Desde miúdos, sempre ouvimos:
– Amanhã à tarde, vamos para a Estrada.
Estes terrenos, «A Estrada», podem ter sido o «canal» por onde passou a antiga via romana principal que ligou Alcântara, na Espanha, a Brácara Augusta (Braga), por um lado, e a Aquae Flaviae (Chaves), por outro.
Isto, se calhar (não é mais que uma tese), e de acordo com uma série de dados que recolhi recentemente.

Estas cerejas vieram da Estrada. Vamos regar as batatas da Estrada. Onde é que anda o padrinho? – Andam todos na Estrada.
Anos e anos de meninice foram passados ao som destas palavras e destes rituais.
Antes de mais, um aviso à navegação, pois a maioria dos que me lêem neste «blog» não são do Casteleiro e quando leram «Estrada», naturalmente pensaram logo na EN 355, a estrada nacional que hoje atravessa a minha aldeia.
Nada disso.
«A Estrada» de que hoje aqui estou a falar é um caminho muito conhecido pois muitas famílias ali exploram (exploravam) os seus terrenos.
Ali tudo se dava: batata, figos, uvas, cerejas, milho, cebola, tomate… sei lá: tudo.
Mas hoje não vou falar de agricultura e sim de rede viária do tempo dos romanos. Pelo que consegui apurar, e conjugando várias informações, entendo que o povo chama estrada a algo que entes de ser um sítio com muita agricultura foi também um sítio por onde passou de facto uma estrada e não um mero caminho para ligar o Casteleiro aos seus locais de agricultura: foi algo bem mais estrutural, mais importante, mais de carácter «nacional» e não apenas local.
Vamos lá então pensar essa tese.

Uma grande via romana: Alcântara / Braga ou Chaves
Antes de mais, analise o mapa das vias existentes no Portugal do tempo da ocupação romana, mapa esse disponibilizado por Américo Valente, que aliás o alterou, e bem, num determinado ponto – como veremos adiante.
Veja a via romana que parte de Alcântara, no território que hoje é Espanha, e que passando por Idanha-a-Velha, seguia para Monsanto, daí para a tão falada Lancia Oppidana (mais ou menos no Vale – de Lobo, hoje, da Senhora da Póvoa).
Daqui, esta grande via romana, seguia para Centum Cellae, subia até Abrunhosa, daí até Viseu, Castro Daire e daí dividia-se: por um lado até Aquae Flaviae; por outra grande via, até Brácara Augusta.

Portela, Ribeira, Casteleiro, Estrada, Santo Amaro
Vamos agora analisar esta via romana ao pormenor aqui na nossa região: veja o recorte do mapa onde podemos ver esta estrada entre Alcântara e Abrunhosa – mas claro que me interessa que se concentre neste pequeno troço: entre Lancia Oppidana e Centum Cellae.
Para a minha tese, vou precisar de concitar algumas informações que lhe pus ao dispor em artigos anteriores.
Primeiro: o Casteleiro antigo ficava bem mais abaixo, perto da Ribeira e eventualmente estendia-se ao lado da Ribeira até ao Tinte…
Segundo: uma via romana bastante importante, mas de carácter regional, vinha do Sul, passava em Caria, seguia pela Ribeira da Cal e para o Sabugal.
Terceiro: o Padre Leal, ao responder ao marquês, em 1758, acentua bem a importância da «Portela», ou seja, o vale-intervalo entre as duas serras da zona da Ribeira: a Serra d’ Opa e a Serra da Preza.
Peço ainda que se recorde do que acima leu: «A Estrada», ligando o Casteleiro a Santo Amaro, era uma grande via, de certeza, e aqui vou agarrar esse ponto para estabelecer um possível traçado da tal Grande Via acima descrita.
Finalmente, quero dizer-lhe que, em miúdo, algumas vezes fui a pé para a romaria da Senhora da Póvoa. E íamos por aquela tal Portela, por «Balcastelões» (Vale de Castelões).
Recorde ainda que Lancia Oppidana, a tal cidade fortificada romana, ficava um pouco acima do actual Santuário da Senhora da Póvoa, a meia encosta da Serra d’ Opa. Isso, para se perceber que a via principal certamente seguia dali não para o que hoje é o Terreiro das Bruxas, mas sim pela tal Portela entre as duas serras.
Veja isso, como num filme em câmara lenta, aí adiante.

Possível traçado da Via Romana neste recanto
Penso então, considerando tudo o que conheço destes locais do Casteleiro e da habitual estrutura da rede viária romana, incluindo a forma como as vias passavam tantas vezes encostadas às encostas, que a Via pode ter passado nos seguintes locais que (agora sim) apenas a malta do Casteleiro vai poder acompanhar com conhecimento de causa (do Vale até Centum Cellae, que é o que ora me interessa):
– Vale / Lancia Oppidana,
– Serra d’ Opa,
– Portela (referida pelo Padre Leal),
– Vale de Castelões,
– Casteleiro antigo, lá em baixo ao pé da Ribeira,
– Caminho ao longo da ribeira,
– Alto das Cruzes,
– Descida para a «Estrada»,
– Percurso ao longo desses terrenos,
– Fundo da Ribeira da Cal,
– Santo Amaro,
– Enguias,
– passagem ao fundo de Belmonte,
– Colmeal da Torre (Centum Cellae),
– Guarda ou próximo,
– Abrunhosa… Etc..

Resumindo: «A Estrada» pode ter sido um troço da grande via romana que atravessou esta zona.
De facto, é preciso lembrar que, aparentemente, no século XVIII podia não existir a actual EN 355, a actual estrada nacional (o Padre Leal diz que a última casa do Casteleiro ficava «a 30 passos da Capela de São Francisco»).
Termino com a seguinte pergunta:
– Por que é que o Povo iria, aliás, chamar «Estrada» a um caminho que não tivesse dantes sido algo mais forte do que isso mesmo: um caminho?
Não. Se lhe chamam «Estrada», é porque ali passou mesmo uma estrada importante.
E hoje eu digo: ali passou seguramente a célebre via romana principal que atravessou toda esta região.

Notas de fecho
1. Com grande surpresa minha, soube esta semana, porque me foi contado por uma amiga de Santo Estêvão que sempre ouviu esta história, que afinal a Senhora da Póvoa (a imagem e a devoção enquanto tal) não surgiu no actual santuário mas sim noutro sítio da região. Onde? Num local chamado exactamente «Póvoa», perto do Meimão, a seguir a Santo Estêvão, de onde foi «roubada», penso que no século XVIII. Vou averiguar melhor tudo isto também, pois interessa-me.
2. Alguém me perguntou como pode ter acesso às peças sobre o Casteleiro. Nada mais simples: basta clicar aqui.
3. Sobre o nome real da Serra d’ Opa e sobre como devemos escrevê-lo, atrevo-me a sugerir que leia aqui a minha resposta a comentário sobre esta matéria.

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes