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O piloto português Tiago Monteiro «defronta» no Autódromo Internacional do Algarve o mítico personagem de banda desenhada Michel Vaillant.

Tiago Monteiro - Michel Vaillant - Algarve

O fim-de-semana de 2 e 3 de Junho vai ser repleto de muita emoção dentro e fora da pista no Autódromo Internacional do Algarve onde se realiza mais uma jornada do WTCC – FIA World Touring Car Championship.
A prova tem uma novidade que agrada particularmente ao piloto português Tiago Monteiro. O mítico personagem de banda desenhada, Michel Vaillant vai estrear-se no WTCC este fim-de-semana pelas mãos do Chevrolet Cruze de Alain Menu. A personagem ganhou vida na década de 50 e tornou-se referência enquanto piloto de F1. Tiago teve mesmo a oportunidade de se defrontar com ele enquanto esteve no mundial de F1: «É bastante curioso e interessante. Será a segunda vez que me vou encontrar com Michel Vaillant. É uma personagem admirada por todos os pilotos e com histórias únicas. Vai ser uma corrida muito especial e diferente para o público», disse.
No Grande Prémio de Fórmula 1 da China que deu origem ao livro «China Moon», Tiago integrou a banda desenhada de Michel Vaillant: «É curioso vermos a nossa imagem enquanto pilotos ser referenciada num livro tão prestigiado como são todos aqueles que Jean Graton produz. Sinto-me honrado e será por isso um enorme prazer voltar a esta ficção em Portimão», disse.
Para além do personagem, Tiago terá ainda a oportunidade de estar com o grande inventor de um dos mais bem sucedidos livros de banda desenhada da história: Jean Graton. O autor francês vai estar em Portimão para viver de perto todas as emoções da corrida.

Na prateleira que já foi «herdada» pelo meu filho lá estão os livros do Tintim, do Astérix, do Lucky Luke e do Michel Vaillant que li, reli e voltei a ler na minha juventude.
jcl (com Rute Vieira)

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O Dr. Salgueiro era o professor de Matemática. Era do tipo seminarista, daqueles que desistem no último ano, sempre com casaco e calças terylene, camisa tv com esticadores e gravata com pregador. Logo de princípio começou com um implicanço contra mim, mas com um tom positivo.

