Vamos comparar como era dantes numa e noutra destas nossas duas aldeias. Pelo olhar de dois padres (curas), proponho hoje um exercício comparativo. Podemos ficar a conhecer melhor as duas aldeias que cercam a Serra d’ Opa. Estamos em 1758. Trata-se da organização paralela das respostas que os dois padres deram aos serviços de Lisboa / Marquês de Pombal, através do «interrogatório» de um Padre chamado Luís Cardoso.

Primeira constatação: o Casteleiro era anexa de Sortelha, em termos religiosos, e dependia dessa sua então sede de concelho em termos civis; o Vale tinha autonomia religiosa. Mas havia cura (padre responsável) em ambas as freguesias.
Um apontamentozinho pessoal: gosto mais da caneta de aparo mais fino do Padre Olival: dá melhor leitura. Publicamos hoje nesta peça a 1ª página. Quanto às respostas do padre do Casteleiro, já publiquei uma no «Capeia» e podem ser consultadas no «Viver Casteleiro» – ver link aí em baixo.
Mas acho que aquele cura (Padre Olival) era mais analfabeto que o do Casteleiro. Escreve, por exemplo, que há «sento» e doze fogos no Vale (assim mesmo: sento). Mesmo para o século XVIII, é obra… O outro, o Padre Leal, escreve bem a palavra e diz que no Casteleiro há «cento e cinquenta e dois fogos».
Portanto, e já agora: o Casteleiro tinha mais gente. Mas o Vale é mais rico: ao cura, o Vale assegurava uma renda anual de 200 mil réis e o Casteleiro apenas 20. Coitado do Padre Leal… Custa-me aliás a crer tamanha disparidade de rendimentos. Pode haver aqui ou dualidade de critérios ou erro de um deles. Acho estranho.
Depois, verifique-se que ambas as terras «pertencem a El Rei». Não têm nem senhores nem donatários.

As duas aldeias
O Vale desse tempo é contornado pela sua ribeira, que vem de Santo Estêvão e vai para a Benquerença mas que só corre durante alguns meses no ano. Portanto, parece-me que o Vale também se deslocalizou um pouco, tal como a minha terra. Mas têm de ser as pessoas do Vale a confirmar essa alteração e a explicá-la, claro. Falando com os mais velhos, em geral obtêm-se pistas que levam a outras pistas… e tal… e as conclusões por vezes surgem.
O Casteleiro, confirmemos, ia até Cantargalo. Portanto, estendia-se pela ribeira (que pode ver na imagem). E só chegava a 30 passos da capela de São Francisco, onde hoje é o largo principal, à beira da actual estrada nacional.
Noto que o Padre Leal, do Casteleiro, não tem os seus paroquianos em grande conta. É que, perguntado pelos serviços de Lisboa «se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas», o cura tem o desplante de se exprimir assim sobre os meus antepassados: «Nada por ser gente muito rústica e não se lembrarem de memória alguma».
Mas, pelos vistos, as pessoas, tanto do Casteleiro como do Vale, escrevem e lêem: ambas as terras se servem do correio de Penamacor – afirmam os dois curas.
As duas aldeias, como todos saberão, ficam uma de um lado e outra do outro de uma serra. Mas qual é o nome da serra? Para o Padre Olival (do Vale) é a Serra do Pa. Para o Padre Leal é a Serra d’ Opa. Vou pelo da minha terra: como já escrevi, foi assim que sempre ouvi chamar à serra.
No que eles também não se entendem totalmente é na caracterização do «temperamento» (clima, penso) da serra. Diz um, o do Vale, que é «quente e saudável». E diz o outro que «é frio mas saudável».
As duas terras são livres e pertencem a El Rei. Vê-se ao longo das perguntas a repetida preocupação sobre a existência de «senhores» e de «privilégios». E os padres sempre a darem a mesma resposta: «Nada». «É d’ El Rei». «As águas das ribeiras são livres».

