É verdade querido leitor(a), muito deve o nosso País e principalmente o nosso Concelho aos emigrantes. A emigração está sempre ligada à economia, por isso, o «milagre económico» da Europa pós II Guerra Mundial dependeu muito da contribuição dos emigrantes e das remessas que mandavam para casa. Remessas essas que em Portugal correspondiam a 50 por cento do lucro das exportações do País.

António EmidioEste artigo não irá falar da componente económica da emigração no nosso Concelho, mas sim no começo de uma transformação cultural, social e também, em menor grau, política, que esta mesma emigração nos trouxe, principalmente pós Maio de 68 em França.
Foi tremendo o choque cultural de quem saiu de uma região como a nossa, predominantemente agrícola, onde nada havia e nada se passava, onde a luz eléctrica era uma raridade e outras necessidades básicas do homem eram um luxo ao alcance somente de uma pequena classe social e, mesmo esta não nadava num mar de abundância. A Guerra do Ultramar era muito distante e «silenciosa» as cartas dos soldados para as suas famílias eram lidas na maior parte das vezes por outrem, porque o analfabetismo a isso obrigava. Eramos um País isolado que olhava para o Atlântico, para o Império e para o Brasil. O Brasil tinha sido destino da emigração portuguesa desde o século XIX, a Argentina, outro país atlântico, tinha-o sido em princípios do século XX.
O que era a Europa? Uma desconhecida. Para Leste, o mais longe onde chegava a percepção de país e continente era até ao Pirenéus, era a nossa vizinha Espanha, companheira de ditadura, de emigração e de um nacional-catolicismo. Até que um dia alguém nos ensinou o que era a Europa, foram os emigrantes. O mês das suas férias, Agosto, converteu-se num mês de cor e alegria, de Liberdade, de rebeldia e de rechaço ao poder político que nos dominava. Conheciam já a Democracia e a Liberdade. Confrontavam-se à chegada com o mesmo que tinham deixado à partida, o receio de falar de questões políticas e sociais, a repressão sexual e a intransigência religiosa. Isso já não os amedrontava, as jovens já vestiam as suas calças, as suas mini-saias e os seus bikinis (o primeiro que vi no nosso Concelho, e bem atrevido, foi nas margens do Côa, no Roque Amador) amavam e beijavam os seus namorados em público, eles já vestiam os seus fatos calçando ao mesmo tempo sapatilhas, numa altura em que a maioria de nós só vestia o fato ao Domingo com os sapatos bem engraxados para ir à missa. A juventude europeia, principalmente a francesa, já tinha saído à rua com reivindicações anti-autoritárias, feministas e democráticas. O vestuário era importante, o vestuário específico dos jovens era uma afirmação de independência ou até de revolta.
Outro factor importante foi a música, em Portugal já havia grupos rock, grupos de rock português, mas a rádio ainda não os passava com muita frequência. Os jovens emigrantes e, os que aqui estudavam e iam passar uns dias de férias a casa dos pais que estavam emigrados na frança ou na Alemanha começaram a fazer a diferença. No princípio a música mais em voga era a francesa, Adamo, Silvie Vartan, Johnnny Halliday entre outros. Os emigrantes alemães, como a Alemanha estava mais exposta à música Anglo Saxónica já traziam Beatles e Rolling Stones. Dançou-se muitas vezes ao som de Hey jude e Satisfaction. Há outra razão importante para a mudança de música, no princípio a música francesa e também a italiana (esta romântica) eram as dominantes na Europa, mas depressa foram ultrapassadas pela Anglo Saxónica. Isto, os bailes e a música iam contra a decência e contra a pureza de costumes, ambas as coisas vigiadas pela Igreja e pelo Regime. Um baile particular numa garagem, por mais inocente que fosse, e tinha de o ser, podia transformar-se num escândalo. Recordo um dia em que um baile desses foi apelidado pelos senhores do regime como um «baile de putas». Quem dançou e se divertiu não temeu, indignou-se com essa afirmação. Isto querido leitor(a), eram tensões entre gerações, que também as havia nos países democráticos europeus, mas aqui tinham outro cunho.
Quanto à questão da língua, como é natural há um afrancesamento por parte dos emigrantes, mas que não interferiu com a língua autóctone, embora tenham ficado algumas expressões que são empregues em momentos de brincadeira.
Deixo para o fim a questão política, os emigrantes não vieram fazer revoluções, mas a sua indignação e a sua revolta traduziam-se numa rebeldia perante o poder político instituído e uma Igreja rural. Abordava-se a Guerra Colonial, mas muito «subterraneamente». Ouvia-se, mas muito pouco, a canção de protesto francesa. No nosso concelho, presumo que as autoridades políticas não tivessem mandado vigiar os emigrantes receando a subversão política e social, mas nas regiões industriais, aí sim, eram vigiados pela polícia política, compreende-se que assim fosse, subverter operários era diferente de subverter camponeses conservadores.
Com a emigração, assiste-se também ao início de uma mudança no campo social. Alguma da burguesia rural do concelho começou a perder poder económico. Em Portugal, nos finais dos anos sessenta começa uma ténue industrialização, dá-se então a partida do campo para a cidade, juntando a isto a emigração que tinha levado tanta mão-de-obra, os terrenos agrícolas começaram a ficar sem ninguém para os cultivar. Alguns emigrantes compraram esses terrenos. O poder de compra, o dinheiro, passa a estar nas mãos deles, a burguesia rural, alguma dela, começou a empobrecer e teve que procurar outros meios de subsistência.

O Concelho mudou na sua forma de se expressar e até de funcionar, não num ponto de vista político, a luta política era à partida uma causa perdida, mas ganhou-se socialmente, na relação entre homens e mulheres e entre pais e filhos. Também isto devemos aos emigrantes.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

Anúncios