José Jorge CameiraBonzinho, não chateava muito. Não era um professor-inimigo! E porquê?
Como já escrevi, eu estava hospedado na casa da Dona Alexandrina, cuja distância da parede do Colégio era precisamente a largura da rua, uns cinco metros.
A aula de Matemática era sempre a primeira da manhã, às oito e meia. Como eu andava quase sempre na borga até às tantas, ou no petisco ou a jogar à lerpa, para mim era difícil levantar-me cedo e chegar a horas à aula. Então no Inverno, era um suplício, sabendo que o Sabugal recebe os ventos gélidos de Espanha e da Guarda.
Então chegava sempre atrasado às aulas do Dr Salgueiro.
– Então Sr. Jorge, atrasado? Que se passou?
– Ó Sôtore, moro longe, tenho de vir a pé, desculpe lá… Respondia eu, gemendo de fingimento.
Esta conversa provocava sempre uma caterva de risos, principalmente da Lena Ermidinha, que ria como se fosse uma gata a ser esganada. Que provocava risos histéricos!
Era o aluno que morava mais perto do Colégio! E o último a entrar na aula!
E o pobre (salvo seja) do Dr. Salgueiro ali sobre o estrado, com o ponteiro na mão abanando, compreensivo com os atrasos, nunca percebendo até ao fim do ano por que razão todos se riam daquele meu paleio frouxo…
Uma vez foi demais a risada: caiu um grande nevão e eu, mal saí de casa, fiquei logo com neve até aos joelhos! Cheguei atrasado, como era hábito…
Mal abri a porta da aula, o Dr Salgueiro disse:
– Ó Sr Jorge, não precisa se desculpar pelo atraso, entre lá, já sei, compreendo ter demorado tanto tempo a chegar, com este nevão…
A risada foi total e mais forte nesse dia…
Mas houve uma partida que fiz com outro colega que o Dr. Salgueiro nunca descobriu.
No ano seguinte, estava eu no 5.º ano, apresentou-se no Externato um aluno vindo de Beja! Filho de uma família abastada do Alentejo, o pai mandara-o estudar para o Sabugal acompanhado pela tia, para fugir às traquinices de uma grande(!) cidade como Beja. A fama de disciplinador do Dr. Diamantino chegava bem longe!
Só que esse aluno não era um qualquer. Tinha um Morris Cooper S à porta do apartamento onde vivia! Às vezes acelerava e o ruído do motor com dois colectores de escape roncava por toda a vila!
Um dia esse colega bejense diz-me, antes de entrar para a aula de Matemática do Dr. Salgueiro:
– Ó Zé Jorge vamos faltar à aula, tenho uma coisa melhor para fazermos.
Levou-me para junto do carro do Dr. Salgueiro, um Ford Cortina 1600 GT, quase novo, estacionado frente ao Colégio. É que o colega alentejano tinha reparado que ninguém tirava as chaves dos carros, incluindo o nosso professor – naquela pasmaceira de vila, quem é que roubava carros? Então disse:
– Vamos levar emprestado o carro do Salgueiro, vamos até Vila Boa, eu olho o relógio, cinco minutos antes de acabar a aula, pomos o carro no mesmo sítio onde ele o deixou.
Assim aconteceu… grande passeata fizemos e eu, claro, aqui com um grande aperto!
Só nós dois entendemos por que vimos da parte da tarde o Dr. Salgueiro a pedir ajuda a alunos para empurrar o carro até à bomba de gasolina! E olhando de vez em quando debaixo do carro… pensando:
– Será que tenho aqui algum furinho por onde a gasosa se foi?
:: ::
Havia também o professor de Religião e Moral, um padre todo prá-frentex, que era a pessoa mais esquisita que havia no Colégio. Por que seria que pagava cinco Tostões por cada matrícula de carro que lhe trouxessem? Fartei-me de ganhar dinheiro com ele!… até pensei: se a religião católica, a dele, é assim, então vou já rebaptizar-me!
:: ::
Qualquer estudante que se preze, o copianço nos pontos ou testes é uma obrigação.
Eu via os meus colegas, eles e elas, fazendo cabulazinhas bem enroladas, escondidas junto aos pulsos ou dentro das meias.
Achava isso assim meio-esquisito, porque o acto de fazer uma cábula já era estudar!
O que desvirtuava o «copiar», uma arte engenhosa do estudante que se preze e queira ter sucesso, passe a contradição!
Recordo-me duma cena passada num ponto com o Dr. Moreira, alentejano de Campo Maior, fanático pelas coisas do futebol. Foi numa sala de um apartamento que o Dr. Diamantino anexara ao edifício principal do Externato.
No dia do teste, coloquei sobre a secretária do Professor, o jornal Record que trouxe do Altobar, mas de uma semana atrás. Logo que ele distribuiu a folha das perguntas, sentou-se e tal como previsto, começou a folhear o jornal.
O teste parece-me que era de Botânica. Olhei à volta e vi todos tirarem as cábulas, eles e elas de esconderijos corporais diferentes.
Eu que era avesso a cábulas… peguei no livro de Botânica, o próprio, abri e folheei onde era preciso e assim respondia às perguntas. Era só copiar dali para aqui… e esperar por um 15 ou 16!
Mas eis que algo inesperado aconteceu.
A colega ao meu lado sentiu-se aflita vendo o meu livro de Botânica ali escaqueirado à minha frente e começou a sentir-se mal: Tinha-lhe aparecido o «incómodo»… como nós os rapazes nos referíamos ao problema mensal das senhoras.
Perguntaram-lhe o que tinha causado aquela aflição àquela hora e assim teve de contar o que vira!
E assim nasceu no Externato a minha fama de terrível «copiador»!
:: ::
Tínhamos a Professora de Inglês, uma lady sempre de mini-saia, doutora de Coimbra com 20 e poucos anos, que desconfiando dos meus 17 e 18 nos pontos de Inglês e sabendo que eu não era amigo de estudar aquela disciplina, colocava-me bem à frente da sua secretária no dia dos testes. Mas era assim mesmo: não era preciso estudar para eu ter notas boas a Línguas.
Era inadmissível que eu tivesse mais sucesso que o Tomás, colega que era um marrão, de fatiota, sempre limpando as unhas, sem noitadas e cujas nota máxima era o 10 ou 11 nessa disciplina. Contrastando com os seus 16 ou 17 a Matemática!
A malta sabia que a professorinha estava hospedada na Pensão perto dos Correios e então nós à noite subíamos às árvores para vermos o «streap» dela no quarto. Credo, era toda boazona em cada centímetro do corpo! Alguns de nós vimos pela primeira vez o corpo nú de uma mulher…
Ganda vida, esta de estudante!!!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

