Há dias prometi a mim próprio que um dia escreveria um artigo sobre um termo que me fascina especialmente. É um conjunto de sons, como tantos outros. Mas acho que consigo explicitar tudo o que me faz lembrar…

José Carlos MendesNa minha meninice, como já disse muitas vezes, fiquei muitas vezes fascinado com sons que ouvia. Para mim, sons; para os adultos, palavras indiscutíveis.
Hoje, à distância, até acho estranho como é que para mim não tinham a qualidade de palavras – pois se eu me criara ali, no meio daquela gente magnífica, a ouvir estes termos toda a vida, ainda curta… – como explicar que para mim não fossem palavras e correspondessem como que a um estádio prévio, anterior às palavras.
Ou como entender hoje que naquele tempo outras palavras ditas me entrassem pelos ouvidos significando outra coisa completamente diferente.
Nem sei, porque nunca discuti isso com ninguém, se com outros miúdos acontecia o mesmo ou coisa parecida. Mas comigo era frequente. Era como se os meus avós, pais e tios e amigos deles às vezes falassem outra língua. E eu espantado.

Os potes
Um caso que costuma fascinar quem ouve a história é aquela dos potes. Eu explico. Na loja do Senhor Tó Pinto, que funcionava muito como tertúlia daqueles tempos, digamos, juntavam-se algumas pessoas que discutiam problemas seus e do Povo e do País (o «Povo», na minha terra significa muitas vezes a aldeia: «Nunca mais cá chega a electricidade ao Povo» queria dizer que a electricidade nunca mais chegava ao Casteleiro). A loja do Sr. Tó Pinto era um «comércio» (um estabelecimento comercial), mas havia muitas horas vagas e muito espaço para se sentarem ou em pé discutirem a partir dos títulos do «Século» muitas coisas que eu ouvia com atenção sem participar.
E uma expressão que muitas vezes ouvia metia-me cá uma confusão…
Era o caso de o meu pai e outros tertuliantes dizerem muitas vezes no meio dos seus debates que «… partimos daí potes».
Claro: isso era o que entrava nos meus ouvidos.
Mas não era o que saía das bocas deles. E eu – sei lá porquê – não perguntava o que queriam dizer com aquela de partirem tantos potes… logo eu que era um curioso do caneco e dizem que queria saber tudo…
É que, de facto, como percebi anos mais tarde (era mesmo burro, caramba: só alguns anos depois, já adolescente, é que entendi a expressão), o que eles diziam era simplesmente:
– Partimos da hipótese…

«Aquaisqui»
Agora, então, o «aquaisqui». Presumo que toda a gente sabe que estas sílabas são a tradução fonética da forma como as pessoas dizem (melhor: diziam; e os mais velhos ainda hoje dizem) o «quase». Que, claro, era seguido da palavra «que», ficando «quase que».
Primeiro a questão gramatical, depois a questão da pronúncia.
Em termos sintácticos, isto não está sequer errado. Ou melhor, tem uma justificação – e depois o Povo adoptou a fórmula e pronto, estava criada essa nova e espantosa palavra «aquaisqui».
Vamos por partes, então.
Quando eu digo (e é correcto): «Já tenho quase dez maçãs colhidas», não posso meter nesta frase nenhum «que».
O tal «que» entra (e pode entrar – é uma fórmula que se admite também como certa) em frases nas quais a seguir ao «quase» venha um verbo.
Exemplo: «Aquaisque le partias a pata» – por «Quase que lhe partias a pata», fórmula que se aceita, embora seja mais vernáculo retirar o «que»: «Quase lhe partias a pata».
Mas o Povo quer (queria) lá saber disso.
Ora do «quase» rapidamente se passou ao «aquais». Vá se lá saber de onde veio o «a» inicial…
E do «quase que» foi um saltinho até ao «aquaisqui», o «aquaisque» ou o «aquais», conforme as situações do liguajar.
Tão engraçada como esta, só mesmo aquela outra palavra: «assêqui». É o que o Povo diz para querer dizer talvez: «eu sei que». Mas num sentido bem diferente da certeza do «eu sei»: «assêqui» diz-se para significar: «parece que», «consta que».
Simples, meu caro Watson??

Melhor que esta, só quando no Casteleiro a mãe diz para o filho que está a fazer uma asneira:
– Ó garoto do diabo, carrai taten tàti?
«Carrai taten tàti». Consegue ler? Sabe traduzir? É:
– «Que raio te tenta a ti».
Ou seja:
– O que é que te deu?

Divirtam-se. O Povo, aqui representado na foto por utentes do Lar do Casteleiro, é um exímio construtor de linguajares. Riquíssimos e que, se quisermos, além de nos encantarem, nos dão muito que pensar para explicar os percursos dos fonemas e das estruturas.
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

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