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Hoje destacamos o semanário «O Interior». O jornal dirigido Luís Baptista-Martins deu destaque (merecia ser manchete) a uma morte anunciada: «Águas do Zêzere e Côa tem os dias contados. A empresa vai ser extinta e dar lugar à Águas do Zêzere e Vale do Tejo, no âmbito da reestruturação do setor das águas em Portugal.»

Jornal O Interior

O semanário «O Interior», de Luís Baptista-Martins, deu esta semana à estampa a morte da «Águas do Zêzere e Côa». A decisão anunciada por Manuel Frexes, autarca da Câmara do Fundão e administrador da «Águas de Portugal» é o ponto final em gestões por muitos consideradas duvidosas (como foi o caso de Esmeraldo Carvalhinho, presidente da autarquia de Manteigas) e que parecem ter sobrevivido graças ao aval dos seus «accionistas», representados pelos presidentes de muitas das câmaras da Beira Alta e da Beira Baixa.
Por respeito ao trabalho do jornalista aqui fica, na íntegra, a peça sobre um dos elefantes brancos do nosso reino.

«A empresa Águas do Zêzere e Côa, que gere o sistema multimunicipal de águas e resíduos em 16 concelhos da região vai ser extinta no âmbito da reestruturação do setor das águas em Portugal, para se fundir numa das quatro mega concessões que vão ser criadas a nível nacional. A nova concessão, que terá a designação de Águas do Zêzere e Vale do Tejo, agregará os municípios do Interior Centro e da Área Metropolita de Lisboa.
Em consequência deste alargamento de escala, será possível conseguir uma «harmonização tarifária», anunciou o administrador da Águas de Portugal, Manuel Frexes. O antigo presidente da Câmara do Fundão afirma que «não faz sentido uma pessoa que vive no litoral pagar dois euros por metro cúbico de água, e no interior esse valor subir para o triplo». «Assim, através da fusão do litoral com o interior, conseguiremos regionalizar as águas e criar uma tarifa nacional», acrescenta. Manuel Frexes diz que o objetivo passa por estabelecer um «preço suportável» para as tarifas da água, tanto residuais como de abastecimento, «que esteja dentro de uma margem que consideramos correta, nunca superior a 30 euros mensais».
Para além da equidade de preços, esta redução é também feita com o propósito de reduzir custos, pois «ter 40 empresas no grupo é demais e é sinónimo de desperdício». A distribuição em baixa, isto é, da água ao consumidor final, passará a ser gerida pela mesma entidade, a Águas de Portugal, pelo que as faturas deixarão de ser cobradas pelas Câmaras. «Pretendemos com isso ter ganhos de gama e de escala, bem como tarifas mais baixas, e impedir que pelo meio haja a divisão do problema, que depois se traduz na situação do acumular de dívidas por parte dos municípios», refere Manuel Frexes. «As tarifas em alta são bastante elevadas, os municípios têm de as suportar, enquanto os custos em baixa, junto do consumidor, são bastante baixos e não incorporam os custos da atividade, o que representa uma discrepância com prejuízos para as duas partes, municípios e empresa pública», explica. Acrescenta que «os municípios, como muitas vezes não conseguem recuperar os custos da operação, não têm capacidade para pagar a água em alta, e a Águas de Portugal, que realizou o investimento mais significativo, não consegue recuperar os custos para continuar a operar».
Relativamente às dívidas dos municípios, Manuel Frexes diz que a questão «está a ser resolvida». «Vamos promover uma verificação para chegar a um entendimento com as Câmaras, que contemple, por exemplo, a entrega de ativos em troca da dívida, ou um acordo para pagamentos faseados». Mas para já, o administrador apela aos municípios para que «cumpram as suas obrigações, pagando a fatura mensal do serviço que reconhecem, até porque só assim se conseguirá equilibrar o preço da água». «Esta reforma vem também ajudar a resolver este problema e é do agrado da maioria dos autarcas», revela.
Já quanto à sede da empresa, que se encontra a funcionar na Guarda, Manuel Frexes garante que o imóvel vai continuar em atividade. «Ali funcionará o centro de exploração do novo sistema», afirma, afastando também qualquer cenário de redução de postos de trabalho. «Haverá um redirecionamento de algum pessoal diretivo e de administração, mas não há necessidade de reduzir o número de trabalhadores, e nem sequer há margem para isso», assegura.
O administrador revela que o processo de fusão «já está em vias de implementação», sendo que a Águas de Portugal pretende «ter tudo pronto até ao final do ano», para que o novo figurino seja uma realidade no primeiro semestre de 2013.

Joaquim Valente favorável ao processo de fusão
Na reunião do executivo da passada segunda-feira, o presidente da Câmara da Guarda disse que «não vê nenhum inconveniente nesta integração, desde que o modelo de gestão possibilite um melhor serviço no abastecimento de água e no saneamento e que a água possa ser consumida a um valor mais baixo». Para Joaquim Valente, o valor cobrado atualmente é «injusto», considerando que «somos penalizados porque somos menos», e que por isso a tarifa única é «essencial». «Justiça seria haver uma tarifa única para todo o país, como acontece com a eletricidade», defende.
Quanto ao facto desta fusão ser um primeiro passo para a privatização da água em Portugal, Joaquim Valente admite o cenário, «desde que seja salvaguardado o interesse público que está subjacente a este serviço». Ainda assim, o edil lembra que «o país está a desbaratar o seu património, porque privatiza o que dá dinheiro e fica sem nada».

1 – Esta notícia merecia ser manchete até porque a decisão de «embaralhar e dar de novo» parece mais uma fuga para a frente para resolver um grande berbicacho. A decisão, não tenho qualquer dúvida, tem a assinatura de Manuel Frexes que conhece de gingeira os problemas da malfada empresa. Além disso não tenho motivos para duvidar que tão importante assunto/decisão que diz respeito a «águas» que até dão pelo nome de «Côa» já foi discutido em reunião de vereadores e mesmo em Assembleia Municipal no concelho do Sabugal.
2 – Ilustre director Luís Baptista-Martins. Reconheço o esforço hérculeo para manter vivo um semanário nos montes Hermínios. Mas deixe que lhe diga que se fosse à banca talvez não comprasse uma publicação que me quer comunicar que «o mundo da Diana ainda não é o melhor». Mas, contudo, aqui fica o meu abraço solidário pelo trabalho desenvolvido na sua redacção.
3 – «A nova concessão, que terá a designação de Águas do Zêzere e Vale do Tejo, agregará os municípios do Interior Centro e da Área Metropolita de Lisboa.» Não sei se repararam mas cai a palavra «Côa» que até tem mais a ver com o Douro… Ele há coisas!

jcl (com redacção do semanário «O Interior»)

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O Campeonato do Mundo de Carros de Turismo está de regresso ao Algarve já no próximo fim-de-semana de 2 e 3 de Junho. Em 2010 Tiago Monteiro foi a grande estrela depois de uma brilhante vitória na frente do seu público. Este ano, o piloto português continua focado em dar o seu melhor, mas sobretudo num bom espectáculo.

Tiago Monteiro

As últimas corridas têm sido bastante positivas para Tiago que tem conseguido intrometer-se entre o grupo da frente e registado bons resultados. Numa pista que aprecia e onde vai poder contar com o incondicional apoio dos familiares, amigos e fãs, o piloto português tem assim uma motivação extra: «Correr em Portugal tem sempre um carisma diferente pese embora a minha postura em pista seja sempre a mesma. Claro que gostava de vencer novamente, mas tenho de ser realista, é uma tarefa quase impossível. Mas, de certeza que vou estar na luta e que não vou dar tréguas. Estou centrado em fazer o melhor possível», começou por explicar.
O traçado de Portimão é conhecido pelo seu nível de exigência mas Tiago não vê isso como um problema nem mesmo as altas temperaturas que se esperam nos dois dias de evento: «O circuito é muito rápido mas aquilo que mais o caracteriza são mesmo as curvas cegas. Por mais voltas que se faça à pista nunca nos habituamos a essas curvas. É uma pista desafiadora que leva os pilotos ao limite. São esperadas temperaturas elevadas mas acho que tanto eu como os outros pilotos já estamos habituados a correr em Portugal nessas condições», concluiu.
Esta é muitas outras iniciativas vão preencher todo o fim-de-semana, mas quem não se poder deslocar ao Autódromo do Algarve poderá assistir a toda a competição através do Eurosport que vai transmitir ambas as corridas.
jcl (com Rute Vieira)

Aquela que é, seguramente, a obra mais célebre de William Shakespeare, «Romeu e Julieta», estará em cena na caixa de palco do Grande Auditório do Teatro Municipal da Guarda (TMG) na próxima sexta-feira, dia 1 de Junho, às 21h30, na versão sempre original e electrizante da Companhia João Garcia Miguel.