O concelho do Sabugal é geograficamente trimorfe, economicamente biforme e historicamente policéfalo.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA policefalia resulta do facto de o nosso concelho, na sua actual definição territorial, abranger freguesias que até às ultimas reformas de JOSÉ DA SILVA PASSOS, pertenceram umas aos extintos municípios de SORTELHA, TOURO — a vila do Touro —ALFAIATES e VILAR MAIOR, todas as que já lhe pertenciam, e, ainda, uma, a de CERDEIRA DO COA, do desaparecido termo de CASTELO MENDO.
Como se sabe, com a irrupção do liberalismo e queda do ANTIGO REGIME, MOUSINHO DA SILVEIRA deu início a uma série de reformas marcadamente iconoclastas, porque todas elas tendentes a destruir o passado, cortando com a tradição.
Os seus principais executores receberam ápodos que a História registou e, de algum modo, sintetiza a obra de extinção por eles promovida.
V. g.
JOAQUIM ANTONIO DE AGUIAR — O MATA FRADES
Responsável pelo confisco dos bens da Igreja Católica, o encerramento dos conventos, a expulsão dos religiosos.
BENTO PEREIRA DO CARMO — O RASGA BANDEIRAS
Que decretou o fim das corporações de artes e ofícios, também conhecidas por grémios ou bandeiras e das Santas Casas da Misericórdia, nacionalizando a de Lisboa, que nunca mais recuperou o estatuto de associação de fiéis católicos, transformando-se em ludolândia ou seja em instituto nacional de jogos.
E, para o caso de que agora tratamos, o DEGOLA CONCELHOS que extinguiu cerca de oitocentos concelhos.
Só no distrito da Guarda, acabou com oitenta e seis, reduzindo a catorze os cem preexistentes.
Frise-se que o nome PASSOS JOSÉ serviu para o caracterizar relativamente a seu irmão — PASSOS MANUEL, que teve uma muito meritória acção nos domínios da escolaridade.
De resto, também a reforma administrativa personificada em Passos José foi muito positiva, adequando o número de concelhos a uma nova realidade baseada em vários pressupostos, designadamente na substituição dos caminhos de ferradura pelas novas vias, com o encurtamento dos tempos de viagem.
Já se anuncivam as vias férreas.
E o caminho beirão de São Tiago só não foi aproveitado como novo itinerário por o PADRE PAULO, grande terratenente em Aldeia da Ponte, temer cortes nos seus agros e perversões nos paroquianos.