Senhora da Póvoa e Santa Ana
Acho estranho que no relatório sobre o Casteleiro não haja uma letra sobre a Senhora da Póvoa. Mas, provavelmente, a Senhora da Póvoa não era ainda conhecida fora do Vale. Ao que li, isso só vai acontecer uns anos depois destes textos, lá mais para o fim do séc. XVIII (terá a imagem original realmente vindo à força da Póvoa, perto do Meimão?).
As romagens do Casteleiro eram efectuadas até meia encosta da Serra d’ Opa, à capela de Santa Ana. Quem ia a estas romagens a Santa Ana? «Somente os moradores do mesmo povo» do Casteleiro, diz o cura da terra.
Pelo contrário, as respostas do Padre Olival deixam claro que há muita devoção por ali: «Tem a Senhora da Póvoa muita gente em romaria em todo o decurso do ano e o maior concurso é na segunda e terça do Espírito Santo».
Duas constatações interessantes:
– primeiro: no Casteleiro, a capela de São Francisco (que à data ficava mesmo no limite da terra, repito) estava «sujeita» ao convento de Santo António, em Penamacor. Faço notar a propósito que, hoje, a maior festa anual é a de Santo António;
– segundo: ora, no Vale, a maior festa já era a da Sra. da Póvoa, mas há anotação de outra devoção: Santo Antão. Registo isso só para recordar que Santo Antão é o padroeiro de Sortelha – a maior festa anual da terra. Coincidência ou influência?

Economia farta para a época
Tenho escrito que havia muita actividade económica na minha terra. Agora acrescento que também no Vale. Leia:
Pergunta do Marquês:
Se tem moinhos, lagares de azeite, pisões, noras, ou outro algum engenho?
Respostas:
1. ValeTem esta ribeira de onde principia até à Benquerença quatro lagares de azeite e quatro moinhos.
2. CasteleiroTem dentro do limite desta freguesia esta ribeira sete moinhos e três lagares de azeite, dois pizoins e algum dia teve também um tinte, porém hoje se acha demolido.
Mas há algo em que o Padre Leal, do Casteleiro, falha. Quando lhe perguntam (como aliás ao do Vale) «se em algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias», respondem ambos: «Nada».
Ora, a verdade é que 35 anos antes da data dos documentos destes padres, mais exactamente em 1723, houve uma tentativa de explorar ouro no Casteleiro. Pode ler isso aqui. E era obrigação do Padre Leal dizer isso ao poder central. O Marquês teria mandado abrir minas – e hoje o Casteleiro seria o El Dorado de Portugal!

Notas especiais sobre o Casteleiro
Permitam agora que me dedique um bocadinho só à minha terra. Para duas chamadas: uma sobre o que chamaria o mistério da Serra da Preza e outra sobre a Mitra e a Comenda, que levavam parte dos rendimentos da terra.
1º – Na serra da Preza, havia uma preza. Nada de mais. Mas antigamente (muito antes pois do século XVIII), alguém teria pensado em canalizar a água desse reservatório pois «queriam em tempo antigo levar essa água por canos onde chamam a Torre dos Namorados, distante dela quatro ou cinco léguas».
Este é como que um projecto antecessor do canal de regadio actualmente existente da Meimoa para Sul, para a Cova da Beira…
2º – O Padre Leal regista que aí para sul, nos limites da freguesia, lá para os lados do Escarigo, os rendimentos da terra são assim divididos: «tem a Mitra duas partes em todos os frutos e a Comenda uma». Mas lá para Gralhais, «das Portellas para baixo, tem a mitra duas partes e a Comenda uma, e das Portellas para cima terá a Comenda duas partes e a Mitra uma, em todos os frutos».
Leio na Wikipedia que «uma comenda é um benefício que antigamente era concedido a eclesiásticos» e que a Mitra é afinal também uma «dignidade ou jurisdição de um prelado eclesiástico».
Por fim, uma nota de humor do Padre do Casteleiro: acho que ele estava a gozar com o Terreiro do Paço quando escreveu que na terra há à beira da ribeira oliveiras e amieiros. Mas que os «amieiros, porém, não dão frutos»… Só pode estar a brincar com os lisboetas da altura e a chamar-lhes ignorantes. Deve ter sido uma pequena vingança, pois é sabido que os padres não queriam responder ao Marquês, o que só fizeram depois de ameaçados.

Se pretende aceder ao texto integral das respostas destes dois curas (o do Casteleiro e o do Vale de Lobo), clique aqui – portal para onde levei um cotejo de ambas.

Finalmente, uma nota de agradecimento: o texto sobre o Casteleiro foi trabalhado e disponibilizado por António Marques aqui e o do Vale por Américo Valente aqui (3º tema).
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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