Dispersam-se, por todo o território vulgarmente denominado por «Interior Beirão», pequenas aldeias, despojadas de habitantes e em marcha acelerada para a completa desertificação. À primeira vista Peva, distrito da Guarda e concelho de Almeida, poderia ser, apenas, uma delas.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Peva é uma pequena povoação, situada na banda poente do extenso planalto do Côa, algo afastada do rio (já sem o conseguir enxergar) e um pouco arredada das profundezas ribacudanas. Em vez do Côa esgueira-se-lhe aos pés, do lado poente, a Ribeira das Cabras, mais pequena que o rio mas igualmente curvosa, cujo leito se adensa de pedregulhos a espreitar acima da corrente das águas.
Os incêndios têm devastado as margens da ribeira fazendo das encostas circundantes escarpas despidas, cinzentas e desoladas. A única e estreita estrada que se aventura a trepar a altura do planalto, a poente, provém de uma aldeia vizinha, a Atalaia, e atinge Peva por uma entrada secundária.
Peva expõe-se, portanto, alta e plana, servida de ligações rodoviárias, com acesso à autoestrada, para leste, a pouco mais de dois quilómetros, oferecendo a possibilidade de ser visitada por quem goste de se perder na procura de sensações fortes em territórios de famas apagadas, ainda que muitas das vezes, de forma injusta.
Pode, então, chegar-se à aldeia pela sua principal entrada, isto é, do lado nascente, oposto à ribeira. Desse lado não é tanta a ingremidade. Ultrapassa-se uma curta zona verde de pequenos lameiros e de velhos e sombrosos freixos. A seguir entra-se no pequeno povoado e fica-se com a ideia de que, apesar da sua origem se ter perdido no tempo, ainda não está moribundo. São algumas as construções recentes a casar-se com um estilo denunciador de antiguidades, um estilo granítico, sóbrio, tipicamente beirão e razoavelmente conservado. Circula-se, depois, por ruas estreitas até se dar com uma construção maior com ares de instituição. É o Lar da Associação dos Amigos de Peva.
Ora, numa aldeia pequena, uma instituição de tal dimensão, não deixa, per si, de surpreender. Quem entre no território da Associação verifica um exterior vedado e cuidado. Depois surge o edifício, com um interior moderno, pensado de forma prática, bem adaptado aos utentes e decorado com gosto. O rasgar das extensas janelas e vidraças permitem aos utentes sensações específicas simulando-lhes um ambiente exterior, saudável e campestre ainda que permanecendo, comodamente, no interior do edifício.
É frequente avistarem-se, de dentro, a execução de trabalhos agrícolas, vacas a pastar ou pastores a pastorear.
A própria construção circundou um jardim que, assim, se tornou interior contendo um pequeno lago e uma oliveira centenária.
Se eu tivesse que qualificar este contexto diria, muito simplesmente, que se trata de um ambiente «anti stress». Ao constatar-se a existência deste local, pode falar-se de um lugar ideal para quem, depois de uma vida rural de trabalho duro e desgastante, queira manter, na velhice e na alma, a essência de muitas das vivências passadas.
Isto é o que diariamente nos é dado observar. Mas, uma das últimas visitas a minha mãe, para quem escolhi a agradabilidade que descrevo, coincidiu com o dia de S. João. Já fui, por aqui, surpreendido com festas e convívios mas, hoje, adivinhava-se algo diferente. O jardim interior estava transformado numa esplanada onde predominavam ocupantes idosos. Havia mesa posta e lanche a condizer disponível a residentes e visitantes. A animação e a festa eram características do S. João. Não faltava música e baile nem a montanha de rosmaninhos com o boneco de braços abertos, hirto e içado ao alto, num pau estreito, insinuando a dispersão de odores que, aliás, veio a suceder, após a queima das ervas no decorrer da festa. A exalação perfumou e purificou ares, gentes e edifício.
Claro que não é possível passar ao lado de tudo isto. É evidente que não se pode ficar indiferente. É impossível não prever aqui, na direcção desta instituição, uma enorme dinâmica e muito mais que isso. Adivinha-se, também, muita lucidez no traçar dos rumos. Puramente surpreendido, não posso deixar de dar os meus parabéns.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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