«Detesto o que o senhor escreve, mas daria a minha vida para que o senhor continue a escrever», Voltaire (1694-1778).

Miguel Relvas

Esta citação, a propósito da liberdade de expressão (dia comemorado recentemente), remete-nos directamente para o assunto do momento: as pressões – ou as ameaças – sobre os órgãos de comunicação social e os seus profissionais. Consta-se que, o ministro Miguel Relvas, terá ameaçado uma jornalista do jornal Público e o próprio jornal, a ela, deque exporia assuntos da vida privada e a ele, seria-lhe negada informação do governo. E logo o ministro da propaganda! O assunto é gravíssimo. Se é verdade que o ministro ameaçou a jornalista com assuntos privados, a pergunta é: como obteve ele essa informação? E por quê a reserva/medo na publicação do artigo? Pelo que consta, o assunto era sobre as secretas. O que não deixa de ser curioso… ou preocupante! Se é verdade que a ameaça ao jornal de lhe ser negada a informação que é fornecida a todos os órgãos de comunicação social, então estamos perante uma situação de privilégios. Ambos os casos atentam contra o artigo 37º da Constituição da República portuguesa. Politicamente, parece-me, que devem ser tiradas ilações. Recentemente, na Alemanha da senhora Merkel, o presidente da república, foi obrigado a demitir-se por pressões sobre um jornal. Mas cá pelo burgo, tudo vai ficar igual, como se nada se tivesse passado. A política em Portugal funciona em sistema de corporativismo, protegem-se uns aos outros. Analisem as comissões de inquérito da Assembleia da República, e vejam as conclusões, condenações e decisões que até agora têm tomado! Zero.
Por falar em zero. Esta semana, lá na longínqua Hong Kong, o vice-presidente do BCE, ex-governador do Banco de Portugal, Dr. Vitor Constâncio, fez umas afirmações ou previsões, eloquentes. Diz tal personagem que, a Grécia pode vir a sair do euro. Tal com já fizera antes, numa antevisão digna de iluminados, que a Grécia passaria por uma crise profunda. Acresce dizer que esta última afirmação é feita em plena crise grega. E que aquela só deve querer dizer que a Grécia vai sair da zona euro. É que cá, lembramo-nos muito bem do fiscal Constâncio ao BPP, BPN… e ao seu magistério de regulador.
Mas nesta semana vieram à luz dois relatórios importantes: o relatório do Conselho das Finanças Públicas e o relatório com as previsões da OCDE. O primeiro aponta para uma visão demasiado optimista nas previsões e números do governo. Constatando-se que o corte nas despesas foram feitos nos salários e nos subsídios dos funcionários públicos, na saúde e na educação. As rendas milionárias continuam. As milhares de fundações do estado ou nas que tem parcerias, mantêm-se. Um ano depois de ter anunciado que as iria rever e acabar com muitas. Está tudo igual. As mordomias, os gastos sumptuosos em pareceres e encomendas de estudos aumentaram. As empresas do estado continuam a sugar dinheiro (a começar pelos gestores, e estes são cada vez mais). Portanto, não vejo onde está a admiração de tantos perante este relatório. O facto, é que todas as previsões feitas pelo governo e pelos iluminados que o aconselham, incluindo a troika, têm saído furadas. A OCDE aponta para um aumento do desemprego para os 16%. Aponta para quase paragem da economia interna e uma lenta retoma das exportações. Também nada de novo. Não é preciso ser nobel em economia para prever esta situação. Afinal, com o aumento do desemprego e consequente perda de compra, não há consumo. Não havendo consumo, não há produção. Não havendo produção, não há emprego. Não havendo emprego, não há pagamento de impostos. Não havendo pagamento de impostos, não há receitas do estado. Não ensinaram isto ao senhor ministro Gaspar lá, os seus amigos de Chicago?! Hoje já somos o país com os impostos mais elevados na zona euro. O que fará o governo a seguir? Fecha o país? Ou manda às malvas a estupidez merkeliana e começa a governar Portugal?
«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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