Há abismos que as chuvas de abril e maio não atestaram nem o sol da Primavera consegue aclarar quomodo são cavados entre a realidade e o desejável.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Há, de facto, abismos que se abrem entre o que se ouve, entre o que nos explicam nas televisões, rádios ou jornais e a vida que, paralelamente, vivemos.
Não há, então, um só abismo. Há vários… Há a abismal ousadia de dizer (alguns dos que, tranquilamente, dizem) que estes dias, abismais, ainda não são os piores dias.
E há, claro, um abismo profundo entre os que pensam (sem nada dizerem) e aquilo que alguns imaginam que eles podem, realmente, pensar ou dizer. Poder-se-á, para esses, imaginar maiores desgastes físicos e emocionais?
Eis, assim, um outro abismo feito de angústia e de escassez de esperança. Se eles falassem (os que nada dizem) falariam, certamente, do excesso de angústia e do défice de expectativas.
Entretanto vão-nos dizendo (alguns dos que dizem) que sim, que nos entendem e que nos escutam. Mas o que eles dizem entender não é o que lhes é pedido. O que se lhes pede, o que se lhes exige são novos dias para quem, há muito, espera um novo dia. Há, aqui, portanto, mais um abismo entre o que é pedido e o que é concedido.
Há, ainda, quem diga que não, que não nos entende, que não consegue perceber o que nos aflige, que não se pode ceder e que, muitas das queixas são fitas e, até, podem ser chantagens. Mas a maioria dos queixosos pensam como quase todos embora, sim, seja verdade que há um quase que falta ao todo e esse quase pareça concordar com quem fala de fitas ou de chantagens.
Eis, então, exposto, um outro abismo. Este, não entre mandantes e mandados, mas entre nós e nós. Entre o quase que falta ao todo e os que temem um fim indigente. Entre os aflitos e os que chamam aos aflitos fiteiros ou chantagistas. Entre os tementes e os que, prefasiando alguns dos que mandam, falam de oportunismos.
Ora, definitivamente, não. Não é o ritmo nem o tom das conversas (dos que dizem) que nos convencem, que evitam o desespero que nos desconcerta, que nos isentam do que nos deprime, que silenciam o que nos atordoa, que nos aplanam abismos.
Ainda assim, talvez quem manda deva reflectir. É que há ainda uma outra espécie de abismo. O abismo aberto entre o comportamento de quem ordena e a reacção daqueles de quem se espera que obedeçam. Quem manda nem sempre demonstra muita cultura democrática, sobretudo quando tenta calar (apesar das angustias e dos défices de expectativas) manifestações de desagrado com intimidações exageradas.
Esse é, afinal, o mais perigoso dos abismos. É o abismo fundeado na degradação da democracia. E, claro, assim sim, poder-se-á caminhar para dias ainda mais difíceis se não for aberta a possibilidade de ouvir os argumentos de quem interpela, daqueles que, no fundo, também têm o direito de dizer e, até, de anular, de aplanar abismos.
Há, pois, quem revele desprezo e insensibilidade suficientes para fazer desejar séria avaliação independentemente da ideia que se tenha do conceito de razoabilidade.
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo