Um destes dias (de uma Primavera tardia que parece querer disfarça-se de Verão) fui chamado, pela festa, a Castelo Mendo e tive oportunidade de me sentar em sítio propício à observação. Surgiu-me, assim, pretexto para contar e, o que a vista me ofereceu, levou–me a começar por «era uma vez».

Castelo Mendo - Ruta de los Castillos

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Era, então, uma vez uma aldeia de pedra, muito antiga e muralhada. As ruas eram estreitas e curvosas. O chão era de granito irregular. As casas eram pequenas e sóbrias e com telhas de barro castanho/avermelhado. As portas das casas eram baixas e as janelas desenhavam pequenos quadrados enfeitados com vasos de flores. Entrava-se, na aldeia, por uma porta rasgada na muralha.
À entrada o largo com tílias grandes e sombrosas ajudava a construir um cenário que me trouxe à memória os contos de fadas e os livros de leituras infantis.
Num olhar mais largo, confirmavam-se, no horizonte, as escarpas da margem esquerdina do Rio Coa que ali se abria, abruptamente, num vale (qual clareira entre montes) às portas do concelho de Almeida. No centro do vale empolava-se uma colina, que tentava, sem conseguir, equivaler-se às alturas circundantes. A orlar o cimo da colina surgia, sobranceira, a antiquíssima Vila de Castelo Mendo, qual página histórica, escrita de lutas e defesas antigas. Há, de facto, supremacia das alturas sobre o chão do vale e a durabilidade granítica das muralhas ainda decora e preserva o ambiente medievo provando resistências de outros tempos.
Da aldeia, olhando em redor, observam-se encostas e cumes pontuados de rochas cujos intervalos se enchem de ervas, giestas, carrascos e carvalhos, estes com folhas achatadas, elevando-se a cima da restante vegetação e crescendo para além de si mesmos. Agora, em época de Primavera, as giestas baixas e coloridas pelas maias pintam os campos lembrando extensos jardins amarelos a perfumar ambientes primaveris. Havia, claro, algumas (poucas) terras cultivadas, bastante próximas do rio verde que descansa na passividade calada do vértice fundeiro do vale.
A aldeia apresenta-se, assim, ao visitante, como uma proposta agradável, impressa numa extensa página de natureza e oferecendo, primeiro, a muralha, depois as três igrejas, o pelourinho, as casas, as ruas e os pequenos largos, tudo enraizado na época medieval. A modernidade acrescentou-lhe, já, um pequeno museu de arte sacra, um café, um bar de uma associação e algumas casas de turismo rural.
Da Igreja de Santa Maria, a mais alta, em ruinas, surgem espetaculares vistas sobre o Côa e os olhares podem, então, perder-se seguindo a estreiteza e a austeridade das margens, lá por onde se distendem as águas do rio, mansas este ano, numa direta relação com a fraca intensidade das chuvas.
Castelo Mendo é uma aldeia histórica, no verdadeiro sentido da palavra, que não disfarça profundas antiguidades. É sitio onde a história lançou raízes e, agora grita memórias guardadas em cada monumento, em cada recanto ou, até, entre as sombras.
Permito-me comparar esta a outras aldeias deste interior profundo, encostadas à raia, que me fazem lembrar pérolas dispersas a exalar perfumes históricos.
O prazer que obtenho ao percorrer estas aldeias e ao perder-me de sítio em sítio como se procurasse histórias ou lendas do meu próprio imaginário é, de facto, difícil de descrever.
Durante o ano Castelo Mendo veste-se de festa várias vezes e regressa a vários passados, uns mais profundos que outros. Na festa de treze de maio vai, apenas, até meados de século passado mas, com a Feira Medieval, regressa ao século XII. Neste evento anual recriam-se culturas, usos e costumes antigos, ceias e torneios medievais e a aldeia enche-se, de personagens vestidos a preceito num imperativo retorno a toda a antiguidade da terra.
É, então, daqui, desta observação, de hoje, que me atrevo a propor uma visita a esta raia de castelos e muralhas, de cor verde/amarelada e, sempre, prenhe de história.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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