Romeu e Julieta são duas vítimas, quase inexplicáveis de um grande amor. Para eles tudo se conjugou em contrariedade, como se não existisse lugar para o seu amor no mundo em que viviam. É uma estranha metáfora, esta, de não existir lugar para o amor no mundo, e de todas as forças se conjugarem para de forma consciente e, também inconsciente, para a sua limitação. Romeu e Julieta tiveram uma noite de amor tão extraordinária que lhes custou a vida.
«Fazer um Romeu e Julieta, no actual momento, foi um erro infantil, com o qual nos deliciámos e sofremos, uma vez mais. Fazer teatro nos dias que correm é um erro que atenta contra a vida daqueles que o fazem. Aliás, os fazedores de teatro são Romeus e Julietas, tal é a paixão que os move e os riscos que correm. Contudo o mundo precisa mais do que nunca de gente apaixonada por aquilo que faz, de pessoas apaixonadas pela vida e por aquilo que trazem diariamente ao mundo. É de um grande conjunto de desordens, de pequenas desordens criativas, espalhadas por todos os lados da vida, espalhados em todos os momentos do dia, que precisamos mais do que nunca; que outra coisa se pode esperar daqueles que se dedicam a criar e a recriar o mundo senão: erros infantis?», escreve a propósito desta versão de Shakespeare João Garcia Miguel, o encenador e director da companhia.
A peça, classificada para maiores de 12 anos, conta com a interpretação de David Pereira Bastos e Sara Ribeiro; a música e vídeo são de Rui Gato; os figurinos são de Steve Denton e o desenho de luz é de Luis Bombico.

Exposição de Mário Cesariny
No sábado, dia 2 de Junho, o TMG inaugura, pelas 18 horas, na Galeria de Arte, a exposição «Visto a esta luz», do artista plástico português Mário Cesariny, por muitos considerado o expoente máximo do surrealismo na pintura em Portugal. Esta exposição ficará patente até 29 de Julho e é apresentada no âmbito de uma parceria com a Fundação Cupertino de Miranda. A fundação assumiu nos últimos anos de vida do artista plástico uma relação de grande proximidade e amizade. Nesta exposição procura dar-se uma visão global da sua obra no contexto da Colecção da Fundação Cupertino de Miranda. A exposição é comissariada por António Gonçalves.
Mário Cesariny nasceu e viveu em Lisboa (1923- 2006). Estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio. Estudou também música com Lopes Graça. Posteriormente frequentou o primeiro ano do curso de Arquitectura da ESBAL. Participou nos encontros do «Café Herminius» e aderiu ao Neo-realismo, do qual se vem a desligar em 1946. No ano de 1947 conhece André Breton e é nesse mesmo ano que participa na fundação do «Grupo Surrealista de Lisboa», do qual se afasta em 1948, vindo a formar um novo grupo «Os Surrealistas». Com este participa na Primeira Exposição dos Surrealistas.
«Ao longo da exposição encontram-se alguns dos seus objectos que adquirem uma particularidade e mesmo uma aura que os retira do sentido do objecto escultórico e do ready-made. Apresentam-se antes com encontros de sentidos muito apurados, enquanto relações poéticas. Resultam de uma abordagem de vivência com o quotidiano e salientam-se pela sua simplicidade. É uma prática constante a dos objectos que vão sendo encontrados, e que Mário Cesariny vai revelando, quer pela articulação que estabelece entre eles, quer pela importância que lhes dá no seu dia-a-dia, quando os remete para o seu espaço particular, em específico o seu quarto e ali os vai mistificando e desmitificando, como se lhes fosse encontrando uma consideração, uma poética», escreve António Gonçalves a propósito desta exposição.
A exposição pode ser visitada de terça à sexta das 16h às 19h e das 21h00 às 23h, aos sábados das 15h às 19h e das 21h00 às 23h e aos domingos das 15h às 19h. A entrada é livre.
plb (com TMG)

Esta história deve estar muito fantasiada. Mas tem piada. É uma daquelas «boutades» da «fidalguia» rural da nossa zona, os grandes lavradores de cada terra: eles tinham dinheiro e exibiam-no. Eram os únicos que o tinham. E então esta de ter um carro americano devia dar um «sainete», que fax’ avor… se é que me entendem.

