Estando em Manaus, na Amazónia, como contei na última crónica, fui com muita excitação ao passeio no rio, pensando: antes de morrer, poderei vangloriar-me de que já naveguei no Rio Amazonas!

José Jorge CameiraO barco é parecido com aqueles cacilheiros antigos que faziam Lisboa/Cacilhas, antes de haver a Ponte. Na parte de cima havia um lanchinho com muita fruta, queijo e fiambre (presunto, no Brasil). Música, sempre muita música, como em todo o Brasil…
Havia o guia, um cara «légáu», todo cheio de simpatias com este gringo portuga – coisa rara de ser vêr por ali, disse ele. E um outro cara com uma filmadora (máquina de filmar) para gravar todo o passeio e vender as cassetes respectivas a cada um de nós, por 80 reais…
De facto, estar por cima do exacto lugar onde se juntam as águas, ver aquele remoinho de plantas, é visão impossível de esquecer…
O barco acostou numa espécie de grande barcaça ancorada perto da margem (mas que margem, se só via água e plantas?). De um lado uma grande Sala de Venda de Artesanato; do outro a Sala de Refeição onde me fartei de provar os inúmeros petiscos locais, penso que até havia cobra frita.
Depois da refeição fomos ao IGAPÓ, ou seja, parte da floresta inundada pela subida das águas do Rio. O recuo das águas do rio, deixando o leito lamacento à vista, é o IGARAPÉ. Fomos por uma ponte, espécie de jangada comprida, olhar e fotografar as Vitoria-Regiae, mais conhecidas por Nenúfares. Eu, que tenho 1,80m de altura, à vontade me deitava sobre uma e sobrava espaço, portanto uns dois metros de diâmetro. Lindas, verdes, com nervuras castanhas bem nítidas. Por baixo, escondem-se peixinhos… que são procurados pelas piranhas, os famosos peixes dentuços comedores de tudo o que mexe…
Num determinado momento viu-se um grande vulto a 100 metros de distância: era um enorme peixe-boi (mesmo grande como um boi) a devorar um nenúfar…
No regresso para o barco, o guia dá um grito – Ei, meu povo, párem todos!
Uma cobra comprida, totalmente verde, fina, esguia e venenosa viajava de ramo em ramo, passando sem medo mesmo a uns metros do grupo. Côr verde, aviso de veneno…
Houve ainda um passeio de pirogas pelo meio do igapó e outra surpresa nos prepararam – vários meninos vieram ter connosco em barquinhos pequenos trazendo toda a espécie de bichos da selva. Por um real, colocaram-me à volta do meu pescoço uma enorme anaconda, que só eu preferi em vez de uma preguiça ou um saguim (macaco do tamanho da palma da mão).
Olhando as pouco perceptíveis margens do Grande Rio, tão longe estavam, lembrei-me da imensa tarefa «faraónica» que os indígenas de antanho tiveram para tornar produtivas as terras do lado norte do Rio. Não querendo sair das margens por causa da abundância de peixe, transportaram do interior durante séculos grandes quantidades de terra de boa qualidade a fim de terem as suas hortas, regadas pela água ali mesmo à mão. Ainda hoje se descobrem tesouros arqueológicos debaixo dessas terras, entre os quais os conhecidos Vasos Antropormóficos que continham as cinzas dos seus defuntos, vasos esses que são património de elevada protecção pelo Ibama.
Navegando em direcção à foz pode-se visitar cidades fundadas por Portugueses, todas com mais de um milhão de habitantes: Santarém, Arraiolos, Alter do Chão…
Já no barco, de regresso, vejo quase no meio do rio, algo distante, vários barquinhos a motor que se deslocavam para uma barcaça grande presa a uns troncos de algo que parecia ser uma ilhota no meio do rio. Explicou-me o guia que era uma Escola Primária para a criançada. Lá vivia permanentemente uma professora e os pais levavam os filhos de manhã e traziam-nos de volta a casa à tarde, fazendo as refeições nessa ilhota.
Mas que maravilha de organização, pensei eu! Que amor pelas crianças!

Visitar a Amazónia e concretamente a cidade de Manaus foi o concretizar de um sonho da minha juventude. Durante as férias de Agosto passadas na minha Aldeia, um dos passatempos que tinha era a leitura. Foi assim que «vi» a primeira vez o «Pulmão do Mundo» lendo A Selva, de Virgílio Ferreira, e principalmente Os Velhos Marinheiros, obra fantástica de Jorge Amado, escritor brasileiro que deveria ter ganho o Prémio Nobel da Literatura e que influenciou decisavamente a minha personalidade. Nesse livro é impossível esquecer aquela imagem do capitão à força de um barco cujo verdadeiro Capitão morreu na viagem. Na chegada ao Porto de Manaus esse capitão substituto mandou prender o navio com todas as cordas, sendo motivo de chacota na cidade ver-se um navio todo amarrado! Só que nessa noite houve uma tão tremenda tempestade que todos os barcos foram ao fundo menos aquele!
(A aventura na Amazónia continua na próxima crónica…).

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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