Começamos por transcrever do trabalho «Algumas Notas», do geógrafo e sociólogo valedespinhense, que foi também um dos mais notáveis professores do Liceu da Guarda, o saudoso doutor Carlos Alberto Marques, esta constatação.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs povos raianos do Ribacoa são altamente influenciados em toda a sua vida pela Espanha. Vestem-se à espanhola, com fazendas fabricadas na Catalunha. Usam alpergatas ou albarcas que da Espanha vêm. Comem azeitonas e consomem azeite que se produz nas províncias espanholas de Salamanca e Céceres, fumam tabaco espanhol e dançam à espanhola.
Depois, o Autor acrescentava num misto de lamentações com arroubos de amor pátrio: Só, gracias agamus Domino – demos graças a Deus (traduzo eu para quem não tenha sequer uns rudimentos de latim) – não são ainda espanhóis pelo sentimento.
A seguir expressava um receio: O de que, pela força dos costumes e dos hábitos, o sabugalense raiano se venha a espanholizar de tal sorte que perca o amor da sua pátria, enfraquecendo e desfazendo as barreiras nacionais.
Esta ideia ressalta um pouco no Cancioneiro:
Amo e adoro Portugal
Mas não me sai da ideia
Que a Pátria é o guarda fiscal
O citote e a cadeia.

Possivelmente, los pueblos cercanos de Espeja a Las Eljas teriam as mesmas razões de queixa quanto a Manuel Azaña e Casares Quiroga, governantes à epóca, sendo certo que o tempo não corrigiu antes agravou as dissemetrias e do lado de cá e de lá os tratadistas continuam a queixar-se da fronteira do subarrolho
Quando Carlos Marques começou a escrever – antes, pois, da Segunda Guerra Civil Espanhola – as povoações, mesmo os simples hojares de Castela e da Estremadura Cacerenha, dispunham de estruturas que à Raia Sabugalense só chegaram meio século mais tarde.
Alamedilha, modesto pueblocito fronteiro às Batocas,umas vezes referenciado como Del Chozo, outras como Del Azaba, ribeiro feudatário do Águeda e que individualiza vários termos, v g Carpio e Ituero, foi electrificado por Primo de Rivera, nos anos vinte do século passado. Para desespero dos larápios de calle que se queixavam da existência de candeias que alumiavam toda a noite e se não apagavam nem com a chuva nem com o vento, mas para gáudio dos alamedilhos de bem, que eram quase todos.
E para além de energia eléctrica, o burgo dispunha, como todos os outros de escassa população, de um serviço médico, assegurado por um praticante, suponho que facultativo em início de carreira e de uma botica aprovisionada do essencial. Gozava também de apoio administrativo, com um contable, afectado, embora, a várias aldeias, mas com horário certo em todas elas, e até de um pequeno clube, o Manublio, onde à hora da sesta – este nome vem da linguagem canónica (hora de sesta, hora do calor, meio dia solar) – e à noite, se bebia, moderamente por força dos regulamentos, charlava e bailava.
Em Madrid, o Governo estabelecia preços políticos, apoiados para uma extensa série de artigos. Para a pana, barata e que durava uma vida, mesmo nas calças de um moço de campo. Para o calçado, alpergatas de cotio e albarcas, misto de borracha e não sei que mais, mas que até mais do que as calças eram quase eternas. No cesto dos preços protegidos cabia o pão-trigo obrado à espanhola, como nós ainda hoje dizemos, o azeite, de elevado grau de acidez, porque fundia mais, a carne de toucinho, em grandes peças.
E de tudo isso beneficiavamos nós.
Na sazão, chegavam à Raia carregamentos sobre carregamentos de melocotones, laranjas e pimentos para curtir (não-picantes e picantes), gingas garrafais e miúdas. Também havia mimos subsidiados – torrões e galhetas, gomas e açucares. Ou petiscos, como peixe grosso em escabeche, vindo em dornas, toucinho fumado, azeitonas… Havia cigarros fortes e conhaques.
Prevenindo ou tratando doenças lançavam-se no mercado ceregumiles e vinhos nutritivos de carne. E até se propiciavam a baixo preço visnus para as damas e perfumes para secias e peralvinhos – todos com nomes sonoros como maderas del-Oriente ou diamante negro.
Todos esses artigos de preço político chegavam a Portugal, trazidos pelos que iam usá-los ou mais comumente, por contrabandistas de bufarinha. E foram um elemento importante para o dia a dia, as agruras das más horas e a letificação dos dias santificados.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

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