A semana, avisavam os meteorologistas, iria começar quente. Desta forma, pensei, a semana política, iria adequar-se ao tempo. Quarta-feira com o debate quinzenal com o primeiro-ministro, e em vésperas de um Conselho Europeu, e pelo meio uma Moção de Censura ao governo, apresentada pelo PCP. Semana, ainda temperada com essa meia-final do campeonato europeu de futebol, entre Portugal e Espanha.

Desta última prefiro não falar, pois ainda estou a digerir aqueles postes… Mas quanto à política, alguns apontamentos. Uma moção de censura serve para, obviamente, censurar. Isto é, perscrutar, analisar, verificar, criticar. Serve, na política, para obrigar um governo a explicar a sua governação, as suas atitudes e intenções. Sendo um direito que assiste aos partidos, o PCP, achou por bem ser esta a altura para fazer uso desse direito. Até aqui nada e anormal. Contudo, na actual conjuntura política, ela seria inconsequente. A assembleia possui uma maioria que lhe permite gerir estas pequenas contrariedades. Mas torna-se interessante analisar, como mero exercício, esta opção política agora. Poderia entender-se que faria sentido, visto que o governo faz um ano de poder, mas, na segunda-feira foi visível que, mesmo que ela fizesse sentido na crítica apontada ao governo, não teria qualquer hipótese de ser aprovada. E assim, um instrumento que serve como ultimato, acabou por ser banalizado, sem qualquer repercussão política para o PCP e sem qualquer mossa para o governo. A moção, parecia, resumir-se a uma só questão: vai haver mais austeridade? O que me parece muito pouco para chegar mão de tal arma. A resposta do governo assentou, mais uma vez, no programa do tal memorando. Todavia, houve, da parte do governo, respostas que nos deviam preocupar. O sr primeiro-ministro disse, nas tais respostas sobre a austeridade, «se for necessário haverá uma nova sobretaxa aos subsídios de Natal». O que me leva a concluir que, para além do que impõe a troika, o único plano do governo para governar é sacar subsídios e aplicar impostos! Mas não ouvi o sr primeiro-ministro dizer que iria cortar nas rendas às empresas dos amigalhaços, às mordomias dos membros do governo e afins, acabar com os tachos que andam espalhados pelos ministérios e secretarias de estado e direcções regionais, acabar com as encomendas de estudos aos escritórios de advogados amigos e empresas de primos e afilhados. Não o ouvi dizer que o estado ia deixar de ser padrinho! A única coisa que ouvi foi mais um ataque que se anuncia aos bolsos dos que menos podem. E, contudo, espantam-se com o aumento do desemprego, com a falta de consumo e consequente menos arrecadar de impostos. Mas em que Portugal vive este governo? No do litoral ou no do interior, onde, decididamente, já não existe estado? Diz o governo que quer menos estado, então o interior é o modelo prático deste governo.
E enquanto o governo despachava a moção do PCP, via-se um PS calado, acobardado, lançando ataques ao… PCP! Sim, podem estar ressabiados pelo que se passou há um ano, mas, caramba, são o maior partido da oposição, esperava-se mais politicamente do que um ataque ao PCP, como meninos a quem lhes tiraram a bola na rua e não os deixam jogar! Sim, nós sabemos que têm o rabo entalado pelo tal memorando. Mas, ou admitem estarem presos a ele ou não estão e ponto! Ou vai passar os quatro anos da legislatura a abster-se?
Depois veio o tal debate quinzenal. O sr primeiro-ministro passou o tempo a queixar-se que o que estava agendado era a Europa e que os partidos da oposição só falavam de politica interna. Alguém se esqueceu de avisar o chefe de que estava na agenda a questão interna. E, já agora, a Europa não é uma questão interna? E é cada vez mais! Só não sei se pelas melhores razões. Foi um debate fraco, teimosamente vazio. Onde tudo era previsível.
A semana apresentava-se quente, mas não passou de politicamente quase morno. E fria. Com aqueles postes! A moção do PCP foi ao poste. As respostas do governo foram à trave e o debate foi, também, ao poste.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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