Na sua última charla de grande conselheiro, que foi para o ar dia 28 de Maio, o comentarista Luís Filipe de Meneses fez preceder os seus considerandos de uma declaração de profunda amizade e de total consonância ideológica com o agora em vias de proscrição, Miguel Relvas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA amizade é uma das maiores virtudes humanas que Cícero,no seu famoso tratado De Amicicia, naturalmente livre pensador, antepunha a todas as outras, e que nós, marcados pelo pensamento católico, colocamos logo a seguir às teologais.
Para além de exprimir sentimentos, a declaração, para nós que não somos amigos do visado e nem sequer partilhantes do seu democratismo social, arrasta logo uma confissão de total parcialidade. É que como já assinalara o prático Aristóteles, com amizade até o corvo é branco.
E estas associações de socorros mútuos, que são as ideologias político-partidárias, mesmo quando vêm em defesa de correlegionários isentos de toda a mácula, prestam um mau serviço aos que visam defender. Com efeito, o homem da rua, o cidadão comum, que não vive da Política tem uma visão terrivelmente negativa daqueles que se incrustaram nos partidos e que, não tendo nunca exercido uma profissão sujeita ás leis do mercado ou havendo falhado nela, ascenderam unicamente por uma via – genericamente considerada ínvia – a um estatuto altamente privilegiado e contrastante com a mediania ou até a envergonhada pobreza dos que não quiseram ser nem carreiristas, nem carneiristas.
E verdade, custe ou não admiti-lo, é que existem em Portugal bandos de licenciados em Medicina ou Direito, nas mais diversas engenharias ou em díspares economias, ou até em curso sem mercados, que saltam das câmaras para o governo, das empresas públicas para o Parlamento, dos monopólios estaduais para oligopólios de padrinhos e que nunca deram provas de competência, e que numa economia de mercado dificilmente subsistiriam individualmente e colocados em empresas não protegidas as conduziriam à falência. Os membros destes bandos perenizam-se em si próprios e criam filhos, genros e afilhados que vão pelo mesmo caminho.
Esta república que substituiu um estado de direito perfeitamente estruturado até ao Consulado de Caetano já assegura, mau grado não ter ainda meio século, empregos de excelência a filhos e netos dos primeiros Patres Patriae.
Repugna-lhes a hereditariedade monárquica, apesar de saberem que os príncipes eram educados desde o nascimento para o duro ofício de reinar. Mas transmitem aos que lhes são próximos, comendas e prebendas. E para eles não há sequer limite de nada.
Publicou-se uma lei a estabelecer o número máximo de mandatos municipais – torneia-se mudando de município. Publicou-se outra lei, tabelando vencimentos – mandam-na às malvas, alardeando competências.
Suas Excelências deviam ir era para as empresas não monopolistas, porque nestas qualquer brilha. Mas mesmo nas de maior fracasso – TAP, CP… – os vencimentos não baixam.
Em Portugal, não se premeia o mérito, mas a fidelidade política e o conhecimento dos bastidores.
O caso do grande espião é paradigmático. Vale pelos segredos de Estado e do Estado.
Salazar podia ter muitos defeitos, mas escolhia os ministros pela sua capacidade. Duarte Pacheco, Manuel Rodrigues, Adriano Moreira, Franco Nogueira, os últimos ministros que escolheu para as Finanças. Em relaçao a estes, um velho colega do Seminário e Faculdade advertiu-o: «Ó Antonio, olha que eles não defendem o Regime». «Pois não, o regime defendo-o eu, quero é que eles defendam o escudo».
Com este espírito do supremo interesse nacional, aconselhava que se lesse Mestre Aquilino, inimigo do Regime.
É este espírito de grandeza que falta aos políticos de profissão, que prestariam um grande serviço se se deixassem substituir, não se perenizassem por si mesmos, nem praticassem regras de sucessão.
«Caso da Semana», opinião de Manuel Leal Freire

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