Os poetas, nas palavras de Erasmo, «formam uma raça independente, que constantemente se preocupa em seduzir os ouvidos dos loucos com coisas insignificantes e com fábulas ridículas. É espantoso que com tal proeza se julguem dignos da imortalidade». E continua: «esta espécie de homens, está, acima de tudo, ao serviço do Amor-Próprio e da Adulação». E dizia isto Erasmo, não por julgar a poesia um género literário menor, mas por saber que o mudo da poesia é o da adulação e da crítica elogiosa, com que de poetas medíocres, se fazem poetas da moda. (parte 2 de 4).

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaApós a leitura de uma obra poética, analisando um estilo, um tema, uma originalidade, uma técnica, uma escola, podemos dizer que ela é talentosa, sublime, genial. Pensamos evidentemente, que o seu criador é, por isso, talentoso, sublime, genial. Mas isto são conceitos que tentam explicar mecanismos psicológicos. O que significam cada um deles? Existem de facto? Existem só em determinados indivíduos, ditos artistas, e não nos outros?
Donde, falar de homem vocacionado, talentoso, genial, é falar de conceitos que, tendo evidente utilidade instrumental, são escassos como explicação de um processo criativo.
Podemos dizer portanto que uma obra é genial, mas já dificilmente isso se pode afirmar de um artista, porque a explicação da criatividade artística é mais uma questão de psicologia; o que nos remete para a conclusão de que a compreensão da criatividade estética de um poeta deve ter em conta a compreensão da sua natureza. Isto leva-nos a Manuel Leal Freire e ao seguinte poema sobre a Capeia:

Negro
Mais negro que os fogueiros ào inferno;
Gordo,
Mais gordo que as mulheres de um rei negróide;
Bufão,
Mais bufão do que Noto, Eolo e Bóreas à compita;
Veloz,
Mais veloz que os golfinhos de Nereu –
Entrou na praça o boi galhardo.
Escarvando,
Olfacteou o argiloso chão,
Com um ar de Satã alucinado.Depois,
Erguendo a cabeça,
Achou pequenas a pequenez da praça
E a amplidão dos céus.
Depois, ainda,
Mugiu
Em ódio clamoroso e clangoroso.
Então,
A praça entrou nos delírios do pavor.
O forcão
Quedou-se desamparado
No meio do terreiro
E os capinhas galgaram em pânico
O espaço que os separava das trincheiras.
Sozinho,
No meio da praça,
O boi,
Já gigante,
Mais se agigantava.
Empoleirado num carro,
Exalçado a lenha
E enfeitado a colchas,
O tamborileiro rufava,
Querendo rebentar o velho bode.
Então os solteiros ganharam coragem
E, saltando aos magotes para a arena,
Imobilizaram o boi
Entre os aplausos dos homens
E os gritos das mulheres.

Este poema é de inegável beleza; provoca sentimento de prazer. Mas porque digo isto deste poema, e dos anteriores não?
A resposta está no temperamento, carácter diferente de quem os criou, isto é, a criatividade que está na origem dos diferentes poemas baseia-se também em personalidades diferentes. E que tipo de personalidades são esses?
Ao contrário da anterior, que é plana, a personalidade de Leal Freire é redonda, ideativa-criativa, poética, pela facilidade que tem em pôr, de forma artística, um pensamento em verso, aliando a sensibilidade estética (formal), à sensibilidade ética (criativa).
O autor dos poemas anteriores «arruma» versos; Leal Freire, personalidade artística, vive a vida como uma forma de arte, revive no dia a dia a sua fantasia, o lúdico, o sonho, que transporta para o quotidiano o seu sonho artístico, como se vê sobejamente no seu poema «Capeia».
É que a poesia é arte, e como tal, coisa do espirito que só conhecemos tendo educado um apurado sentido ético e estético. Por isso a poesia é coisa para ser tratada com a seriedade da filosofia, como faremos daqui para diante.
Quem melhor perceberam isto nos tempos modernos foram Hegel e Kant, ambos partindo de Platão no diálogo com Hippias maior, da ideia geral do belo, para elaborar uma «filosofia da arte» ou da poesia. Aquele tratando a poesia como as restantes manifestações de arte, mas a mais sublime entre elas; este referindo-se expressamente à poesia.
Para Hegel, como podemos ver na Introduction à l’Esthétique, Aubier, Paris, 1964, tradução de Mirian Magda Giannella, o belo existe aqui e em todo lugar ao redor de nós, intervindo «em todas as circunstâncias da vida» como um «génio amistoso que reencontramos em todo lugar».
E – não é para nos espantarmos – o único belo que o interessa é o belo artístico, o das produções humanas, excluindo-se o belo natural, porque aquele, sendo produção do espírito e comunicando a sua superioridade aos seus produtos e à arte, é superior a este.
Uma das consequências dessa superioridade incontestável do espírito é que a arte não deve imitar a natureza, ao contrário do que defendia Aristóteles, mas expressar o belo, porque o seu objetivo não é de satisfazer a lembrança, mas a alma, o espírito.
A prova é que a arte sempre simbolizou, representou, figurou o sentimento religioso do homem ou sua aspiração à sabedoria, sendo graças aos vestígios artísticos das civilizações e das culturas antigas, que podemos reconstituir o que foram as ideias e as crenças que animavam os homens das épocas anteriores.
E por isso é que para Hegel, a ideia do belo é a própria realidade concreta que toma a forma sensível do belo artístico, um pensamento que não é atividade passiva, recolhimento ou distanciamento, mas na faculdade activa responsável pelo domínio da criatividade, da capacidade de criar formas e instaurar significados, contrário de Platão, para quem a ideia do Belo, como a do Verdadeiro e do Bem, é abstrata, a-temporal, a-histórica.
Por sua vez, na Crítica da Faculdade do Juízo, Kant distingue entre beleza pura e livre (arte à grega) e beleza dependente (conceito): A primeira, encontra-se exclusivamente na forma, sem qualquer conceito (ex. música sem palavra e determinadas artes decorativas) que agrada pela forma pura; a segunda depende de algum conceito, o qual perturba a nossa relação com o objecto.
Quando a beleza depende dos conceitos, como a poesia, somos determinados por algo cognitivo da nossa relação com a forma que atrapalha esta nossa relação com a forma. Estes conceitos podem ser determinados, com um determinação objectiva, criados através de algo no objecto que determina esses conceitos (ex. o conceito de mesa depende daquilo que é o objecto mesa, em que para atingirmos o conceito de mesa temos de encontra um objecto externo correspondente), ou indeterminados, sem referência externa (ex. conceito de Bem-aventurança, Vida Além-túmulo, Beleza).
O nosso entendimento, o nosso sistema cognitivo, está montado expressamente para unificar os dados da experiência e para nos conduzir a conceitos objectivos claros e distintos e não encontrando este tipo de conceitos, a imaginação vai propor-lhe imagens, aquilo a que Kant chama ideias estéticas, de modo a encontrar um correspondente objectivo para estes conceitos.
A arte dedica-se precisamente a isto, à tentativa de criar imagens (ideias estéticas, segundo Kant) para conceitos indeterminados. Por exemplo, para o conceito de beleza seria representada por uma imagem da mitologia, o Pavão de Juno. Outro exemplo é a forma como Kant representa o cosmopolitismo, escolhendo um verso de Frederico II, em que este descrevia um belo pôr-do-sol e a certa altura compreendemos que ele está a falar de si próprio no fim da vida, tal como o Sol deu a volta ao mundo e compreendeu todas as coisas também o homem cosmopolita conheceu tudo, deu a volta ao mundo e pode descansar tranquilamente.
(Continua)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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