Há tempos, uma instituição bancária, numa ação louvável, realizou uma exposição pedagógica para crianças sobre as origens e a evolução da moeda através dos tempos, enfim, como se deve gastar e poupar os proventos dos seus pais.

Há tanta variedade de moeda quanto olhares sobre ela. Uns olham para o dinheiro como um bem que é necessário saber administrar, outros vêem-no como um Deus, outros como um meio que todos compra e outros, que infelizmente são milhões, nem a cor lhe vêem.
Numa amena cavaqueira, saboreando um frango de uma capoeira doméstica, que não passou pelos vistos e carimbos da ASAE, e se estava bom! A conversa descambou para o vil metal. Todos fomos de concordância unânime: o dinheiro é o maior inimigo do homem, o maior causador de desgraças.
Desfilaram imensos casos sobre histórias de dinheiros. Assim, um irmão emprestou a outro determinada quantia. Passados uns tempos o emprestador começou a ter insónias, a andar nervoso, por causa do empréstimo. Vai à casa do irmão e pede-lhe a restituição do vil metal. Este pergunta-lhe as razões desta atitude. Responde-lhe que não tem qualquer desconfiança e nem precisa dele, mas não consegue dormir, passa as noites em branco, porque todas as noites antes de dormir lhe passava as mãos, acariciando-o como uma deusa. Este tipo de gestos ou rituais à Tio Patinhas e sua simbologia, dava-lhe diariamente felicidade, relaxamento e relaxe. O dinheiro substituía a mulher…
Um dia, um familiar deu determinada quantia a um cunhado. Este, ao receber as notas, deu-lhes beijos, talvez convencido de que estava a prestar algum culto ao Santo António. O mesmo familiar também foi comprar umas saladas a uma mulherzinha que vendia hortaliças na antiga Praça do Fundão. Quando lhe pagou, a Senhora agarrou nas moedas e beijou-as, pensando porventura que estaria a beijar os Pés do Menino Jesus… Mas logo o esclareceu: beijou as moedas porque eram as primeiras que recebia após tantas horas de estátua. Que grande crise…
Também um irmão emprestou dinheiro a uma irmã para aquisição de habitação própria. Como estava habituado a dormir com o capital, fazendo do colchão o seu cofre, o que talvez lhe aquecesse as nádegas no Inverno e as arrefecesse no Verão, não descansou enquanto não equilibrou as temperaturas do seu quarto de repouso.
Dizem que um Senhor Prior se negou a Celebrar a Eucaristia próxima da sua residência, porque os honorários litúrgicos não lhe pagavam as despesas da viagem, não davam para o petróleo, e lá ficaram os pobres dos fiéis, que já sofrem com tantos desprezos e esquecimentos, sem a Ceia do Senhor.
Um vizinho, que já foi contrabandista, tendeiro e arraiano, era visita assídua destes amigos à mesa do franguinho. Nos inúmeros encontros, quase diários, o homem só falava em dinheiro, em lojas alugadas, contas bancárias recheadas, considerava-se o maior capitalista da Cidade. Estava sempre a bater na mesma tecla do piano. A música era sempre o saltitar das moedas e o contador das notas. Já começava a desafinar para quem ouvia. Os intervenientes, intoxicados com tanto metal, sentiam-se pior que um fumador inveterado sempre a tossir. Um dia, resolveram acabar com aqueles discursos económicos e monetários. Assim, foi-lhe proposto fazer o balanço das suas riquezas culturais e espirituais, porque das outras riquezas já estavam mais do que esclarecidos.
– Diga-nos lá quem foi Mozart e o Profeta Isaías?
– Mozer e Isaías? Bem, penso que foram jogadores do Benfica.
– E o Rei Salomão?
– Bem, esse foi jogador do Sporting, mas está emprestado.
– E Eugénio de Andrade, que tem o nome da avenida onde você mora?
– Bem, esse gajo deve ter sido um homem importante para ter uma avenida. Parece-me que é cá destes sítios, mas eu nunca o vi aqui a trabalhar.
Perante tão desastradas respostas e ignorância reveladora, disseram-lhe que era a pessoa mais pobre que já conheceram, apesar de ter uma tulha de dinheiro. Andou um ano sem lhes falar, mas já reataram o convívio e nunca mais lhes falou no metal.
Quando surgiu o euro, um Sr. Prior, no alto do seu púlpito, queixava-se que na saca das esmolas só apareciam moedas pretas e muitas eram pequenas demais.
Uns adolescentes encontraram caídas umas moedas amarelinhas como o ouro e ficaram deslumbrantes com tão precioso achado. Esconderam-nas nos bolsos e mantiveram-se caladinhos, não fosse o diabo tecê-las e serem roubados. Passados uns tempos tinham derretido. Ficaram sem as moedas e nem sequer comeram o chocolate. Por um lado ainda bem, porque podiam apanhar uma diarreia inflacionária.
Há anos (hoje não há tempo, nem vontade) havia o hábito de levar o Cristo Ressuscitado às casas dos paroquianos na Páscoa. Na Zona da Covilhã era obrigatório dar uma nota de Santo António ou uma galinha. Dadas as grandes dificuldades das populações, não era fácil pagar esta imposição, e muitas pessoas sentiam-se na necessidade de pedir uma ou outra coisa emprestada. O sacristão, vendo o número de galinhas crescer na capoeira do Pároco e quase vazia a sua, arranjava artimanha de dar uma picadela na cabeça dos galináceos, que ficavam meio tontos, e quando avistava o ”Padre do Galinheiro”, sorria para o Cristo Ressuscitado e lamentava-se de não ter nota e as galinhas terem malina. Mal o Padre se apercebia da “doença “, o sacristão escolhia as mais robustas das e tirava-lhes logo bilhete para o seu capoeiro e uma ia direitinha para a panela da cozinha.
Há muitos outros casos cómicos, pois o dinheiro, ao corromper os homens, torna-se numa fonte de humor. Como aquele funcionário avarento, que queria que lhe pagassem num dia vinte e cinco horas de trabalho extraordinário, e ninguém o convencia que os dias só têm vinte e quatro horas.
Como alguém escreveu amar o dinheiro é a causa de metade dos problemas do Mundo, a falta dele é a outra causa.
António Alves Fernandes – Aldeia de Joanes

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