Estava-se em 1758. O Marquês, no início desse ano, mandou perguntar a todos os Padres do País que tutelavam paróquias uma série de coisas sobre a organização local e as potencialidades das aldeias.

O Cura Manuel Pires Leal respondeu pelo Casteleiro a 25 de Abril de 1758. Já falei dessas «Memórias Paroquiais» em síntese global. Hoje trago dois pormenores muito interessantes para reflexão de quem se interessa por estas coisas.
Lendo com pormenor e muita atenção as perguntas do Marquês e as respostas do Cura, ficam algumas hesitações espalhadas pelo nosso cérebro fora…

Hoje, dedico umas linhas a duas dessas dúvidas.
Outras poderão vir mais tarde.
Porque acreditamos que o Padre Leal respondeu com verdade e respeitando a toponímia e a localização dos casarios da época, vem-me à cabeça desde o primeiro dia em que o li, que algo não bate certo com os dias de hoje e que há contradição entre a geografia do tempo do padre e a de hoje…
Se não, leia:

1º – O Casteleiro «mudou de sítio» durante o século XIX?
Isto é: será que o Casteleiro era mais estendido lá para os lados da Ribeira e quase nada cá para os lados da estrada nacional, onde está hoje a maior parte das casas, e será que esse crescimento para o que hoje é se deu durante o século XIX? E porquê?
Atenção: na altura (século XVIII) eram apenas 500 pessoas que aqui habitavam. É certo que hoje são um pouco menos, mas já chegaram a ser perto de 1 500, antes da emigração, segundo creio.
Tenho quase a certeza de que assim era. Mas mantenho a interrogação, para já.
Vamos então à minha dúvida.
Lendo uma das respostas do Cura da Freguesia, pode parecer que o Casteleiro no século XVIII não ficava no mesmo local onde hoje está. E pode de facto ter havido um crescimento para cima. Eu explico: hoje, sem dúvida, a aldeia está organizada sobretudo em relação à estrada. O domínio crescente do automóvel durante o século XX, sobretudo a partir da II Guerra Mundial, deve ter tido essa influência: a terra que estava virada mais para a Ribeira e para Sul, agora apresenta-se mais a Norte e alargou naturalmente ao longo da estrada nacional.
De facto, à pergunta do Terreiro do Paço «Se a paróquia está fora do lugar ou dentro delle», o Padre Leal respondeu assim, com a naturalidade de um espírito rural para quem nada mais havia do que a agricultura e por isso tomando a ribeira e Cantargalo como o centro da vida dos aldeões:
«A paróquia está feita no lugar e logo junto às casas, tem uma quinta que chamam Cantargalo tem um morador; e tem outra que chamam do Espirito Santo, tem outro morador».
Repare: Cantargalo tinha um morador, era uma quinta, está «logo junto às casas».
Por isso é que me ocorre que de duas uma:
a)- ou a aldeia se espalhava muito mais do que hoje acontece ao longo da ribeira (Cantargalo hoje fica a uns bons 1 500 metros do Alvarcão, últimos terrenos com uma casa); ou
b)- o Cura Leal chamou Cantargalo ao que hoje se chama Ribeira, depois, a seguir, Tinte – é que só depois é que vem aquilo a que hoje chamamos Cantargalo…
O que me parece verosímil é que a aldeia há 250 anos se localizasse mais lá para baixo para a Carreirinha e para a Ribeira e que só mais tarde, no século seguinte, tenha começado a estender-se para cima, na direcção da estrada romana – por onde depois acabaria por ser delineada a Estrada Nacional nº 345.
Mais e mais garantido: o Padre diz aí em baixo que há uma capela de «S. Francisco que está fora do lugar quase trinta passos». É isso, não posso ter qualquer dúvida. A aldeia desenvolvia-se para Sul, vinha de Cantargalo (deve ser exagero do Padre Leal) e chegava até ao Reduto ou um pouco mais acima. Disso não podemos ter dúvidas. Porque é o Padre Leal que o afirma peremptoriamente, quando diz que a capela de São Francisco (no Largo de São Francisco) fica fora do lugar quase 30 passos.
Ou seja: a aldeia terminava antes do Terreiro de São Francisco!
Mais propriamente: terminava 30 passos antes.
Mistérios insondáveis…

2º – Haveria a meia encosta da Serra d’Opa um pequeno povoado chamado Santa Ana?
Antes de mais, uma coisa importante e já várias vezes discutida aqui no «Capeia».
Note que o padre Leal escreve «Serra d’Opa» (ver abaixo), tal e qual como já uma vez aqui defendi que se devia dizer e não «Serra da Opa» nem nada que se pareça. Há que respeitar essa pronúncia popular – o Padre de certeza que não inventou essa grafia: antes pretendeu com ela reproduzir o linguajar do Povo da «sua» terra…

Voltando à minha hipótese: haveria a meia encosta da Serra d’Opa um pequeno povoado chamado Santa Ana?
Eu explico onde fui buscar essa ideia.
Num primeiro grupo de respostas, pareceu-me que a expressão «o mesmo povo» se referia ao Casteleiro propriamente dito e nem me passou pela cabeça que fosse outra coisa.
Mas mais tarde, ao ler com mais atenção, a ideia ficou presa cá dentro: será que havia ali a meia encosta um aldeamento?
Veja por si mesmo. Baseio a dúvida em dois grupos de respostas do Cura ao Marquês:

1º grupo de respostas do Padre Leal: «À ermida de Santa Ana costumam os moradores do mesmo povo fazer romagem». «Tem quatro ermidas. Uma de S. Sebastião, esta está fora do lugar quase cem passos, e outra do Divino Espírito Santo, esta está dentro do lugar, e outra de Santa Ana, esta está fora do lugar à distância de meia légua, e outra de S. Francisco que está fora do lugar quase trinta passos e nela está erecta a irmandade dos terceiros, sujeita ao convento de Santo António da vila de Penamacor e todas estam sujeitas à igreja matriz do dito lugar de Casteleiro».
«Mesmo povo», repare. É o que o Padre escreve, sem que eu possa garantir de que «povo» (aldeia) se trata.

2º grupo de respostas: «Quase no meio da serra chamada d’Opa está a Ermida da Sancta Anna, acima já declarada, e somente os moradores do mesmo povo costumam ir lá em romagem algumas vezes».

«Os moradores do mesmo povo» (povo aqui significa claramente também aldeia) serão então os moradores do Casteleiro ou os moradores de Santa Ana?
Não sei.
Não consigo afirmar. Só coloco na interrogativa: haveria a meia encosta da Serra d’Opa um pequeno povoado chamado Santa Ana, pertencente à Freguesia do Casteleiro e hoje totalmente desaparecido?
Custa-me a crer que não deixasse restos, mas a redacção do Padre permite-me pelo menos colocar-lhe a dúvida a si…
Se quiser seguir passo a passo as «Memórias», digo-lhe mais uma vez que basta seguir o link, ou seja: basta clicar aqui.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Anúncios