, uma classe política surgida ultimamente com um elevado grau de mediocridade, controlada por uma oligarquia poderosa, uma classe empresarial que procura o lucro fácil e rápido, uma outra classe que vive de expediente e corruptelas, um povo em regressão cultural, que cada vez enche mais os estádios de futebol, que caminha para Fátima a pé e depois anda de rastos nesse mesmo recinto (Joaquim Manuel Correia ao ver no seu tempo uma devota que na Senhora da Póvoa se arrastava de joelhos deixando fundos sulcos na lama do recinto, teve esta frase: «E como esta viam-se muitas, e não houve quem protestasse, se opuzesse em nome da razão e da humanidade, a tão cruéis suplícios e a procissão lá ia continuando, como um pesadelo, vagarosamente.»
Regredir! Regredir! A primeira década do século XXI em Portugal tem sido a todos os níveis, excepto tecnológico, uma regressão de pelo menos meio século. Um povo que delira com as revistas do beautiful people, que percorre os grandes Centros Comerciais olhando extasiado para o glamour das montras onde se abastece de luxo esse mesmo beautiful people, e que à noite não tira os olhos da televisão, não é de admirar que o seu País, Portugal, continue na cauda da Europa, e que tenha perdido a sua soberania, com a agravante de qualquer dia perder a Democracia, passando o Parlamento Português, os nossos eleitos, a estar dependente do Bundestag.
Que fazer! Quando se vê singrar a baixeza cultural e moral? Que fazer! Quando se vêem os dignos, honestos e competentes serem marginalizados e ignorados? Até se compreende quando dizem «para mim acabou» assim me responde um amigo digno, honesto e competente quando lhe digo que é preciso fazer alguma coisa.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

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