A pedra de toque, categoricamente definidora do tónus patriótico – nós diriamos mesmo nacionalista, se ao termo se não tivessem atribuído conceitos e colados preconceitos, todos a enegrece-lo – de qualquer governação, é a carga fiscal e a sua repartição.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão é que os governos profundamente empenhados no bem-estar dos seus povos possam prescindir da tributação mesmo nos anos de grande acalmia. Ou que, nas provações que a História ciclicamente regista, se não tenha de impor sacrifícios. Ainda hoje, e já lá vão três quartos de século, ressoa o anúncio de Churchil quanto ao sangue, suor e lágrimas que exigiria dos britânicos a guerra com a Alemanha Hitleriana.
E o nosso Infante Dom Henrique, símbolo e padrão-mor da Ínclita Geração, sofrendo, embora angustiadamente pelo cativeiro, em Fez, de seu irmão Dom Fernando, o benjamim da Familia Real, de cuja felicidade sua mãe, Dona Filipa de Lencastre o constituíra, garante já no leito de morte, e, portanto, em momento particularmente solene, não entregar Ceuta, como o Miramolim de Marrocos exigia para a libertação, porque Ceuta era propriedade de Deus.
Os governantes têm de impor sacrifícios aos seus povos, mas só têm legitimidade para o fazer se deles comparticiparem e se o móbil for, usando a terminologia tradicional, a Salus Populi, lex summa, à qual todas as demais se têm de sacrificar.
Ora, nos momentos de grande aperto os governos não identificados com a Nação, ao mesmo tempo que se empenham em operações alheias ou mesmo hostis ao interesse geral, porque com ele conflituantes, eximem de dificuldades as suas camarilhas.
Os Filipes impuseram a meia anata, o real de água, vários tributos que hoje diríamos ad valorem. Além de levarem os nossos navios e argonautas para a tragédia da Invencível Armada, totalmente feita em destroços pelos corsários ao serviço de Sua Magestade a Rainha da Inglaterra.
Depois, enquanto franceses e holandeses tripudiavam sobre as nossas parcelas na América do Sul, da Índia e da Insulíndia, o melhor dos tércios portugueses era posto sob o comando de Dom João de Áustria e sacrificado nas Províncias Unidas onde os naturais pretendim sacudir o jugo hispano-germânico.
Pombal, sob o pretexto do desenvolvimento económico de Portugal levou também a cabo uma arrepiante política fiscal. Sarcasticamente, os historiadores do reinado seguinte escreveram que o Sebastião José quis em três dias transformar um chavascal num jardim. Como, perguntavam, dando logo de seguida a resposta e a receita: plantando paus secos, adubando-os com mortos e regando-os com sangue. Como fertilizante, usou ainda as cinzas dos renitentes, que mandou queimar – os pescadores da Trafaria e Monte Gordo, os jesuítas da residência de Gabriel Malagrida e muitos outros que as crónicas omitiram. E quando não queimava pelo fogo, mirrava pelos impostos sobre o vinho, a carne, as maçarocas. Quem ande longe destas coisas que releia «Um motim há seis anos».
Junot e Loison (o Maneta), que nos governaram em nome de Napoleão, também não foram melhores. Nem os vice-reis, primeiro Wellesley e depois Beresford, vindos da nossa tradicional aliada.
Como se vê, mau grado os propósitos de salvação, estrangeiros e estrangeirados sempre nos cobriram de tributos.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

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