Quando a vera efígie de Sua Excelência começou a aparecer nos jornais, propondo-o ou confirmando-o no posto e pasta de Ministro das Finanças, a sigla desapontou-me. Ou seja, usando linguagem popular, não fui lá com a careta…

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDepois, para tornar ainda mais baças as coisas e desapontadas a fé e a esperança, a desconfiança suscitada pela imagem sofreu, logo a seguir, duas pavorosas causas de agravamento.
O novo membro do Governo era economista e – mais do que isso, professor daquela nebulosa de ciências. E isso revocava-me a prevenção de Charles de Gaulle, segundo a qual nunca se avaliará suficientemente do descalabro para as finanças de um País e o seu ritmo de desenvolvimento que advirá com a praga dos economistas
Aliás nisto o apóstolo da França Livre não fez mais do que retomar a ideia de Salazar que muito antes avisara de igual perigo. Mas enfim, De Gaule não poderá ser apodado de reaccionário, ao passo que Salazar, para a moda, é obscuro,obscurante e obscurantista…
Certo que os leitores, se os houver, estarão a desconfiar dos citrérios do Grande General e general grande que escolheu, para seu braço direito, Georges Pompidu, que além de economista era ainda empregado bancário, mas de alto topo, na casa dos Rotchilds ou Rochfellerrs, o que para mim, monta o menos.
E, no caso de que agora nos ocupamos, Sua Excelência vinha não da Banca, mas da Bolsa, função que obriga ainda mais olho fino e raciocínio ultrarrápido.
Enfim, professor de economia e ex-responsavel pela mais manigante das operações financeiras, quais sejam as da Bolsa, no caso português ainda agravadas por uma fraqueza congénita que obriga a uma permanente atenção sobre manobras de terrorismo facilitadas pela pequenez e tacanhesa do nosso mercado, o novo titular da Pasta das Finanças, não obstante a minha desconfiança só filiada em suspeições obscurantitas era a pessoa indicada para levar a carta a Garcia e reconduzir, pelo seu lado, o País simultaneamente à luminosidade de Pericles e o rigorismo de Solon.
Não haveria mais descalabro nas contas públicas.
Os responsáveis pelo Banco de Portugal, sentindo-se vigiados, repercutiriam sobre todo o sistema alarmes e holofotes… A outra Banca – pública, parapública e privada – com tão luminosos guias e conspectos zeladores, prosperariam na legalidade.
A Bolsa, de onde Sua Excelência viera, disciplinadamene liberta, atingiria a plenitude…
Tão gloriosas previsões toldar-se-iam totalmente.
De precipício em precipício as finanças públicas só pararam nos muros da Troica. O Banco de Portugal, não por carência de meios, mas porque ali quando dormitat Homero, falhou rotundamente. Na privada, foi o BPN, o BPP e o amesquinhamento geral.
O Ministro não se deu conta. E, quando alertado, deixou andar.
O BPN, toda a gente o sabia, era a ampliação da Dona Branca. Mas em vez de ser o banco do povo era o dos notáveis, cujos patrimónios engrossados na agiotagem tinham que ser defendidos à custa do povo que dele não ganhara nada.
Um banco é uma instituição respeitável e os seus clientes têm de ser defendidos. As instituições – bancárias ou parabancárias – transformadas em multiplicadores de parasitárias riquezas não merecem nem por elas nem pelos que a elas se acolhem senão desprezo e punição.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire