Substantivo masculino de origem grega, «abismo» significa, entre outras coisas, precipício, barranco. Pode significar profundeza, insondável, distância enorme.

Ora, durante um jantar promovido pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã, o sr. Primeiro ministro afirmou que «Os portugueses já não estão perante o abismo com que nos defrontámos há praticamente um ano atrás». Assim, de forma perentória. Foi quando reparei que os portugueses olhavam para cima. Sim, já não estamos perante o abismo. Estamos no fundo do abismo. Os portugueses estão mais pobres. O desemprego aumentou assustadoramente. A falência das empresas conta-se por números com quatro dígitos diariamente. A economia está parada. A saúde e a justiça estão cada vez mais longe dos portugueses e mais perto dos ricos e poderosos. A educação é uma farsa. O estado abdica da soberania de grande parte do seu território, abandonando-o. Fechando todo e qualquer serviço estatal que prestava à população. Sim, existe um abismo. Um abismo entre o governo e os portugueses.
Pode-se argumentar que as medidas são as constantes no memorando assinado com a troika. Não me parece que seja tanto assim. Muitas das decisões são políticas e não impostas pela troika. É a linha política defendida por este governo e pelos partidos que o formam. A troika não conhece Portugal, dirão. Então, era importante que o governo fosse, no mínimo, um bom relações públicas. Mas comporta-se como mero estafeta, menino de fretes e de recados. Enquanto os portugueses se afundam no abismo, este governo incha-se de vaidade por três tretas de elogios. Escrevi-o e reafirmo-o, no final espero que ainda haja Portugal… Ou somente o abismo?
Esta semana o ministro da Educação e Ciência fez publicar um decreto com a organização do próximo ano lectivo. Sem consultar ninguém. E, mais uma vez, confirma-se que a educação é um mero tubo de ensaio. Atente-se ao Estatuto do Aluno: agravam-se as «penas», castigam-se os pais com coimas, mas… onde se insere a responsabilização, o dever, do aluno enquanto estudante? Nada. Insiste-se na teimosia que, o reforço da autoridade do professor, está no estatuto do aluno. E o estatuto do professor? A responsabilidade dos pais deve centrar-se na educação, e isto implica a transmissão de valores, princípios, regras. Que importa cobrar coimas se, pagando, tudo fica na mesma? Muitas vezes, os alunos têm um comportamento, digamos, desleixado, precisamente por ausência desses valores e princípios. A reprovação por desleixo do aluno, quer no comprimento de regras quer na obrigação, e sublinho obrigação, porque estudar não é só um direito é, também, um dever, se estiver abrangido por escalão, deveria ser privado no ano seguinte. Infelizmente, muitos alunos só vão à escola, não para assistir às aulas, mas para comer de borla!
Os mega-agrupamentos, tão badalados pelo bloco central, não passam de decisões economicistas. De pedagógico não têm nada. Ainda por cima, feitos a régua e esquadro, ignorando a geografia, a diversidade e identidade cultural, a vontade dos cidadãos (já que neste burgo estes, os cidadãos, não contam para nada, a não ser em vésperas de eleições)… Tal como a reforma das freguesias!
No fundo, o senhor professor Crato, andou durante anos a criticar os seus (suas) antecessores, com um discurso contra o facilitismo, tem-se pautado por medidas facilitistas. Estruturalmente mal fundamentadas e pessimamente argumentadas. Agora são, como medida de autonomia, a possibilidade de as escolas com melhores resultados poderem contratar mais professores! Como? Então, não deviam ser as escolas que apresentam piores resultados a poderem contratar mais professores? E lá voltamos a ignorar o país e as suas assimetrias sociais, económicas e geográficas. Dir-me-ão que tem que ser, porque não há dinheiro. Há. Mas não é para investir no presente e no futuro dos portugueses. Há. Mas é para os abutres que rodeiam a mesa do orçamento do estado. É o abismo.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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