A estrutura do falar da zona raiana do concelho do Sabugal foi já alvo de um aturado estudo, protagonizado por Clarinda de Azevedo Maia, professora da Universidade de Coimbra, pelo que se não justificam outras incursões na sua caracterização geral.

O trabalho de Clarinda de Azevedo Maia, intitulado Os Falares Fronteiriços do Concelho do Sabugal e da vizinha Região de Xalma e Alamedilla (Coimbra, 1964), tem merecido cuidados elogios dos meios académicos, sendo invariavelmente citado nos trabalhos de investigação sobre essa temática. Sendo uma referência ao nível da ciência linguística em Portugal, iremos expor resumidamente, cm base nele, as características essenciais do falar de Riba Côa, no que especificamente se refere á fonética, à morfologia e à sintaxe.

FONÉTICA
Verificam-se alterações ao nível das vogais tónicas e atónas, dos ditongos e das consoantes.
O a é, em dados contextos, realizado como e: frelda, em vez de «fralda»; amanhê em vez de «amanhã».
O e pode passar a ei: tienho em vez de «tenho».
Nas consoantes é muito visível a substituição do v pelo b: binho em vez de «vinho»; grabe em vez de «grave».

MORFOLOGIA
O artigo definido aparece muitas vezes com a forma castelhana: el, la, lo, los: el binho, las casas, Vale de la Mula.
Também o artigo indefinido pode, esporadicamente, parecer como: uno, una, unos, unas.
O género dos substantivos também pode variar, em muito devido à influência do castelhano: a cajada em vez de «o cajado»; a Côa em vez de «o Côa»; a tomata em vez de «o tomate».
O número dos substantivos está igualmente sujeito a variação, preferindo-se muitas vezes o uso do plural: golas em vez de «gola» (garganta); tenazas em vez de «tenaz»; tesouras em vez de «tesoura».
No que se refere aos adjectivos, o grau superlativo nunca é formado por «issimo», usando-se prefixos e sufixos com uma função intensificadora: descontrafeito, desinfeliz, delgadecho.
Os pronomes possessivos podem ter formas diferentes: mei, tei, sei, ou mê tê, sê.
Os pronomes demonstrativos sofrem algumas alterações: munto em vez de «muito»; oitro em vez de «outro»; otrem em vez de «outrem»; qualquera ou quaisquera em vez de «qualquer». Também aqui se usa nenhum como pronome substantivo, ou seja, em vez de «ninguém». Também é de registar o uso de quiem quiera em vez de «quem quer».

Quanto aos verbos, há muitas originalidades:
Os verbos em que a consoante anterior é z, são assim pronunciados:
Dize-o, em vez de «di-lo»; faze-o, em vez de «fá-lo»; traze-o, em vez de «trá-lo».
Nalgumas formas verbais, acrescenta-se um i à vogal:
Aibra, em vez de «abra»; caibe, em vez de «cabe»; coima, em vez de «coma».
A primeira pessoa do plural do presente indicativo passa às vezes a terminação de «amos» para emos. Exemplos: Chamemos, estemos, falemos, andemos.
Adiantam-se outras particularidades, que não permitem, constituir uma regra: dande, em vez de «dai»; vande, em vez de «ide»; oibo, em vez de «ouço».

Há também particularidades no uso dos advérbios.
De lugar: abaxo, em vez de «abaixo»; adentro, em vez de «dentro»; adonde, em vez de «onde»; drento, em vez de «dentro»; i, em vez de «aí».
De tempo: adepois ou adespois, em vez de «depois»; amanhê, em vez de «amanhã»; antão ou atão, em vez de «então»; antonte, em vez de «anteontem»; aspois, em vez de «depois»; honje, em vez de «hoje»; inda, em vez de «ainda».
De modo: aquase, em vez de «quase»; asseim, em vez de «assim».
De quantidade: mai, em vez de «mais»; munto, em vez de «muito».
De negação: ou , em vez de «não»; siquera, em vez de «sequer».

Sobre preposições, aponta-se o seguinte: antre, em vez de «entre»; inté, em vez de «até”; sim, em vez de «sem».

SINTAXE
O artigo definido é muitas vezes omitido.
O artigo partitivo é usado em certas expressões, como por exemplo: Não sei de nada, em vez de «não sei nada»; quem me dera da água, em vez de «quem me dera água».
Nos pronomes destaca-se o uso do lhe como complemento: foi-lhe padrinho, em vez de «foi padrinho dele». Também o reforço do sujeito nominal: ela a lua já lá vem. Ainda o uso do pronome possessivo em vez do pronome pessoal: tenho casa de meu, em vez de «tenho casa minha».
No que toca aos verbos, há tendência para reflectivar: cear-se; dormir-se; morrer-se. Muitos verbos não são acompanhados da devida preposição: bati-o, em vez de «bati-lhe». Deficiente uso do verbo haver: hemos de ser amigos. Colocação do sujeito ele antes do verbo: ele agora num faz frio.
As preposições têm por vezes deficiente uso: vai a chover, em vez de «vai chover».
Nas conjunções destaca-se o uso somente de que, em vez de «para que»: dá-lhe uma cadeira que se assente. Também há a referir a introdução do não em comparações: não conhece mais rios que não a Côa.
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

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