Descrevo o que sou descrevendo o que sinto. Descrevo-me, portanto, nas palavras que escrevo.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Descrevo-me retratando vidas, contextos e ambientes construindo narrativas sobre vilas e aldeias antigas, sobre vales e sobre os montes que os cercam.
Existo em palavras de vento e frio, em palavras de neve, geada e névoas, em palavras de sol e calores excessivos, em palavras de cor verde/natureza, em palavras de sabores e odores inócuos e campestres.
Descrevo-me na calma clara das noites de luar e na morna atmosfera das noites estivais. Descrevo-me também nas tempestades que empurram o Inverno. Descrevo-me, ainda, quando escrevo sobre as verduras primaveris ou sobre castanhos outonais.
Descrevo-me no nascer avermelhado das manhãs e no crepúsculo alaranjado do sol-pôr.
Descrevo-me na admiração de montanhas, na contemplação das fundas ravinas que as separam e na gostosa observação das curtas planuras que as intercalam.
Descrevo-me nas maneiras de ser, nos saberes ancestrais, nos hábitos seculares, nos gostos e nas preferências, no trabalho e na alegria, no sofrimento e na dureza, no rigor e na seriedade, enfim, nas vidas das gentes do Interior profundo, encostado à Raia onde nasci e onde partilhei, partilho e partilharei a maior parte da minha existência.
Descrevo-me, assim, na tradição, nas lendas, nas estórias e na história destas terras, nos castros, castrejos e castelos, nas ruas e praças, nas capelas e igrejas, nos monumentos, no antigo e no presente de gente simples e franca, nas festas e romarias, nas diversões, na religiosidade, nos esquecimentos e nos reconhecimentos e também nas palavras de esperança de quem acredita assim como me descrevo nas palavras de amor de quem gosta e de quem ama.
Descrevo-me em palavras de céu e luz, em palavras de noites ou de dias e, ao descrever-me, transformo-me nas palavras que escrevo.
Descrevo-me em palavras de alma cheia que encontro ao fechar os olhos quando quero ver melhor.
Descrevo-me escrevendo de alma exposta e, tudo quanto escrevo, assume em mim uma força interior e infinita que me faz erguer e me faz existir.
Sinto, por isso, que vivo e toco o que vivo, em função do que escrevo. Tudo o que escrevo é tudo o que, para mim, existiu e existe ao alcance do meu sentir e, enquanto escrevo, obtenho a certeza de escrever sobre um mistério de beleza difícil de descrever e custoso de desvendar. Um mistério impossível de existir e, paradoxalmente, de existência verdadeira.
Foi no seio desse mistério que nasci, que me moldei e é nele que me apresento a este presente em que escrevo. Descrevo-me, portanto, tentando descrever tal mistério.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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