A minha chegada ao Sabugal teve também um certo impacto nas Colegas, nas meninas. Esquisito, mas elas olhavam para mim com ar de quem via uma ave rara…Se calhar era porque viam sempre os mesmos rapazes da Vila, ano após ano. Eu era sangue novo naquela acalmia social!

José Jorge CameiraOlhares matreiros, sorrizinhos, joguinhos de olhos, bilhetinhos com mimos atirados para mim durante as aulas… a minha auto-estima subiu para valores inimagináveis !
Até cheguei a pensar que afinal eu era um rapaz bonito, catancho!
Houve uma menina que me chamou uma atenção especial. Era aloirada, olhos azuis, rosto redondo, de coranço rápido, vestidinhos amarelos, verdes, limpíssima, exalava meiguice, inacessível … E não era menina fácil, nem me dirigia especiais olhares…
Um dia, numa festa no Externato, até declamei um poema dedicado a ela! Eu que sempre detestei poesias, tive que procurar um poema adequado num livro antigo, não fossem descobrir que o dito poema não fora da minha lavra…
Mas eu já sabia, apesar dos meus verdes 18 anos, que um rapaz com tempo e paciência, consegue namorar com qualquer rapariga que deseje ou escolha! Bastava marcar a «presa»! Mais tarde ou mais cedo, seria minha namorada, eram favas contadas!
Tinha o meu objectivo supremo quase alcançado – namorar com a difícil Colega – quando um dia, no fim dum período, fomos esperar as camionetas que traziam os estudantes da região da Guarda.
Estava eu com a minha mão tocando de raspão na mão dela (de bmão dada era impossível), quando da camioneta saiu uma estudante que eu não conhecia, que se me dirigiu e disse:
– Tu és o Zé Jorge?
– Sou…
– A tua namorada não pôde vir e manda-te cumprimentos…
O chão desabou sob mim, senti as pernas perderem força, quase que desmaiei! A menina dos meus olhos, ali ao meu lado, corou e abandonou-me logo ali para sempre, de nada valendo os meus bilhetinhos e inúmeros argumentos sobre a falsidade do acontecido.
Dessa vez senti-me injustiçado. Tanto trabalho, tanto ardor… para nada, era ali o fim do meu sacrifício! Era mentira e nem sei até hoje como e quem forjou aquela armadilha! Talvez tivesse sido a mando do gajo com quem ela casou…

Sendo eu do Vale e estudando no Sabugal, onde se faziam grandes jogatanas no campo pelado do Sporting Clube do Sabugal, foi natural eu organizar um jogo de futebol entre a malta do Vale e colegas do Externato.
Num domingo combinado, eis que a minha aldeia é atravessada por um vistosa camioneta com a bandeira do Sporting do Sabugal. O Alexandrino, o capitão dos sabugalenses e colega do 4ºano, diz-me então:
– Zé Jorge, cá estamos nós, não te aflijas porque veio a equipa de juniores do Sporting. A malta do Externato afinal não apareceu e então viemos nós, fazemos um treinozinho nas calmas…
– Alexandrino, não foi isso que combinámos e assim vamos levar uma abada!
Lá fomos para o nosso estádio – aquela nesga de terreno em frente à porta da Ermida da Senhora da Póvoa.
A nossa equipa reuniu e dissemos todos: a nossa única esperança são as árvores. Os gajos do Sabugal são melhores que nós, mas não sabem das árvores e vão marrar nelas de certeza, até pode ser que a gente ganhe com a ajuda da Senhora da Póvoa!
– E tu, Zé Jorge, como és alto, ficas à baliza!
Bem… aconteceu mesmo a tal abada! Os gajos do Sporting pareciam endiabrados e nem as árvores os paravam. Chocavam com elas a toda a hora, sim, mas levantavam-se logo!
Perdemos e por 7 secos!
No fim do jogo, uma mulher que estava sentada no paredão ali mesmo perto do coreto, vem a correr na minha direcção, arreia-me várias vezes com a sombrinha e grita bem alto e repetidamente:
– Traidor ! Vendido ! Zé Preto dum raio!
(Na aldeia era esse o meu nome e não Zé Jorge. Por que a minha pele era morena, mesmo escurinha…)
Durante o meu 5ºano de Ciências, quando me apercebi que conseguia manter a média de 12 valores, decidi organizar um grande convívio (baile e jogo de futebol) entre a malta do Externato e alunos do Colégio de S. José da Guarda, conhecia muita malta de lá e entre eles o António Marques. Correu tudo bem: o jogo ganhámos por 2-0 (eu com uma bela exibição que quase fui chamado para internacional junior) e o baile abrilhantado pelo gira-discos do Nélito Alexandrino correu do melhor, as meninas foram aos «milhares» dançar preferentemente com os rapazes da Guarda, mesmo com o cheiro a suor da jogatana, banho só lá em casa na Guarda…
Conheci o António Marques quando eu era estudante no Outeiro de S. Miguel, teria uns 16 anos. Um dia disse-me:
– Ó Jorge, vamos a Pinhel. Vamos ver as meninas que dizem ser lindas e jeitosas…
Levou-me a casa dele (o pai era um conhecido professor egitaniense) e perante o meu espanto pegou da garagem o Carocha preto do pai e lá fomos até Pinhel, mesmo sem carta de condução.
O António vivia numa cidade, a Guarda, que nos meses de Verão enchia-se de milhares de turistas. Para compensar do frio dos Invernos…
Conheceu no Jardim Público e durante as Festas de Agosto uma jovem turista sueca que estava acampada com os pais no Parque de Campismo. Era lindíssima, cabelos loiros compridos, olhos azuis e um corpo atlético que todos olhavam…
O meu amigo entrou em intimidade total com ela. Diariamente bebia e abusava daquele mel e o feitiço tomou conta dos seus sentidos, a ponto de querer convencê-la a ficar na Guarda! Mas que ilusão mais maluca!
Os pais dela, após 15 dias na cidade, pegaram na caravana e foram para outras paragens, foi para isso que vieram da Suécia, para férias…
Foi depois daquele jogo de futebol do Sabugal, em que eu e o António Marques jogámos como adversários, que eu soube da notícia que me derrotou a alma durante muito tempo:
O António, roído de saudades da sua linda sueca, foi à casa de banho do Jardim da Guarda e ali mesmo pôs termo à vida!
Mas que desperdício!
Ali bem perto do campo de futebol do Sporting, onde se realizou o tal jogo contra o Colégio de S. José, vivia numa moradia uma linda e prendada menina que namorava um rapaz da Vila que não era lá muito masculino. Houve até um colega que afirmou peremptoriamente que espreitou atrevidamente pela janela da casa e viu-o a fazer bordados…
Passados uns anos fiquei a saber que essa menina afinal não casou com o rapaz dos «bordados» e é hoje a companheira dum meu amigo de sempre dos Fóios…
Neste Externato consegui um relativo sucesso escolar: após fazer o 4ºano, no ano seguinte decidi como aluno-maior preparar-me para a Secção de Ciências do antigo 5ºano.
Fiz todas as provas escritas e orais no Liceu da Guarda e consegui a média que eu estabeleci: 12 valores… ena cum catano!!
Porque mais do que esta nota, seria privar-me de muita coisa!!!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

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