José Carlos MendesEste foi o primeiro carro da terra. Penso que era um Ford, pelo que me lembro de ouvir falar dele. Era por volta de 1930. Julgo ter sempre ouvido dizer que era um Ford 1928. Mas não foi este o primeiro carro que houve na Freguesia. Não. Em 1905, o Morgado de Santo Amaro comprou um dos primeiros carros de Portugal e sem dúvida o primeiro da nossa região. Foi titular da primeira carta de condução do País, datada desse ano (1905). Foi obra…
Mas voltemos ao Ford 1928.
Era de um dos lavradores mais abastados da terra: o sr. António Mendes. Se era de facto um Ford, era parecido com o da foto, a que retirei a matrícula.

A viagem era uma aventura
O sr. António Mendes comprou então o carro. Um carrão. Um luxo.
O pior eram as mãos do dono.
Parece que fazia tudo menos «conduzir». Andava no carro. Ia aos zigue-zagues pelos caminhos e estradas. Aliás, imagino, as saídas da garagem deviam ser muito poucas, porque a qualidade dos arruamentos era de certeza péssima.
Em todo o caso, contava-se à noite ao serão que um dia lá pegou no carro e… «ala que se faz tarde»: rumo à Guarda. Mas com umas peripécias que a todos encantava ouvir.
Era o caso de acentuar bem a inépcia do senhor ao volante.
Contava-se que a cada curva, lá parava e mandava o criado ver se lá vinha alguém.
Notem: isto era nos anos 30. Não havia carros por aqui, a não ser os carros de bois (melhor: de vacas – era assim que se dizia, é assim que se diz agora, mas já não há carros de vacas no Casteleiro há muito tempo…). Portanto, se viesse algum carro seria de vacas. Reparem na auto-confiança do homem: era preciso que o empregado («criado»: era o termo) fosse à frente e parasse o «trânsito»!
A viagem era uma grande e demorada aventura: os 30 km que seriam do Casteleiro à Guarda eram uma tortura para os dois viajantes.
A cena repetia-se pelas estradas adiante: nas curvas, o lavrador parava o carro para o criado sair e ir à curva assomar-se para diante a ver se não vinha de lá ninguém: nem pessoas nem carroças, nem algum carro que por ali eventualmente já circulasse. Afastado o perigo («Fujam, fujam, que vem aí o carro do sr. António Mendes») ou não o havendo, o criado, então, fazia sinais largos, gritava e «mandava» seguir o patrão…

Coitado do polícia
Assim, naquele dia, manhã cedo, lá foram andando para a Guarda: Casteleiro, Santo Amaro, Enguias, Carvalhal, Belmonte, cruzamento do Ginjal, Gonçalo, e por aí adiante, depois serra acima, serra abaixo, subida para a Guarda…
Entrada na cidade da Guarda. Estamos nos anos 30. O trânsito de automóveis era pouco, seguramente. Mas havia trânsito, ainda que também de carroças e tal. A prova disso é que havia dois ou três polícias sinaleiros em cruzamentos com maior afluência de tráfego.
Um desses locais, frente à Igreja da Misericórdia da Guarda, era exactamente aquele em que se deu o incidente. O. Porque terá sido uma situação muito, mas muito falada. É que o senhor António Mendes, homem rico e bem relacionado, não era propriamente um anónimo… e aconteceu um «qui pro quo» que podia ter sido grave. Foi apenas divertido e alvo de anedota. Mas podia ter sido mortal.
Muito simples de entender.
O sinaleiro lá estava na sua função. Manda parar este. Manda avançar aquele. Manda parar todos para passarem os peões… O normal para um sinaleiro.
Só que quando mandou parar o Senhor António Mendes, o homem atrapalhou-se, não consegue parar o carro, desata a esbracejar para o polícia, grita para o criado que mande sair o sinaleiro.
O sinaleiro esbracejava para o mandar parar. O carro não pára. Avança para o estrado do polícia. Leva o polícia no «capot», vai direito à muralha em frente, o polícia dá aos braços a segurar-se com dificuldade.
Valeu que a velocidade era pouca, felizmente, e tudo acabou em bem: não houve feridos.
Mas houve troca de piropos.
Diz o polícia, a arrumar-se e a limpar-se:
– Que diabo é isto? O senhor não me viu?
Resposta pronta e tranquila do sr. António Mendes (que bem sabia que a ele nada podia acontecer naquele tempo):
– Eu vi, que diabo. E o senhor não me viu a mim? Por mais que o avisasse o senhor não me saía da frente, o que é que quer?

Resolvida a questão, cada qual lá terá ido à sua vida e o incidente não teve qualquer consequência, como sempre, quando se tratava de grandes lavradores…
«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

JOAQUIM SAPINHO

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