Poderia ter sido um caso irrelevante. Uma coincidência ou, até, um mero incidente. Não foi. E deixou-se que se tornasse num facto que pôe em causa o funcionamento dos serviços, vulgo secretas, e num facto político.

Primeiro, um serviço que tem como objecto a espionagem, e a espionagem ao serviço da República, se dedica a espionar os seus próprios cidadãos, não ao serviço do estado, mas para particulares e seus futuros patrões, algo vai mal no reino dos james bond’s portugueses. Parece-me que, uns serviços deste tipo, deveriam ter um critério de selecção mais rigoroso e que, neste tipo de serviço, não se sai livremente para um emprego (neste caso, literalmente um tacho) sem mais nem menos. Deveria haver uma espécie de, uma vez espião, toda vida espião, para que permanecesse um vinculo ético e profissional. Mas cá pelo burgo não. Espia-se o que se quer, quando se quer e porque se quer. Político, porque o Sr. Ministro Miguel Relvas, deixou que o caso se prolonga-se. Mentiu na primeira vez que foi ouvido no parlamento. Ameaçou não ameaçou, irritou-se, não se irritou, foi assim, não foi assim… o facto é que deixou minar a sua credibilidade. E desta feita, ao deixar arrastar o assunto, minou a sua credibilidade enquanto político e enquanto pessoa. Acresce dizer que, arrastará o primeiro ministro, porque, mantendo-o, mostra medo do poderoso homem forte do governo, afastando-o prova o fim político de Miguel Relvas. Eis o dilema de Passos Coelho. No final, fica a sensação de que Portugal não tem um serviço de informações (a secreta) mas muitas secretas. E cada uma (um) faz o que lhe dá na gana!
Esta semana trago, ainda, três assuntos.
A troika tem andado por cá a verificar se estamos a cumprir o tal memorando que uns senhores assinaram (depois de terem feito asneiras) sem ter coragem de perguntar ao povo se o deviam assinar. A esses que o assinaram, reparem, não se têm visto. Um fugiu para França. Os outros estão calados. Até os do governo! Só falam do memorando para salvaguardarem os seus ataques aos trabalhadores. A troika, dizia eu, anda por cá e chegou a uma conclusão iluminada! É preciso baixar os salários. Mas baixar os salários aos trabalhadores! Não aos gestores, mesmo sendo eles os responsáveis das falências das empresas. Os trabalhadores cumprem as directrizes emanadas dos gestores. Mas não. A troika, tal como iluminados, vêm dizer que estamos a ir muito bem, mas em vez de exigir o corte nas rendas milionárias das PPP’s, não, exige o corte nos salários! É de bradar! Dizem que assim se incentiva o emprego. Eu iria mais longe: e porque não trabalhar de borla? Acabava-se com o desemprego num instante…
E cá vamos nós para as PPP’s. O Dr. Avelino de Jesus, que pertencia à comissão de investigação das PPP’s, demitiu-se porque não lhe chegava informação para essa investigação, disse agora, na comissão da Assembleia da República que investiga as PPP’s que, os contratos das parcerias público – privadas são ruinosos para o estado (portanto, para o cidadão). Perante isto e tudo o que todos os dias se vai ouvindo e lendo, ninguém é responsabilizado? Ninguém é chamado a responder por esse atentado ao povo português? É mesmo o país do regabofe!…
Esta semana esteve em Portugal o jornalista francês ligado ao Le Monde, Marc Roche, para apresentar o seu livro chamado «O Banco». É o resultado de uma investigação feita ao processo de adesão da Grécia à União Europeia e ao banco que organizou esse processo. As contas foram adulteradas pelo próprio banco. O Banco lucrou 600 milhões de euros, a Grécia está na miséria. Atentem: o actual presidente do Banco central Europeu foi quadro desse banco, o primeiro ministro de Itália também, o actual responsável pelas privatizações em Portugal, um tal de Sr. Borges, também foi/é quadro desse banco. Sabemos quem vai lucrar. Sabemos quem vai perder.
Decididamente, a economia/finanças é demasiado séria para ser deixada só a economistas e financeiros. Aliás, a actual crise prova-o à saciedade. Infelizmente, não temos é políticos.
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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