Um território trimorfe
Consabidamente, é o concelho do Sabugal de grande extensão territorial.
Não tanto, é certo, como o de Odemira, que dizem ser o maior da Península, ou sequer o de Idanha-a-Nova, nossa vizinha porque apenas separadas por terras de Penamacor.
Mais pequenos do que estes dois, é, no entanto superior em área a noventa e oito por cento dos outros municípios.
Além disso, tem a particularidade de abranger três zonas fortemente diferenciadas — uma de montanha, outra de planalto e a terceira com características de cova.
A primeira encosta-se a Espanha e ocupa os contrafortes portugueses das regiões salamantinas de Francia e Gata, do lado de cá chamados genericamente Serra de Malcata, embora com subdenominações interessantes, v g das Mesas, baseado no encontro de quatro bispos — da Guarda, de Pinhel, de Coria e de Cidade Rodrigo — todos lado a lado, mas cada um num banco de pedra incrustado na sua área de jurisdição.
A zona de planalto abrange a parte restante dos antigos concelhos de cima Coa que o do Sabugal presentemente integra.
A zona de cova tem por epicentro o Casteleiro e assume as características que os geógrafos costumam congregar no conceito de TERRA QUENTE DO NORTE.
Até por oposição á anterior tipicamente TERRA FRIA DO NORDESTE.
Quem se achar interessado em aprofundar esta genérica conceptualização, pode fazê-lo através de três autores sabugalenses — todos eles, no entanto, da zona serrana:
o geógrafo CARLOS MARQUES, de Vale de Espinho.
O romancista NUNO DE MONTEMOR, nascido em Quadrasais.
O poliígrafo PINHARANDA GOMES, também quadrasenho.
Este nome ressuma a COA, de CUDA.
E as relações com a montanha, para nós sacralizada vieram para o Cancioneiro.
O lugar de Quadrasais
Ao fundo da terra fica

Ler «Maria Mim», ou até «Crime de um Homem Bom», do segundo, «O Motim do Aguilhão no Sabugal» ou «Práticas de Etnografia», do terceiro, e, sobretudo, «A Bacia Hidrográfica do Coa», do primeiro, para além de um enorme prazer espiritual, ganhará excelências de conhecimento.

Economicamente marcado pelas assimetrias morfológicas nuns casos, noutros pelas influências espanholas, biforme no mínimo, poliforme em boa parte.
Como economia de subsisteêcia, baseada numa quase sempre deficiente exploração agro-pecuária, se terá de classificar a que secularmente se viveu no concelho.
Dos cereais panificáveis só o centeio, semeado por todas as freguesias, em regime de folhas, é que se produzia de modo a cobrir as necessidades locais.
O trigo, afora os barros do Soito, resumia-se a pequenas belgas, que apenas davam para uma pastelaria, singelamente pobre.
A cevada, a aveia, o milho, cultivavam-se sobretudo como forraginosas, poucas dando grão.
Não se usava pão de milho.
O grosso mal chegava para as sementeiras, revertendo o sobrante para as papas, gordas ou doces,consoante a maré.
E o miúdo, por aqui chamado painço, ia para o bico dos pintainhos, amorosamente chocados e desemburrado
A grande cultura era a da batata que cobria todo o agros que dispusesse de alguma àgua para rega e até o sequeiro cuja humidade desse algumas garantias.
Entremeando, espetavam-se feijões que generosamente — muito mais que o cem por um dos evangelhos — pagavam o desvelo.
E nos tornadoiros, cresciam alfaces e beterrabas porqueiras ou agigantavam-se abóboras.
Mas eram as batatas e feijões que asseguram a entrada no orçamento familiar de alguma moeda corrente.
O regadio, para além de cobrir as necessidades de hortícolas, contribuía para o passadio dos gados com carradas de nabos e muitos feixes de ferrã.
O mato, para além de prover o forno e o lar, contribuía pelas ramadas verdes para alimentação de cabras e ovelhas e pela folhagem seca — caruma e ramalhos — para camas e esterqueiras, no que também ajudavam muito os giestais.
Os proprietários de mais geiras podiam ainda extrair mais proventos pela venda de madeira — freixo, carvalho e pinho, sendo de acrescentar que o último, pela sangria de resinagem alguma coisa rendia e mais renderia, se não fora a cupidez das empresas e a manigãncia dos operadores locais.
Algumas manchas florestais da azinheira, por aqui chamada carrasco, permitiam, quando de maior extensão, o porco de montado.
Aliás, mesmo isolada, apanhava-se-lhe a lande bolota ou boletra, dizíamos, para a engorda, no que competia com o roble, segundo o Cancioneiro, árvore de excelência.
Pois,
Não há pau como carvalho
Que dá num ano quatro frutas
Dá a bogalha, o bogalho
Bolotas e maças-cucas

Mas isto, observam os de idade e saber, são tretas, que árvore a sério é o castanheiro.
Para além dos muitos contos de reis vindos para o concelho pela castanha vendida para fora, foi ela que evitou a fome e varreu a tuberculose.
Crua, cozida, em caldo.
Transformada em pão…
E também contribuía para a lírica, até mordaz:

Menina, já que as castanhas
Lhe são tão apreciadas
Por artes ou artimanhas
Vou-lhe dar duas piladas

E se achar poucas as duas
Eu juro por minha fé
Dar-lhe não apenas duas
Mas três, quatro ou mais até…

«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

:: ::
Inicia-se hoje a edição de mais uma coluna assinada pelo escritor raiano Manuel Leal Freire no Capeia Arraiana, designada «O concelho», na qual abordará temas históricos e etnográficos do concelho do Sabugal. Esta rubrica terá edição quinzenal, alternando com a crónica «Terras do Jarmelo» de Fernando Capelo.
Com esta nova crónica, Manuel Leal Freire passa a assinar quatro colunas no «blogue de todos os sabugalenses», a saber: «Poetando» (ao domingo), «O concelho» (à quarta-feira), «Caso da Semana» (à quinta-feira) e «Politique d’Abord – Reflexões de um politólogo (ao sábado).

plb e jcl

Os poetas, nas palavras de Erasmo, «formam uma raça independente, que constantemente se preocupa em seduzir os ouvidos dos loucos com coisas insignificantes e com fábulas ridículas. É espantoso que com tal proeza se julguem dignos da imortalidade». E continua: «esta espécie de homens, está, acima de tudo, ao serviço do Amor-Próprio e da Adulação». E dizia isto Erasmo, não por julgar a poesia um género literário menor, mas por saber que o mudo da poesia é o da adulação e da crítica elogiosa, com que de poetas medíocres, se fazem poetas da moda. (parte 1 de 4).

João Valente - Arroz com Todos - Capeia ArraianaÉ bem difícil um bom poeta ser reconhecido pelo público. De facto, como se reconhece o valor de um poeta? Sim. Um poeta? Poderá alguém saber que é um poeta? E Grande?
Pois bem, para verem como esta coisa de ser poeta depende mais de interesses pessoais e conhecimentos nos meandros da crítica, do que de critérios literários, aqui deixo um exemplo concreto, que deu, numa das suas verrinosas crónicas, Luíz Pacheco, personagem genial com quem privei:
Escrevia o insuspeito Urbano Tavares Rodrigues, em meados de sessenta, a respeito de um neófito poeta e seu livro:
«Os versos encantadores de… (omito, tal como o Pacheco, o nome do livrinho, por caridade) anunciavam já a problemática que hoje enriquece a vida mental de… (ressalvo o do autor também, por pudor) e, sendo esses versos, como são, de bonne frappe (esta é para impressionar os tolos!) revelam o poeta lírico, que uma vez controlado por mais áspera auto-crítica, juntando o refinamento estético ao temperamento emocional que lhe exalta e acende as vivências – parece capaz de todos os voos».
A respeito do mesmo poeta, o Diário de Notícias disse: «…, afirma-se poeta de lei, vivendo a emoção sentimental e sabendo exprimi-la sinceramente em versos embaladores, melodiosamente ritmados, matizado o pensamento de imagens multicores, ora na singelez popular das redondilhas, ora na gravidade austera dos decassílabos heróicos ou na majestosa imponência  dos alexandrinos, modelando em formas harmoniosas a essência da inspiração.»
O Primeiro de Janeiro, num rasgado elogio, apregoou também urbi et orbe o certificado de pedigree do poeta, da seguinte forma: «… é o livro dum poeta (será?). E publicam-se tantos livros de versos, tão poucos poetas se revelando, que é agradável ler um livro como este em que a chama da poesia se sente crepitar… trabalha a redondilha com toda a graça e subtileza.» E sugeriu Luíz Pacheco, a páginas tantas da sua crónica, para averiguarmos da justiça da crítica, saborearmos a voz do tão elogiado poeta, sentirmos a forma «emocional em como ele exalta as vivências», em como «faz crepitar a inspiração», a leitura do seguinte poema, intitulado…

Humanismo integral

Na escola ensinava o mestre
Com seu ar profissional:
– Nunca se esqueçam: O homem
é animal racional.
Mais tarde, na aula de filosofia,
Dizia outro mestre com voz beatífica:
– Animal é o género próximo
racional é a diferença específica.

Uma mulher (que lidou comigo
Em convívio ideal
Levitando em profunda abstracção)
Dirá que sou um intelectual!

Nenhuma conseguiu ter
A minha visão total:
O excesso de ambas as coisas:

– Animal e racional.

De facto podemos constatar que neste poema não existe nenhum «refinamento estético», «o temperamento emocional, que lhe exalta e acende as vivências», «os versos harmoniosamente ritmados», «as imagens multicolores», «a singeleza popular das redondilhas», «a gravidade austera dos decassílabos ou a majestosa imponência dos alexandrinos»… Muito pelo contrário! O insuspeito Júlio Dantas (nem mais nem menos), a respeito do mesmo livro e poeta também não fugiu à regra do exagero laudatório:
«Acabo de ler o seu livro. De todo o coração o felicito e lhe agradeço. Estamos na presença dum poeta. Nos seus versos há poesia (poesia verdadeira!), há alma, há vida, há centelha, há clarões, há talento às mãos cheias.» Dixit Júlio Dantas!
Voltemos novamente ao poeta, só para tirarmos as teimas. Inspiração se chama estoutro poema, do tão celebrado poeta, proposto ainda pelo Luíz Pacheco:

Para fazer os meus versos
Não posso ficar em casa.
O tecto prende-me a alma
Inquieta qual bater de asa.
A secretária e a cadeira
Não bastam para os poemas:
Não cabe lá a alma inteira
Nos seus variados temas.

Sublime inspiração! Aqui de facto «há vida, há centelha, há clarões, há talento às mãos cheias»! Quem não vê a genialidade do poeta, é cego… Cegaram-no os clarões da genialidade! Agora outro poema, também proposto pelo Luíz Pacheco, só para vermos o que é o erotismo, bem à portuguesa, do referido poeta. Esqueçamos o título e vamos ao que interessa:

Quanta mulher fascinante
Beijei
E (julgava…) amei
Pela manhã adiante
E logo esqueci
Com a indiferença que sinto
Por todo o jornal que li.

Mais palavras, para quê? Como se vê, já muito homem ilustre se enganou e iludiu publicamente acerca do que é ser poeta e do que é poesia. Afinal, o que é ser poeta? E poesia? São questões difíceis de responder.
O mesmo se acontece com a pintura; todos julgamos possuir uma ideia do que é pintura, de reconhecer onde ela se encontre e de, em consequência, proferir juízos sobre ela. Só para termos ideia, El Greco, que foi das relações de Miguel Ângelo – um pintor que dispensa apresentação – referindo-se a este, disse: «Miguel Ângelo, sim, um bom homem; mas, coitado, não sabe pintar…» E sabemos quanto enganado estava El Greco… Estas questões são difíceis de responder porque quando as interrogações se elevam ao nível das categorias do belo, da criação, da contemplação artística, onde não temos o suporte histórico, ou da obra, entramos no campo da pura subjectividade.

(Continua)
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

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